Phillipe Coutinho durante a partida entre Vasco e Mirassol, no dia 29 de janeiro (Crédito: Associated Press / Alamy Stock Photo)
A negociação para a venda da SAF do Vasco entrou em um momento de incerteza neste início de temporada. O processo, que avançava nos bastidores desde o fim de 2025, passou a enfrentar obstáculos após um alerta regulatório ligado às novas regras financeiras da Confederação Brasileira de Futebol.
O entrave não está ligado diretamente a valores ou modelo de investimento, mas à interpretação de um ponto sensível do Regulamento de Sustentabilidade Financeira da CBF. A norma, em vigor desde janeiro, trouxe restrições mais rígidas sobre controle societário e relações de influência entre clubes da mesma divisão.
Novo regulamento muda o cenário
O regulamento passou a valer oficialmente em 1º de janeiro de 2026 e endureceu critérios de Fair Play Financeiro no futebol nacional. Entre os pontos centrais está a proibição de que uma mesma pessoa, empresa ou núcleo familiar exerça controle ou influência relevante sobre dois clubes que disputem a mesma divisão.
A regra está prevista no Artigo 86 e, neste momento, se aplica exclusivamente à Série A do Campeonato Brasileiro. A intenção da CBF é preservar a integridade esportiva e evitar qualquer tipo de conflito de interesses entre clubes concorrentes diretos. Essa interpretação passou a ter impacto direto sobre a negociação envolvendo o Vasco.
Vínculo familiar gera controvérsia
O ponto mais delicado da operação envolve a relação familiar entre o potencial investidor da SAF vascaína e a presidente de outro clube da elite do futebol brasileiro. Em análises iniciais, a CBF considera que esse vínculo pode configurar influência indireta.
Segundo o entendimento preliminar da confederação, o enteado se equipara juridicamente ao filho para fins do regulamento. Essa leitura enquadraria o caso como conflito de interesses, o que violaria de forma direta as regras recém-implantadas.
Ainda que não exista decisão formal, o alerta foi suficiente para frear o ritmo das conversas e ampliar o grau de cautela dos envolvidos.
Negociação perdeu força em janeiro
As tratativas haviam avançado de maneira significativa em dezembro de 2025. O cenário mudou no mês seguinte, após um aviso emitido pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, órgão responsável por acompanhar a aplicação das novas normas.
A partir desse alerta, os investidores passaram a reavaliar o desenho da operação. Advogados e consultores jurídicos foram acionados para estudar alternativas societárias que não esbarrem nas restrições do regulamento.
Entre as possibilidades analisadas estão mudanças na estrutura de controle ou ajustes contratuais que afastem qualquer interpretação de influência cruzada entre clubes.
CBF ainda não vetou a operação
Até o momento, não há veto formal da CBF à venda da SAF do Vasco. A confederação só se posiciona de forma definitiva após a assinatura do contrato. Enquanto isso, o processo segue em compasso de espera.
Caso a operação seja concluída e, posteriormente, considerada irregular, o regulamento prevê um prazo de 30 dias para correção. Nesse período, o clube teria que desfazer o negócio ou promover alterações no controle societário.
Esse cenário gera insegurança jurídica e preocupa a diretoria vascaína. A possibilidade de ajustes forçados após a conclusão do acordo é vista como risco elevado para a estabilidade administrativa.
Vasco diante de um dilema estratégico
O impasse surge em um momento sensível para o Vasco. O clube busca reforço financeiro para reorganizar suas contas e sustentar um projeto esportivo mais competitivo. A SAF é tratada internamente como peça-chave desse planejamento.
Por outro lado, avançar sem garantias pode transformar o Vasco no primeiro clube diretamente impactado pelas novas regras de Fair Play Financeiro da CBF. O caso serviria como precedente para futuras negociações no futebol brasileiro.
Enquanto o desfecho não acontece, o clube segue avaliando caminhos possíveis. A negociação não está descartada, mas passou a exigir mais cautela, tempo e criatividade jurídica. O novo regulamento, antes tratado como formalidade, agora interfere de forma direta no futuro institucional do Vasco.

