De fuga e insegurança a destaque e titularidade: como Patrick de Paula saiu de comunidade no RJ para se tornar peça-chave no Palmeiras

Volante teve início em equipe de comunidade no Rio, se destacou e chegou ao Verdão

Matheus Camargo
Colaborador do Torcedores.com.

Crédito: Divulgação/Arquivo/Cara Virada

Quem vê o volante Patrick de Paula no domínio do meio-campo do Palmeiras pouco imagina que há poucos anos o atleta estava em um projeto social em Santa Margarida, comunidade da zona oeste do Rio de Janeiro, e por pouco não perdeu sua chance no Verdão.

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Destaque no sub-20 do Palmeiras, foi integrado ao profissional no início de 2020 e chamou a atenção de toda a comissão técnica pela personalidade. Patrick não sentiu o peso de atuar entre os principais atletas do elenco e conquistou espaço rapidamente na equipe titular.

“O curioso é que a gente esperava sim”, revelou Carlos Felipe, o Zanata, um dos fundadores do Cara Virada, projeto social que revelou Patrick de Paula no Rio de Janeiro.

“Sabíamos o que tínhamos aqui. O projeto serve para tirar as crianças da rua, mas aparecem algumas joias aqui. Com ele a gente tinha isso.”

Fundado em 2002 por vários amigos no bairro de Santa Margarida, o Cara Virada tem como prioridade tirar as crianças das ruas e levá-las para o mundo do futebol.

Patrick ficou dos 13 aos 17 anos no projeto, quando brilhou no torneio Amador da Capital, organizado pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) e chamou a atenção do Palmeiras, que acompanhou a semifinal e a final do torneio de 2016.

Palmeiras

Patrick em treino no projeto Cara Virada (Divulgação/Arquivo/Cara Virada)

O clube convidou Patrick e mais um jovem do Cara Virada para testes na Academia de Futebol e queria levá-los no sábado, logo após a final. O volante foi o artilheiro do Amador da Capital com 18 gols.

“Outros clubes queriam, mas o Palmeiras estava marcando. Queriam comprar a passagem para o mesmo dia da final. Fomos campeões no sábado, não deixei irem no mesmo dia, deixassem os meninos comemorarem. Mas foram no domingo”, explicou Zanata, que comandou Patrick e acompanhou o crescimento do volante no projeto.

“Haviam mais uns quatro da categoria dele, inclusive jogando tanto quanto ele, mas não acreditaram, não acreditaram no próprio trabalho. Passou o tempo e ficaram pelo caminho. Ele sempre treinou muito. O Patrick nem soltou ainda, ele é muito habilidoso, decisivo.”

Para se tornar o craque do sub-20 do Palmeiras, Patrick precisou passar por um teste no clube. Avaliado pela comissão técnica, foi elogiado, mas pediram para que o então jovem de 17 anos seguisse no alojamento. O sub-20 estava em viagem para o Japão e o treinador retornaria em alguns dias para mais testes.

Foi então que Patrick, inseguro, e o amigo, não quiseram esperar e decidiram voltar para casa.

Patrick em seu primeiro teste no Palmeiras (Divulgação/Arquivo/Cara Virada)

“Eles foram para lá, já era final de temporada, final de ano. Se não me engano, era treino do sub-17, mas não interessava para eles, já iam completar 18 anos. O sub-20 estava com viagem marcada para o Japão. Eles fizeram o teste e arrebentaram, mesmo sem ter jogado em lugar nenhum, só aqui com a gente”, lembrou o fundador do Cara Virada.

“Mas aí você começa a pensar na mudança, no impacto da coisa. De repente está dentro do Palestra Itália, na Academia do Palmeiras. Chegando lá, fizeram os testes. O treinador do sub-20 viajou e falou para eles ficarem no alojamento, porque quando voltassem, seriam avaliados, queria ver um pouco mais. Aí os garotos, da idade né, namorada, família, veio a pressão. Deixaram o alojamento, vieram sozinhos para cá. De repente estávamos conversando do projeto e eles aparecem na esquina. Malucos, não era para terem vindo.”

O Palmeiras entendeu o ato como indisciplina, mas parece ter percebido o potencial do volante. “Com muito custo, conversaram e na ocasião o Palmeiras autorizou a volta, mas apenas do Patrick”, confirmou Zanata.

Foi aí que o jogador ficou no clube, passou nos testes e passou a integrar o elenco sub-20.

O ano da afirmação
Patrick iniciou 2017 no Palmeiras, mas mostrava alguma insegurança. Segundo volante de origem, cobrador de faltas e artilheiro do Amador da Capital, viu alguns treinadores pedirem sua mudança para a lateral-esquerda.

“Ele fazia perguntas, estava inseguro. Perguntava se tinha que mudar de posição, queriam que ele fosse para a lateral-esquerda. Eu falei: ‘você vai para a Seleção como segundo volante'”, lembrou o ex-treinador do camisa 5.

O jogador realmente não aceitou a mudança e seguiu na busca de espaço como volante – até conseguir.

Em 2018, Patrick marcou sete gols em torneios de base pelo Palmeiras, sempre em finalizações de fora da área ou em cobranças de falta.

Em 2019, então, mais maduro, se soltou de vez e se tornou a peça-chave do sub-20 multicampeão do alviverde. Foram 10 gols em 50 jogos e uma promessa: iria para o profissional em 2020. Foram três títulos importantes na categoria: uma Copa RS, um Brasileirão e a Copa do Brasil sub-20. Com mudanças no elenco profissional, a chegada era certa.

Foi então que Vanderlei Luxemburgo promoveu o jogador e deu a ele a incumbência de ser o volante da saída de jogo. Com qualidade no passe, o camisa 5 tem atuado mais fixo, à frente da zaga, mesmo a contragosto de seu primeiro treinador.

“Ele está jogando fixo, muito parado. Achamos que ele tem que ser mais móvel, acredito que seja orientação do treinador. Na base já falávamos isso: falta mobilidade. Tem que ter aquele puxão de orelha: ‘olha, você tá andando, não venceu ainda, está acontecendo, mantenha os pés no chão'”, pediu Zanata.

O primeiro gol e a expectativa
No domingo (2), contra a Ponte Preta, Patrick marcou o gol que classificou o Palmeiras para a final do Paulistão. Com um chute de fora da área, garantiu o Verdão na decisão contra o Corinthians.

“O Patrick nem soltou ainda, ele é muito habilidoso, decisivo. Foi o tipo de lance dele. Ele ainda está longe da área, acaba limitando as ações, mas quando ele chega, quando se aproxima da área, ele define a jogada, acerta o gol”, garantiu Zanata.

“Ele vai para cima do marcador, tem recurso de drible, tem confiança nisso. Tem muita personalidade, sempre teve”, garantiu um dos fundadores do projeto no Rio de Janeiro, que relembrou o exato momento do gol de Patrick no domingo.

“Ah, o orgulho foi gigante. Teve um amigo que falou: ‘o Palmeiras agora vai dar uma pancada’. Eu falei: ‘não! Vai ser 1 a 0 com gol dele,’.”

Já foram 10 jogos na equipe principal e consolidação na equipe titular ao lado do companheiro Gabriel Menino, que também saiu das categorias de base para o profissional em 2020.

A expectativa de Patrick, porém, não é deixar o Palmeiras ir para a Europa. O sonho, segundo Zanata, sempre foi outro.

“Eu acho que ele não vai para a Europa agora. Ele quer chegar à Seleção Brasileira, ao menos foi isso o que conversamos aqui antes dele sair. Ah não ser que apareça uma grande proposta.”

A verdade é que Patrick já caiu nas graças de Luxemburgo e principalmente do torcedor do Palmeiras, que não enxerga mais o time titular sem o camisa 5. O volante será titular no jogo de ida da decisão do Paulistão nesta quarta-feira (5), contra o Corinthians, na Arena Corinthians, às 21h30.

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