Dunga e as especulações no Corinthians: qual é o perfil ideal para um treinador de futebol?

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa os principais trabalhos do capitão do Tetra e o que se passa na cabeça dos nossos dirigentes durante a escolha de um treinador nos principais clubes de futebol e na Seleção Brasileira

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rafael Ribeiro / CBF

Enquanto tenta se recuperar na tabela do Campeonato Brasileiro e espantar a má fase, o Corinthians segue em busca de um novo treinador após a saída de Tiago Nunes. A diretoria vem cogitando e estudando nomes como Sylvinho (ex-jogador do clube e ex-auxiliar de Tite na Seleção Brasielira), o experiente Dorival Júnior e Dunga (ex-técnico da Seleção Brasileira e ex-jogador do Timão nos anos 1980). O capitão do tetra agrada ao presidente Andrés Sanchez e é tido por ele como um dos poucos capazes de “suportar a pressão por resultados”. No entanto, seu nome sofreu uma imensa rejeição por parte dos torcedores corintianos nas redes sociais. A questão aqui nem é saber se Dunga merece mais uma chance como treinador, mas tentar entender o que se busca num técnico para comandar uma determinada equipe de futebol. Ser motivador e “saber suportar a pressão” é suficiente?

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A história conta que é preciso fazer as perguntas certas para obter as respostas certas. E nesse ponto, analisar todo o contexto envolvido na escolha deste ou daquele técnico pode ser determinante para o sucesso ou o fracasso de uma equipe de futebol. A chegada de Dunga à Seleção Brasileira após a Copa do Mundo de 2006 tem muito a ver com isso. Principalmente por conta do “espírito da época”. A CBF, contrariada por conta da bagunça na preparação do escrete canarinho para o Mundial da Alemanha, apostou no tetracampeão para assumir o papel de um “general” dentro da equipe, alguém que acabasse com a desorganização e falta de comprometimento na Seleção Brasileira. Vale lembrar que Dunga fazia a sua estreia como treinador e que a já mencionada CBF esperava que o “espírito vencedor de 1994” voltasse a tomar conta dos jogadores convocados para servir ao escrete canarinho.

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Dunga até que teve bons momentos no comando do escrete canarinho. Venceu a Copa América em 2007, a Copa das Confederações em 2009 e terminou as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010 em primeiro lugar com direito a vitória sobre a Argentina no Gigante de Arroyto. Mesmo com os problemas com a imprensa e a já conhecida teimosia, o capitão do Tetra armou uma equipe competitiva num 4-2-3-1 “torto” pela direita. Luís Fabiano, Kaká e Robinho formavam o trio ofensivo enquanto Elano (depois Daniel Alves) fechava um pouco mais por dentro. A boa campanha no Mundial da África do Sul acabaria interrompida pelas falhas de Felipe Melo e Júlio César nas quartas de final contra a Holanda de Robben, Van Persie e Sneijder. Toda a boa campanha dos anos anteriores caía por terra por conta da teimosia de Dunga na formação de um banco de reservas confiável para a Copa do Mundo.

Dunga montou uma Seleção Brasileira competitiva e conquistou ótimos resultados antes da disputa da Copa do Mundo de 2010. No entanto, a equipe foi eliminada pela Holanda por conta das falhas de Felipe Melo e Júlio César e do fraco banco de reservas escolhido pelo capitão do Tetra.

Após a Copa do Mundo da África do Sul, Dunga permaneceu quase dois anos parado até assinar com o Internacional em dezembro de 2012, sua primeira experiência como treinador num clube. Recebeu um elenco recheado de nomes de peso, como o uruguaio Diego Forlán, o argentino D’Alessandro, o volante Fred (hoje no Manchester United), o goleiro Muriel (hoje no Fluminense) e o atacante Leandro Damião (hoje no Kawasaki Frontale, do Japão). Repetiu o mesmo 4-2-3-1 “torto” pela direita de muita força na marcação com Aírton e Willians e que liberava os laterais Gabriel e Fabrício para o apoio, mas sem a consistência necessária para se impor diante dos adversários. O título gaúcho de 2013 deu moral, mas a sequência de quatro derrotas seguidas no Brasileirão daquele mesmo ano seria fatal para Dunga, que deixou o comando do clube que o revelou após derrota de 3 a 1 para o Vasco.

Dunga teve a sua primeira experiência como treinador de um clube no Internacional campeão gaúcho de 2013. Repetiu o mesmo 4-2-3-1 “torto” pela direita que liberava os laterais para o apoio e mantinha Forlán próximo de D’Alessandro e Leandro Damião. Acabaria saindo por conta da campanha ruim no Brasileirão.

Logo depois da Copa do Mundo de 2014 (e dos 7 a 1 para a Alemanha), Dunga retornaria ao comando da Seleção Brasileira como substituto de Luiz Felipe Scolari. Tentou manter uma boa relação com a imprensa, mas ainda não tinha o lastro necessário para suportar a pressão do cargo. Foi eliminado nas quartas de final da Copa América de 2015 pelo Paraguai (nas penalidades) e fazia campanha ruim nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia. A Copa América Centenário seria uma chance para Dunga mostrar que sua equipe não era dependente de Neymar (que não disputou a competição nos Estados Unidos como parte da negociação para estar nos Jogos Olímpicos Rio 2016). Seu 4-2-3-1 não deu liga apesar dos bons nomes escolhidos e a Seleção Brasileira seria eliminada ainda na primeira fase após derrota para o Peru. Dunga seria novamente demitido dois dias depois da eliminação.

Dunga escolheu bons nomes para a Copa América Centenário, mas a equipe não deu liga e encontrou muitas dificuldades nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 e foi eliminada ainda na primeira fase da Copa América Centenário. Seu 4-2-3-1 preferido carecia de consistência e organização tática.

Voltando ao início do texto, a impressão que fica é a de que Dunga foi escolhido apenas pelo seu perfil mais duro, motivador e pelo histórico de liderança nos clubes por onde passou como jogador. E trazendo para o nosso cenário atual, este que escreve fica se perguntando se o problema do Corinthians está apenas no banco de reservas. O elenco não é dos melhores, a diretoria errou muito a mão nas decisões extracampo e parece buscar um “escudo” para se proteger das críticas. O contexto da chegada de Dunga na Seleção Brasileira após a Copa do Mundo de 2006 é bem claro nesse sentido. Nem se trata aqui de se perguntar se o capitão do Tetra merece outra chance como técnico. É saber o que está motivando essa escolha ou pelo menos entender por que seu nome sempre é ventilado em equipes que passam por dificuldades numa determinada temporada. Nunca para iniciar um projeto.

O futebol atual nos mostra que ser motivador e “saber suportar a pressão por resultados” são sim pontos importantes no trabalho de um treinador. Mas comandar uma equipe envolve muito mais coisas. A pergunta certa precisa ser feita para que se obtenha a resposta certa. E Dunga não parece ser a resposta mais correta para as dúvidas que o Corinthians vem levantando.

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