Avaí/Kindermann joga no limite, segura o São Paulo e se garante na grande final do Brasileirão Feminino

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a classificação das Avaianas Caçadoras e alguns dos problemas do time comandado por Jorge Barcellos

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Leandro Boeira / Avaí Futebol Clube

O feito do Avaí/Kindermann é enorme e merece sim ser celebrado. Não somente pelo projeto sério, mas pela aplicação de toda a equipe e comissão técnica ao longo de todo o Brasileirão Feminino Série A1. A campanha das Avaianas Caçadoras mostra muito bem a consistência do trabalho de Jorge Barcellos. São dez vitórias, quatro empates e cinco derrotas (num total de 29 partidas), com 46 gols marcados e apenas 17 sofridos. Mesmo assim, a atuação do Avaí/Kindermann na derrota para o bom time do São Paulo na tarde deste sábado (14) foi abaixo do esperado. É lógico que a vitória por 3 a 1 no jogo de ida fez com que a equipe catarinense relaxasse um pouco e adotasse uma postura mais pragmática do que o usual. Por outro lado, a impressão que ficou é a de que Lelê, Bárbara, Bruna Calderan e companhia jogaram no limite e sofreram além do necessário.

Desde o início da partida na Ressacada, ficou bem claro que o técnico Jorge Barcellos havia escolhido uma postura mais cautelosa para essa partida contra o São Paulo. O objetivo era fazer com que o Avaí/Kindermann (que entrou em campo organizado num 4-1-4-1 com Zoio, Duda e a ótima Júlia Bianchi jogando por dentro e com Carol, Pat e Lelê fazendo o tridente ofensivo. No papel, o escrete catarinense sabia bem como se distribuir em campo e como explorar os espaços que iriam aparecer no campo ofensivo. O grande problema estava na falta de compactação e na afobação das jogadoras de meio-campo. Não foram poucas as vezes em que todo o setor simplesmente abandonou seu posto e sobrecarregou a última linha. Sem marcação, Glaucia, Carol, Jaqueline e Yaya chegaram várias vezes com perigo ao gol defendido pela experiente Bárbara. Faltava concentração.

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A falta de compactação e organização do meio-campo do Avaí/Kindermann foi bastante explorada pelo time do São Paulo na partida deste sábado (14). O escrete catarinense pecou demais pela falta de concentração para executar os movimentos do 4-1-4-1 de Jorge Barcellos. Foto: Reprodução / BAND

Quando o Avaí/Kindermann conseguia se organizar no 4-1-4-1 desejado pelo seu treinador, a equipe catarinense seguia concedendo espaços na frente da sua área. Além disso, todo o sistema defensivo hesitava demais nas bolas aéreas. Principalmente a goleira Bárbara, que são cortou o cruzamento que Carol escorou para Duda marcar o único gol da partida aos 40 minutos da primeira etapa na Ressacada. O Avaí/Kindermann jogava no limite da sorte e concedia espaços demais. Mesmo com a grande vantagem obtida no jogo de ida, disputado na Arena Barueri. Faltava consistência em todo o sistema de marcação para realizar os movimentos da maneira correta e frear o ímpeto ofensivo de Glaucia, Carol e companhia. Fora isso, não era raro ver Zoio se desdobrando para tentar bloquear os passes do Tricolor Paulista no meio-campo diante da falta de combatividade da sua equipe.

Mesmo quando conseguia se organizar no 4-1-4-1 desejado por Jorge Barcellos, o Avaí/Kindermann sofria com a falta de concentração e com os espaços entre as suas linhas. Fora isso, todo o sistema defensivo errava demais na marcação nas bolas aéreas. Principalmente a goleira Bárbara. Foto: Reprodução / BAND

Vale lembrar também que as Avaianas Caçadoras também desperdiçaram duas grandes chances de abrir o placar com Lelê se lançando às costas de Gislaine e Thais e recebendo os passes longos. E isso bem antes de Duda marcar o gol do São Paulo. Ou seja, o Avaí/Kindermann poderia ter controlado a partida desde o apito inicial se tivesse jogado com mais concentração e sem tanta displicência em determinados momentos. É claro que o São Paulo se lançava ao ataque e deixava espaços na sua defesa (postura até certo ponto natural para quem tentava tirar uma desvantagem de dois gols jogando na casa das adversárias). Só que a impressão que ficou foi a de que a equipe catarinense poderia ter produzido mais no ataque se tivesse explorado mais os espaços do 4-4-2 tricolor na Ressacada. Ainda mais com as comandadas de Lucas Piccinato concedendo tantos espaços no seu campo.

Impossível não concluir que o Avaí/Kindermann poderia ter controlado a partida desde o início. Primeiro por conta da vantagem obtida no jogo de ida. E depois por causa dos espaços deixados pelo São Paulo no campo ofensivo. Faltou mais concentração nas tomadas de decisão nos momentos decisivos. Foto: Reprodução / BAND

Mesmo com os problemas relatados anteriormente, o Avaí/Kindermann soube segurar o São Paulo e esperou o apito final para comemorar a classificação para a segunda final de Campeonato Brasileiro da sua história. Só que os últimos minutos da equipe catarinense apresentaram uma série de pontos que precisam ser ajustados por Jorge Barcellos. É bem verdade que a necessidade de se segurar o resultado até o apito final obrigou o treinador a “estacionar um ônibus” na frente da área defendida por Bárbara. Só que as Avaianas Caçadoras seguiam pecando demais na compactação e na organização defensiva. Não foi por acaso que Carol, Dani, Glauca e companhia encontraram tantos espaços entre as laterais e zagueiras do Avaí/Kindermann. Principalmente entre Bruna Calderan e Tuani, no lado direito da defesa. O setor é o que mais precisa de ajustes na equipe.

Jorge Barcellos “estacionou um ônibus” na frente da área do Avaí/Kindermann, mas viu sua equipe conceder espaços demais entre as suas linhas e entre as zagueiras e laterais. O lado defendido por Bruna Calderan e Tuani era o mais explorado pelo ataque do São Paulo. Foto: Reprodução / BAND

Este que escreve volta a lembrar que o feito do Avaí/Kindermann merece ser muito celebrado por jogadoras e comissão técnica. Por outro lado, o técnico Jorge Barcellos precisa corrigir muita coisa até a final do Brasileirão Feminino. Seja contra o ótimo time do Corinthians ou o cada vez mais surpreendente escrete do Palmeiras, as Avaianas Caçadoras não podem conceder tantos espaços no seu meio-campo e desperdiçar tantas oportunidades de balançar as redes. Bruna Calderan, Zoio, Júlia Bianchi e companhia também precisam de mais concentração para ler os movimentos das suas adversárias e objetividade para encaixar os contra-ataques. Seja quem for o adversário, a equipe catarinense corre um sério risco de não ir bem nos dois jogos da decisão por insistir em jogar no limite sem tanta necessidade. Ainda mais com um elenco com tanta qualidade e consistência.

A presença do Avaí/Kindermann na final do Brasileirão Feminino é extremamente justa pela qualidade das atletas e pelo futebol apresentado em toda a competição. No entanto, é preciso reduzir a margem de erro para esses dois jogos da decisão. Ainda mais com Palmeiras e (principalmente) Corinthians jogando o fino da bola e elevando ainda mais o patamar da modalidade praticada aqui por essas bandas.

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