Pioneiro, estudioso, original e frasista: o legado indiscutível do “Velho Marinheiro” Gentil Cardoso

No Dia da Consciência Negra, Luiz Ferreira conta a história de um dos treinadores mais importantes do país em matéria especial para a coluna PAPO TÁTICO

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Domínio Público / Wikipédia

O torcedor brasileiro possui certa familiaridade com expressões famosas do nosso futebol. A “zebra” para falar de um resultado inesperado, “cobra” para o jogador perigoso ou o craque de uma equipe ou “brincar nas onze” para o atleta capaz de desempenhar várias funções dentro de campo. Todas essas (e várias outras expressões e frases famosas) são de autoria de Gentil Alves Cardoso, um dos principais treinadores do nosso futebol dos anos 1930 até os anos 1960. Foi muito mais do que apenas um “frasista”. Foi um dos grandes pioneiros da modalidade aqui no Brasil e um dos responsáveis pela introdução de várias inovações táticas no jogo praticado por essas bandas. E como muitos, sofreu com o racismo e o preconceito daqueles tempos. Nesse Dia da Consciência Negra, relembrar o legado de Gentil Cardoso é praticamente obrigatório para quem ama o futebol brasileiro.

Além das frases famosas e repetidas à exaustão sem que seu nome seja sequer mencionado, Gentil Cardoso foi um dos poucos treinadores que conseguiu aliar a linguagem simples do povo com suas leituras do positivista Augusto Comte, filósofos da antiguidade como Sócrates e Cícero e até mesmo de ninguém menos que Mahatma Gandhi. Por outro lado, suas frases e tiradas famosas aliadas ao boné (ou boina) que usava para esconder a calvície e o megafone que utilizava para comandar os treinos e orientar os jogadores contribuiu para que Gentil Cardoso fosse taxada apenas como um treinador folclórico e nada além disso. Ele era muito mais do que isso. A começar pela história de vida e superação do homem nascido no bairro da Torre, em Recife, no dia 27 de junho de 1901 (algumas fontes falam em 5 de setembro ou citam ano de 1906) e que saiu de casa ainda criança em direção ao Rio de Janeiro.

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Foi engraxate, garçom, padeiro, motorneiro de bonde e carregou caixotes no mercado municipal até se alistar na Marinha, em 1916. Conciliou sua carreira no futebol (ainda amador) junto com o expediente nas Forças Armadas ao longo da década de 1920. Defendeu o São Cristóvão, o já extinto Palmeiras Atlético Clube (da Quinta da Boa Vista) e o Syrio e Libanez Athletico Club (da Tijuca), onde permaneceu por mais tempo. Sua atuação na Marinha Mercante (além de lhe render o apelido de “Velho Marinheiro”) permitiu que Gentil Cardoso viajasse pelo mundo. E foi no final da década de 1920 que aportou na Inglaterra como chefe de máquinas do encouraçado “Minas Gerais” e aproveitou a sua estadia para ver o máximo de jogos possível na terra dos inventores do esporte. Gentil presenciaria aí uma verdadeira revolução no velho e rude esporte bretão graças à mudança na Lei do Impedimento.

De acordo com a nova regra (estabelecida pela International Board em 1924 e colocada em prática no ano seguinte), o atacante estaria em posição legal caso houvesse dois jogadores (e não mais três, como era antigamente) entre ele e a linha de fundo. Foi a partir daí que teve início uma das mais importantes inovações táticas da história do futebol. As equipes substituíam o tradicional 2-3-5 (ou a “pirâmide”) e passavam a adotar a novidade introduzida pelo lendário Hebert Chapman (primeiro no Huddersfield e depois no Arsenal): o sistema WM (uma espécie de 3-2-2-3) com toda uma nova distribuição dos jogadores dentro de campo. Nessa nova formação (para aqueles tempos), os zagueiros marcavam os pontas, os pontas médios marcavam os atacantes interiores, o terceiro zagueiro (o “centromédio”) marcava o centroavante e os atacantes interiores recuavam para ajudar na marcação.

Arsenal - Football tactics and formations

O inovador WM de Hebert Chapman nasceu a partir da mudança na Lei do Impedimento e distribuía melhor os jogadores por todo o campo. Gentil Cardoso pôde observar de perto essa mudança na maneira de se entender o futebol em várias das suas viagens para a Inglaterra. Acima, o time do Arsenal que conquistou o título da FA Cup de 1929/30 sobre o Huddersfield.

Foi a partir das suas viagens à Inglaterra que Gentil Cardoso teve a chance de observar a revolução na maneira de se entender o jogo num momento em que o futebol nem sonhava em se tornar um esporte tão globalizado como é nos nossos dias. Assumiu o comando do Syrio e Libanez e utilizou o pequeno clube de colônia da Zona Norte do Rio de Janeiro como laboratório para suas experiências. Ao invés de simplesmente colocar os jogadores para correr pelos quarteirões do campo da Rua Desembargador Izidro, na Tijuca, Gentil Cardoso adotou novos métodos de preparação física. Bem preparado, o time surpreendeu com goleadas sobre o Fluminense (4 a 2 no turno e 4 a 1 no returno), sobre o Flamengo (6 a 1) e com uma vitória no então campeão carioca e favorito ao bicampeonato: um a zero sobre a forte equipe do Vasco com gol de Almeida no campo do São Cristóvão, na Rua Figueira de Melo.

Após o fechamento do departamento de futebol do Syrio e Libanez, Gentil Cardoso foi para o Bonsucesso e levou consigo um jovem chamado Leônidas da Silva do seu antigo clube. Chegando no clube da região da Leopoldina, o futuro “Diamante Negro” encontrou no jovem Gradim o parceiro perfeito para levar as defesas adversárias à loucura no Campeonato Carioca de 1931. Apesar da sétima posição (mesma colocação do Syrio e Libanez na temporada anterior), o Bonsucesso teve o melhor ataque da competição com impressionantes 58 gols em 20 partidas. Nenhum outra equipe da competição (incluindo o campeão América) conseguiu chegar na casa dos 50 gols. Em janeiro de 1932, o rubroanil foi para Santos e venceu a Portuguesa Santista por 6 a 0 sem piedade. Dois dias depois, venceu o Palestra Itália (atual Palmeiras) dentro do Parque Antártica por 3 a 1 com gols de Miro, Leônidas e Gradim.

Bonsucesso - Football tactics and formations

A escalação do Bonsucesso arrancava risadas dos torcedores mais descuidados. Mas o time comandado por Gentil Cardoso fez uma belíssima campanha no Campeonato Carioca de 1931 com 58 gols marcados em 20 partidas. E jogando no WM inovador daqueles tempos com o recuo do “centromédio” Oto para o centro da defesa rubroanil.

Vale destacar que Gentil Cardoso seria o primeiro treinador do futebol brasileiro a aplicar o WM ao recuar o centromédio Oto para o centro da defesa do Bonsucesso. No final de 1932, Gradim e Leônidas chegariam à Seleção Brasileira e seriam os grandes nomes da conquista da tradicional Copa Rio Branco, com vitória sobre o Uruguai (atual campeão mundial) dentro do Estádio Centenário. Em 1933, Gentil Cardoso se mudou para o vizinho Olaria. E na temporada seguinte, partiria para o América, se tornando o primeiro negro a ocupar o comando técnico de uma equipe grande do futebol do Rio de Janeiro. Depois de brigar com os dirigentes, pediu as contas e voltaria ao Bonsucesso antes de ser transferido para o Rio Grande do Sul pela Marinha, onde comandaria o Riograndense (onde se sagrou campeão citadino e vice-campeão gaúcho em 1937) e o Cruzeiro de Porto Alegre.

Gentil Cardoso ficou no Rio Grande do Sul por três anos. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o húngaro Izidor “Dori” Kürschner era trazido pelo então presidente do Flamengo, José Bastos Padilha, para reformular o departamento de futebol do clube e aplicou o mesmo WM utilizado por Gentil no Bonsucesso no início da década de 1930. Os métodos de Kürschner, no entanto, dividiram opiniões entre dirigentes, imprensa e jogadores, deixando o clube um ano e cinco meses depois de ter sido contratado. Flávio Costa, ex-auxiliar do húngaro no Flamengo, assumiu a equipe e conquistou o Campeonato Carioca de 1939 preservando elementos do WM de Dori Kürschner sem, no entanto, admitir a influênia do seu desafeto. Gentil Cardoso só teria outra oportunidade como treinador em 1941 (no Bonsucesso) após ingressar na Escola Nacional de Educação Física e tirar o diploma de técnico de futebol.

O América deu uma nova oportunidade para Gentil Cardoso em 1942. E a missão do já bastante experiente treinador era das mais difíceis já que o clube passava por uma delicada situação financeira e vinha de campanhas pífias no Campeonato Carioca. Gentil puxou nomes como o goleiro Osni do Amparo (irmão de Eli do Amparo, meio-campo do Vasco e da Seleção Brasileira), o centromédio Danilo Alvim e o ponta-esquerda Jorginho dos aspirantes e juvenis do alvirrubro. Ano após ano, a campanha do Mequinha foi melhorando e a equipe foi melhorando a sua classificação. Em 1942, o América terminou na sexta posição. No ano seguinte, subiu para o quarto lugar (empatado com o Vasco). Em 1944, ficou com a quinta colocação. Mas em 1945, clube da Tijuca surpreendeu a todos com uma campanha de respeito e terminando na terceira posição (à frente de Flamengo e Fluminense).

Gentil Cardoso deixou no América a semente da equipe que ficaria conhecida como “Tico-Tico no Fubá” por conta da sucessão de passes e toques curtos nas jogadas de ataque e pela linha ofensiva de respeito formada por China, Maneco (o mais talentoso do time), César, Lima e Jorginho. Após o belo trabalho na equipe tijucana, Gentil recebeu um convite do Fluminense para substituir o uruguaio Héctor Cabelli. Assim que foi apresentado, lançou a pérola: “Deem-me Ademir, que eu lhes darei o campeonato”. Tratava-se de Ademir Menezes (o “Queixada”), destaque do Vasco campeão carioca em 1945 e que estava insatisfeito com seu salário no clube. Então com 23 anos e já considerado um dos melhores jogadores da América do Sul, Ademir chegou ao Fluminense depois de uma negociação realizada diretamente com “Seu” Menezes, pai e procurador do craque brasileiro.

Com uma linha ofensiva formada por Pedro Amorim, Simões, Ademir Menezes, Orlando “Pingo de Ouro” e Rodrigues, o Fluminense de Gentil Cardoso marcou 97 gols em 24 partidas com direito a goleadas por 9 a 3 sobre o Madureira, 11 a 1 em cima do Bangu e 8 a 3 sobre o Bonsucesso. Apesar dos bons números, o Campeonato Carioca de 1946 terminou com Fluminense, Botafogo, Flamengo e América empatados na liderança. E o quadrangular decisivo (chamado de “Supercampeonato Carioca”) terminou com o Tricolor das Laranjeiras vencedor após uma vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo no dia 22 de dezembro daquele ano numa partida disputada no estádio de São Januário. O autor do gol do título? Ademir Menezes, num chute que venceu o bom goleiro Osvaldo “Baliza”. Gentil Cardoso cumpria sua promessa levava o campeonato para as Laranjeiras numa equipe lembrada até hoje pelos mais aficcionados.

Antes de deixar o Fluminense, Gentil levou para o clube um jovem goleiro chamado Carlos Castilho, revelado pelo Olaria, e que se transformaria num dos maiores de todos os tempos. O “Velho Marinheiro”, no entanto, seguiu sua viagem. Retornou para o Bonsucesso e de lá foi para o futebol paulista. Treinou o Corinthians e deixou o Timão após desavenças e interferências da diretoria na escalação da equipe. Passaria pelo Olaria antes de chegar ao Flamengo em 1949. Ficou na Gávea até julho de 1950 e conviveu com uma crise sem precedentes no clube. Jair Rosa Pinto havia acabado de deixar o clube, Zizinho foi para o Bangu e todo o elenco tricampeão carioca em 1942, 1943 e 1944 estava envelhecido. Antes de deixar o Flamengo, porém, revelou o volante Dequinha, um dos grandes nomes do clube nos anos 1950 e um dos jogadores com mais partidas pelo rubro-negro da Gávea.

Vale lembrar que Gentil Cardoso já convivia há muito tempo com o racismo e o preconceito dentro do futebol. Embora tivesse sido pioneiro na introdução do WM no futebol brasileiro, nunca recebeu o crédito por isso. Ao mesmo tempo, se incomodava muito com o fato de não ser levado à sério apesar de todo seu conhecimento, formação e bagagem. Apelidou-se de “moço preto dos pequenos”, numa clara referência a Flávio Costa (a quem chamava de “moço branco dos grandes”). Apesar de tudo, ainda mantinha o bom humor: “Só me chamam pra enterro, ninguém me convida pra comer bolo de noiva”, numa alusão ao fato de que quase nunca era chamado para treinar equipes bem formadas e só era lembrado para assumir o comando de times em crise. Exatamente como aconteceu na sua chegada ao Vasco, em 1952 (após passagens por Bonsucesso e Cruzeiro de Porto Alegre).

Gentil Cardoso encontrou um Vasco envelhecido e uma aura de desconfiança enorme dentro do clube por parte de dirigentes que não aceitavam a saída de Flávio Costa. O “Velho Marinheiro” ganhou o apoio de veteranos como Barbosa, Augusto, Eli do Amparo, Alfredo, Danilo Alvim, Chico e seu velho conhecido Ademir Menezes, trouxe o ponta-direita Sabará da Ponte Preta e o zagueiro Haroldo do Botafogo e ainda subiu os jovens Bellini e Vavá dos aspirantes. Aquele Vasco se sagraria campeão carioca com números excelentes: 17 vitórias, dois empates e apenas uma derrota, com 49 gols marcados e apenas 18 sofridos (a melhor defesa da competição). E Gentil Cardoso já utilizava elementos do WM aliados à diagonal proposta por Flávio Costa para formar algo que já estava bem próximo de um ainda nascente 4-2-4 que tomaria conta do futebol brasileiro nos anos seguintes.

Vasco - Football tactics and formations

Gentil Cardoso uniu os remanescentes do “Expresso da Vitória” com jogadores jovens como Sabará e os posteriormente campeões mundiais Bellini e Vavá para formar o Vasco campeão carioca de 1952. E seu WM já se assemelhava ao nascente 4-2-4 por conta das observações constantes que fazia de outras equipes.

Ao ser carregado pelos torcedores após o título, Gentil Cardoso declarou: “Estou com as massas. E as massas derrubam qualquer governo”. Para os chamados “cardeais” vascaínos, comerciantes ricos da Rua do Acre (no centro da cidade do Rio de Janeiro) aquele “preto falador” tinha ido longe demais. No dia seguinte, o presidente Cyro Aranha (que já mantinha conversas com Flávio Costa) demitiu Gentil Cardoso. De lá, seguiu para o Botafogo onde não obteria resultados expressivos, mas seria o responsável por dar a primeira chance a um certo ponta-direita que chegava ao Glorioso sem passar pelos juvenis ou aspirantes e que já havia sido recusado nas “peneiras” de Vasco, Fluminense e do São Cristóvão. Gentil enxergou naquele jovem de vinte e poucos anos e de pernas tortas um talento incrível e deu-lhe a primeira chance do time titular do Botafogo. Seu nome? Mané Garrincha.

Além do “Gêmio das Pernas Tortas”, Gentil Cardoso revelou no Botafogo nomes como os atacantes Dino da Costa e Vinícius (que fariam história no futebol italiano). Em 1955, o “Velho Marinheiro acertaria com o Sport Recife e venceria o Campeonato Pernambucano (no ano do cinquentenário do Leão) com uma equipe experiente. O goleiro era o veterano Osvaldo “Baliza” (ex-jogador de Botafogo e Vasco), na defesa estava Eli do Amparo (jogador com passagens marcantes pelo Vasco e pela Seleção Brasileira) e o ataque contava com Traçaia (atleta com passagens pelos aspirantes de Flamengo e Botafogo), Naninho (ex-Vasco), Gringo (ex-Flamengo e Olaria) e o meia-esquerda Soca (ex-Bonsucesso). O sport venceria o Campeonato Pernambucano de 1955 (encerrado apenas em janeiro do ano seguinte) após três partidas contra o Náutico e grandes atuações coletivas.

Gentil Cardoso também passaria pelo Santa Cruz (em 1959) e pelo Náutico (em 1960). E foi no comando do Timbu que o “Velho Marinheiro” quebrou outras barreiras: foi o primeiro profissional negro a trabalhar no futebol do clube. Entre suas passagens pelo futebol pernambucano, Gentil esteve novamente no Bonsucesso, depois foi para o Bangu (onde permaneceu de 1957 a 1959) e também foi treinador da Ponte Preta. No mês de dezembro de 1959, Gentil Cardoso finalmente chegava à Seleção Brasileira (um dos seus grandes objetivos na carreira) para comandar a equipe que representaria o país no Campeonato Sul-Americano Extra, em Guayaquil, no Equador. Naquela ocasião, o Brasil foi representado integralmente por atletas pernambucanos e ganharia a alcunha de “Seleção Cacareco” em alusão ao rinoceronte do Jardim Zoológico eleito vereador pela cidade de São Paulo.

Mesmo assim, o “Velho Marinheiro” encarou o desafio e fez um trabalho digno. O Brasil estreou vencendo o Paraguai por 3 a 2 (com três gols do atacante Paulo, no Náutico), perdeu por 3 a 0 para o time principal do Uruguai, venceu o Equador por 3 a 1 (de virada) e depois foi goleado por 4 a 1 pela Argentina, na despedida da competição. Um honroso terceiro lugar para quem era sempre chamado “para comer jiló” e era preterido por outros na “hora da marmelada”, como costumava dizer. Naquele mesmo ano de 1959, Gentil Cardoso ainda levou a Seleção Pernambucana ao vice-campeonato do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais (a última edição do torneio). No quadrangular final, o escrete de Pernambuco chegou a vencer os selecionados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais além de aplicar 4 a 2 sobre uma equipe de São Paulo que contava com Pelé e outros nomes famosos.

Gentil Cardoso seguiu quebrando barreiras e enfrentando o preconceito por onde passou. Foi bicampeão paraense com o Paysandu (em 1961 e 1962) fazendo com que o Papão da Curuzu recuperasse o ponto de maior campeão do estado. E ainda teria uma passagem marcante pelo Sporting de Lisboa, onde chegou em julho de 1963. Conquistou a Taça de Honra (competição disputada entre os clubes da capital e que precedia o Campeonato Português) com direito a vitória por 3 a 0 sobre o rival Benfica na decisão. No mês de novembro, os Leões aplicariam a maior goleada da história das copas europeias ao vencer o APOEL do Chipre por impressionantes 16 a 1 no Estádio José Alvalade, em partida válida pela antiga Recopa Europeia. Gentil deixaria o Sporting após maus resultados no Campeonato Português e atritos com a comissão técnica e a diretoria do clube lisboeta.

De volta de Portugal, Gentil Cardoso acertaria com a Portuguesa Carioca (onde lançaria a expressão “vai dar zebra” para falar de um resultado inesperado antes de uma partida contra o Vasco). O “Velho Marinheiro passou ainda por Desportiva, América-RJ, Bangu, Santa Cruz, Campo Grande e teria uma segunda (e rápida) passagem pelo Vasco em 1967. No ano seguinte, voltou ao Paysandu e comandou o El Nacional de Quito (do Equador). Em 1969, assinaria com o São Cristóvão, clube pelo qual Gentil Cardoso sempre teve muito carinho. No entanto, problemas de saúde impediram o “Velho Marinheiro” de assumir o comando do time da Rua Figueira de Melo. As complicações de uma úlcera gástrica levaram Gentil Cardoso a falecer no dia 8 de setembro de 1970. Quando chegou no Sporting, declarou à imprensa portuguesa: “Sou o técnico mais antigo do mundo. Quando partir, quero deixar escola“.

E sem dúvida, deixou. Muitos tentaram imitar Gentil Cardoso, mas poucos conseguiram atingir seu nível de conhecimento do jogo. Suas frases irreverentes mostravam que o “Velho Marinheiro” mostrava sua preocupação com o jogo coletivo e com a ocupação de espaços bem antes disso tudo se tornar moda aqui no Brasil. Aqui vão algumas delas:

“Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência.”
“O craque trata a bola de você, não de excelência.”
“Se a bola é feita de couro, se o couro vem da vaca e se a vaca come capim, então a bola gosta de rolar na grama e não ficar lá por cima; portanto, meus filhinhos, vamos jogar com ela no chão.”

Gentil Cardoso foi um treinador que sofreu com o descrédito por causa da cor da pele e que teve que provar sua capacidade várias e várias vezes ao longo de mais de 30 anos de uma extensa e vitoriosa carreira. Mesmo não sendo levado à sério naqueles tempos. E nesse Dia da Consciência Negra, relembrar o legado indiscutível do “Velho Marinheiro” é obrigatório para todos aqueles que amam o velho e rude esporte bretão. Se hoje podemos falar de Leônidas da Silva, Bellini, Vavá, Garrincha e outros craques, agradeçam ao “Seu” Gentil.

FONTES DE PESQUISA:

TRIVELA – Há 50 anos falecia Gentil Cardoso: técnico, frasista, filósofo, personagem singular do futebol brasileiro
OBSERVATÓRIO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL NO FUTEBOL – Originalidade e pioneirismo ofuscados pelo preconceito: a história de Gentil Cardoso
RSSSF Brasil
A Pirâmide Invertida, por Jonathan Wilson (Editora Grande Área)
Escola Brasileira de Futebol, de Paulo Vinícius Coelho (Editora Objetiva)

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