Wallace diz que jogador que expressa opinião no futebol recebe críticas em dobro

Wallace ainda revelou a situação da Turquia em meio ao coronavírus, o país foi um dos últimos campeonatos no mundo a parar por causa da pandemia

Jeferson Macedo
Colaborador do Torcedores.com.

Foto: Divulgação/ECVitória

O perfil do jogador brasileiro é diferente do europeu, nota-se isso em relação a questões que vão além do futebol e envolve a sociedade como um todo; politica, preconceito entre outras coisas. No velho continente, não é difícil de encontrar atletas que se posicionam nessas ocasiões, já no Brasil são raros os que falam sobre esses assuntos. Aos 32 anos, Wallace Reis, zagueiro ex-Corinthians, Flamengo e Grêmio e atualmente no Göztepe, da Turquia, segue uma linha diferente e diz que isso incomoda alguns setores do esporte.

“É a quebra de um paradigma, sim [mostrar personalidade]. Não que eu seja intelectual, sou um cara comum e que gosta de ler. Sou ignorante pra caceta! Sei muito menos do que gostaria. No futebol, muito cara chega sem estrutura familiar e quem joga futebol já é marginalizado. Imagina ser um cara incomum, que fala uma frase fora do convencional. Isso incomoda, incomoda torcida e parte da imprensa”, afirmou o jogador em entrevista ao UOL Esporte.

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Ainda sobre a imprensa, o Wallace diz haver uma contradição e que os atletas sofrem muito mais depois de se posicionar, ou seja, além do futebol isso é um problema social e no esporte não poderia ser diferente, por exemplo, a o jogador pode ser perseguido pela torcida por um posicionamento politico diferente.

“Ao mesmo tempo que a imprensa pede entrevista diferente, posicionamento, quando esse cara se posiciona, o posicionamento se vira contra quem falou. Quem se posiciona, hoje em dia, é cobrado depois por algo que ficou guardado esperando a hora de ser explorado. Tem uma espécie de ditadura para o jogador não se posicionar”, continuou. “Quando falo em ditadura, é o contexto. Pode ser palavra forte, então mudo para repressão. Repressão para não exprimir opinião, emitir opinião te coloca em situação onde pode ser julgado. Quando entra em campo, você é julgado. E ao se posicionar vem a crítica dobrada”, disse.

Amante da leitura, Wallace diz que costuma presentear os amigos jogadores com livros: “Eu acabei de encomendar ‘Abusado’, do Caco Barcelos. Geralmente eu dou esse livro para jogador, dou de presente mesmo. Dei a Gabriel, que está no Coritiba, Paulo Victor aí no Grêmio, Arthur Maia. Dei a Cleber Santana [uma das vítimas do voo da Chapecoense], Hernane, Filipe Garcia. Eu distribuo livros mesmo”, revelou.

Muito se fala que os jogadores de futebol são mimados, Wallace que isso acontece porque os atletas são mal acostumados, já que tudo gira em torno deles.

“A gente foi educado, eu jogo futebol desde os 11 anos, a ser preguiçoso. A terceirizar nossas necessidades e anseios. A gente tem quem leva água, a gente tem quem imprima passagem, gente que leve roupa que a gente compra. O clube formador tem muita culpa, claro. Bota o atleta como refém e ele acaba sofrendo com isso no pós-carreira. A carreira é curta, mas tem gente que para com 22 ou 23 anos e a formação dele no futebol fica para a vida”, opinou.

A pandemia

Atualmente no futebol turco, último a parar por conta da pandemia do novo coronavírus, Wallace revelou como está a situação no país: “Fomos o último país a parar mesmo, mas não houve registro de muitos casos, então, também não houve histeria do povo. Provavelmente vamos voltar aos treinos na próxima semana”, disse. “Quem ficou apreensivo mesmo foram os estrangeiros. Os turcos lidam bem com isso, até pelo histórico de conflitos na região e tudo”, completou.

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