Iberê Riveras: Proposta de integração do Campeonato Paulista ao calendário nacional

A partir de 2022, A2, A3 e ‘Bezinha’ passariam a corresponder às séries E, F e G – pelo Estado de São Paulo – do Campeonato Brasileiro

Iberê Riveras
Colaborador e colunista do Torcedores.com.

Foto: Reprodução do arquivo com a proposta de integração do Campeonato Paulista com o calendário nacional

  • A1, com número móvel de clubes e curta duração, seria disputada apenas pelos clubes COM DIVISÃO NACIONAL
  • A2, com 16 clubes e maior duração, indicaria 4 clubes para A1 e Série D do ano seguinte; para fixar-se na A1, só subindo para a Série C do Brasileiro
  • A3, com 32 clubes divididos em 2 grupos regionalizados, daria ‘vida nova’ ao futebol do interior
  • ‘Bezinha’, dividida em 2 grupos regionalizados e com menos exigências da FPF – talvez semiprofissional –, incentivaria a criação de novos clubes e o retorno de velhos

No dia 21 de março, alguns dias após a paralisação do Campeonato Paulista por conta da Covid-19, nossa coluna sugeriu que os clubes do interior das séries A1, A2 e A3 passassem a pensar no campeonato de 2021. A ideia não era tirar o valor de algumas boas campanhas interrompidas pela pandemia – que ainda não sabemos se serão retomadas, por mais que a sempre política Federação Paulista de Futebol garanta que sim –, mas fazer notar o quanto nos acostumamos a uma organização ‘de fachada’ das competições disputadas em solo paulista. A FPF, faz tempo, encanta serpentes.

Mais importante do que o desfecho das séries A1, A2 e A3 de 2020 é, mesmo, debruçar sobre qual o rumo que queremos dar para o ‘motor’ do futebol paulista, os clubes que não têm calendário para a sequência do ano e que mobilizam centenas e centenas de profissionais, de atletas a locutores de rádio, passando por roupeiros, ‘tias da cozinha’.

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Neste 2020, seriam ao todo 90 clubes – 63 do interior – divididos em quatro divisões: as três primeiras com 16 clubes e a última com 42. Não há explicação satisfatória que justifique por que as séries A2 e A3 têm os mesmos três meses de duração da A1, que tem 13 dos 16 clubes envolvidos nas séries A, B, C ou D do Campeonato Brasileiro – o São Bento é a exceção, já que está na A2 do Paulista e na Série C do Brasileiro.

Chapado por uma mistura de ansiedade pela volta do futebol com a guerra ideológica pela qual o país atravessa, o meio futebolístico tem se mostrado, mais uma vez, incapaz de fazer a sua autocrítica, aprofundar o debate sobre questões estruturais que vão além do problema da pandemia. Até mesmo a classe jornalística, supostamente mais estudada e independente, não mete o dedo na ferida, limitando-se a reportar fatos. Em todas as áreas, o Brasil clama por cabeças pensantes dispostas a aprofundar o debate, agregar valores e, enfim, questionar as instituições que mais se parecem com organizações mafiosas, tomadas por interesses pessoais e jogos políticos. O futebol brasileiro pertence a seus clubes!

Nossa proposta de um novo e revolucionário Campeonato Paulista é apenas uma em meio a tantas outras que podem surgir. Vale lembrar que o atual modelo foi introduzido pelo ex-presidente da FPF Eduardo José Farah em 1994, quando os campeonatos estaduais dividiam o ano ao meio com o Campeonato Brasileiro. Lá se vão 26 anos! De lá para cá, os clubes sem divisão nacional têm calendário cada vez mais reduzido – agora, são três meses. Quantas vidas de trabalhadores têm sido afetadas pelo enxugamento das competições?

Se a Série A1 hoje em dia é uma pedra no sapato dos clubes com divisão nacional – o Campeonato Brasileiro e a Libertadores se tornaram muito mais importantes –, o campeonato estadual é tudo o que um clube sem divisão nacional tem para se sustentar. Mais decisivo do que o debate sobre a extinção ou não dos campeonatos estaduais ou de quando a Covid deixará a bola rolar é descobrir um jeito de adaptá-los, destinando a eles todo o apoio comercial que uma federação estadual deveria oferecer. Para uma ponta de pirâmide brilhante, com craques em profusão e campeonatos de elite bem jogados, é preciso uma base sólida, com clubes pequenos em condições de arar a terra, semear, colher os frutos. Não é uma utopia, é uma necessidade. Para o bem do futebol brasileiro.

Na próxima semana, a Federação Paulista de Futebol fará mais uma série de videoconferências com os presidentes dos clubes das séries A1, A2 e A3. O tema central deverá ser os protocolos de segurança para a volta do futebol. Qual futebol queremos que volte? Coragem, de verdade, é mudar, se reinventar.

Os interessados em receber o arquivo da proposta, em Excel, podem entrar em contato pelo e-mail ibere.riveras@gmail.com.

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Veja abaixo, ano a ano, como poderia se dar a adequação do Campeonato Paulista ao calendário nacional.

2020

  • Conclusão das séries A1, A2, A3 em campo (se em virtude da Covid-19 a bola não voltar a rolar, a proposta não se altera)
  • 4 vagas para a Série D do Brasileiro de 2021 via Campeonato Paulista, já que a Copa Paulista não poderá ser realizada
  • ‘Bezinha’ disputada pelos clubes ainda interessados – eram 42, mas alguns já desistiram; acesso de 2 clubes para a A3 de 2021
  • Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Santos e Red Bull Bragantino disputarão a Série A do Brasileiro
  • Ponte Preta, Guarani, Botafogo de Ribeirão e Oeste disputarão a Série B do Brasileiro
  • Ituano e São Bento disputarão a Série C do Brasileiro (a proposta vai considerar que estes clubes não subam nem desçam)
  • Mirassol, Novorizontino e Ferroviária – o São Caetano desistiu da competição – disputarão a Série D do Brasileiro (a proposta vai considerar que estes clubes não conseguirão o acesso, mas se conseguirem o ajuste será bem simples)

2021

  • Repetição do número de clubes (16) nas séries A1, A2 e A3 (se A3 não tiver rebaixados, seria disputada por 18 clubes)

A1

  • 3 melhores SEM DIVISÃO NACIONAL garantiriam vaga para A1 e Série D de 2022
  • Piores clubes SEM DIVISÃO NACIONAL seriam encaminhados para a A2 de 2022

A2

  • Melhor clube SEM DIVISÃO NACIONAL garantiria vaga para A1 e Série D de 2022
  • Vagas na Copa do Brasil de 2022 seriam ofertadas aos melhores
  • Clubes da faixa intermediária da classificação garantiriam a manutenção na A2 de 2022
  • 4 piores SEM DIVISÃO NACIONAL seriam encaminhados para a A3 de 2022

A3

  • Com 16 ou 18 clubes, 3 melhores seriam encaminhados para a A2 de 2022
  • Vagas na Copa do Brasil de 2022 seriam ofertadas aos melhores
  • Não haveria rebaixamento

‘Bezinha’

  • (Se A3 tiver 16 clubes) 15 primeiros seriam encaminhados para a A3 de 2022

Brasileiro

  • Além dos clubes paulistas das séries A, B e C, outros 4 terão a chance de conseguir o acesso para a Série C, o que significaria a vaga automática para a A1 de 2022 (se a bola não voltar a rolar no atual Campeonato Paulista por conta da Covid-19, a FPF deverá indicar Santo André, Mirassol, Inter de Limeira e Novorizontino como representantes de SP)

2022

A1 (hoje seriam 15 clubes, mas este número seria móvel)

  • Disputada apenas pelos clubes das séries A, B, C e D do Brasileiro; os 4 da Série D teriam vindo da A1 de 2021 (3) e da A2 de 2021 (1)
  • Garantia de alto nível técnico para acordos comerciais
  • Não haveria mais rebaixamento via Campeonato Paulista, apenas via Campeonato Brasileiro
  • Hoje, a A1 tem 16 datas disponíveis e a fórmula de disputa é uma lástima
  • Com criatividade, o aumento ou a diminuição gradual de clubes, de ano para ano, poderia não descaracterizar a sua fórmula de disputa
  • Pontos corridos em turno único seria uma alternativa
  • Dois grupos, com cruzamento na fase final, outra
  • Se um dia a CBF resolver liquidar os campeonatos estaduais para os clubes COM DIVISÃO NACIONAL, o Estado de São Paulo já estaria preparado
  • Modelo poderia ser seguido por outras federações estaduais

A2 – Série E/SP (permanentemente com 16 clubes)

  • 4 melhores garantiriam vaga para a A1 e a Série D de 2023 – se não conseguirem o acesso para a Série C, voltarão para a A2 de 2024 e começarão nova trajetória
  • Competição de alto nível, necessitaria de APOIO COMERCIAL da FPF
  • A sonhada INDEPENDÊNCIA DE CALENDÁRIO em relação aos clubes COM DIVISÃO NACIONAL
  • Jogos de ida e volta (30 datas), mais a fase final (4 ou 6)
  • Previsão de, a princípio, 6 meses de disputa, o que transformaria a vida de centenas de profissionais
  • 3 piores seriam rebaixados para a A3 de 2023

A3 – Série F/SP (permanentemente com 32 clubes divididos em 2 grupos)

  • 3 melhores garantiriam vaga para a A2 de 2023
  • Dividida em Leste e Oeste, cada grupo com 16 clubes
  • Competição de nível intermediário, necessitaria de APOIO COMERCIAL da FPF
  • Jogos de ida e volta dentro do grupo (30 datas), mais a fase final cruzando com o outro grupo (4 ou 6)
  • Previsão de, a princípio, 6 meses de disputa, o que transformaria a vida de centenas de profissionais
  • 3 piores seriam rebaixados para a ‘Bezinha’ de 2023

‘Bezinha’ – Série G/SP (hoje seriam 27 clubes, divididos em 2 grupos, mas este número seria móvel)

  • 3 melhores garantiriam vaga para a A3 de 2023
  • Dividida em Leste e Oeste
  • Competição de baixo nível técnico, mas ‘futebol raiz’, necessitaria de APOIO COMERCIAL da FPF
  • Jogos de ida e volta dentro do grupo, mais a fase final cruzando com o outro grupo
  • Previsão de, a princípio, 6 meses de disputa, o que transformaria a vida de centenas de profissionais ou semiprofissionais

Brasileiro

  • Pela última vez, os representantes de SP na Série D viriam da Série A1 (3 deles) – 1 viria da A2

2023

Brasileiro

  • Pela primeira vez, os 4 representantes de SP na Série D viriam da Série A2