50 anos do Tri (Parte X): Brasil 4 x 1 Itália (O legado da maior seleção de todos os tempos)

O décimo e último capítulo da série “50 anos do Tri” destaca a atuação mágica da Seleção Brasileira na decisão contra a Itália; Maior time de todos os tempos está marcado para sempre no imaginário de gerações inteiras de jogadores, treinadores, jornalistas e torcedores

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / FIFA World Cup

Domingo, 21 de junho de 1970, Estadio Azteca, Cidade do México. A grande final da nona edição da Copa do Mundo reunia as duas melhores seleções do planeta até aquele momento. De um lado estava o Brasil de Pelé, Jairzinho, Rivellino, Gérson e do técnico Zagallo. O escrete canarinho havia superado todo tipo de obstáculo para chegar à decisão. Começando pela desconfiança da própria torcida e da imprensa antes da viagem para o México e passando por traumas como a eliminação precoce em 1966 e a derrota para o Uruguai em 1950. Do outro lado estava a Itália de Mazzola, Riva, Facchetti, Boninsegna e do técnico Ferruccio Valcareggi. Assim como o seu adversário na final, a Squadra Azzurra também havia passado por oponentes poderosos. Incluindo um jogo épico contra a Alemanha Ocidental na semifinal disputada três dias antes. Quem vencesse o jogo decisivo ficaria com a posse definitiva da Jules Rimet. E o que quase 108 mil pessoas veriam no Estádio Azteca seria a apoteose do futebol-arte e a consagração de um time que seria eleito o melhor de todos os tempos.

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Brasileiros e italianos voltavam a se encontrar numa Copa do Mundo depois de 32 anos. As duas seleções se enfrentaram nas semifinais da Copa do Mundo da França, em 1938, com a Squadra Azzurra comandada por Vittorio Pozzo (o único treinador bicampeão do mundo) por 2 a 1 e formada por lendas como Giuseppe Meazza e Silvio Piola. O Brasil (que jogou contra a Itália de camisa branca e calçoes azuis) tinha Zezé Procópio, Romeu, Martin Silveira, Patesko, Perácio e Domingos da Guia. Enquanto a Itália partia para a final e conquistava a sua segunda Copa do Mundo (ao vencer a Hungria por 4 a 2), o Brasil reclamava do pênalti que deu a vitória aos italianos. O árbitro suíço Hans Wüthrich viu Domingos da Guia agredir Silvio Piola dentro da área e não teve dúvidas. O zagueiro brasileiro aproveitou que a bola estava longe da área para acertar um chute no joelho do atacante. Domingos da Guia jura que o jogo estava paralisado, mas houve quem refutasse a tese do brasileiro e dissesse que a defesa brasileira havia rebatido uma bola para o meio-campo.

A derrota nas semifinais da Copa do Mundo de 1938 ainda era lembrada pelos mais antigos. Por outro lado, o que mais se comentava à época da decisão do Mundial do México era o que se poderia esperar desse novo duelo entre brasileiros e italianos. Enquanto o técnico Ferruccio Valcareggi tentava recuperar a sua equipe depois dos 120 minutos alucinantes da partida contra a Alemanha Ocidental, muitos outros (incluindo a imprensa esportiva brasileira) lembravam que a Squadra Azzurra havia ressurgido com força após a conquista do título da Eurocopa de 1968. As campanhas nas eliminatórias e na própria Copa do Mundo do México provavam essa tese. Valcareggi ainda seguia com a “stafetta” (palavra que significa “revezamento” em italiano) para encaixar os dois maiores nomes daquela geração no elenco. Sandro Mazzola (astro da Internazionale) jogava um tempo e Gianni Rivera (ídolo do Milan) jogava outro. Mesmo assim, também havia quem torcesse o nariz para o estilo de jogo da Itália por considerá-lo extremamente defensivo.

Do lado brasileiro, apesar da ótima campanha e de vitórias importantíssimas sobre Inglaterra e Uruguai, a defesa ainda gerava preocupação na comissão técnica, imprensa esportiva e torcedores. Até a final contra a Itália, o Brasil marcou 15 gols em cinco partidas, mas acabou sendo vazado cinco vezes. Vale lembrar que o escrete canarinho embarcou para o México cercado de desconfiança por conta dos problemas nos bastidores e da troca de comando técnico às vésperas do Mundial. Aos poucos, a Seleção Brasileira foi vencendo mais esse obstáculo e chegava à decisão da Copa do Mundo celebrada por todos. Incluindo os próprios mexicanos, que passaram a torcer pelo time de Pelé, Jairzinho e companhia após a eliminação da Tricolor para os italianos nas quartas de final conforme o zagueirão Brito lembrou ao Jornal dos Sports. O cenário estava montado e mesmo com a ausência de Gérson no último treino antes da decisão, Zagallo mandaria a campo o que tinha de melhor na Seleção Brasileira: a mesma equipe que derrotou o Uruguai quatro dias antes, em Guadalajara.

Naquela que foi a primeira Copa do Mundo a ser exibida em cores para todo o mundo, os uniformes brasileiros e italianos ressaltavam nas televisões do mundo inteiro. Quem ainda não possuía a sua TV em casa, colava o ouvido no radinho para conferir a narração, as análises, as notícias e os comentários de monstros como Jorge Cury, Waldir Amaral, Mário Viana, Aloísio Parente, Luiz Mendes, Willy Gonzer e muitos outros. João Saldanha, técnico da Seleção Brasileira até março de 1970, também participava das transmissões se revezando entre a TV Globo e a rede Comando Radiofônico da Copa (a CRC), “pool” de emissoras encabeçada pelas rádios Nacional do Rio de Janeiro, Nacional de Brasília, Globo do Rio de Janeiro e Gaúcha de Porto Alegre. Dividir as emissoras de rádio em grupos foi a solução encontrada pelo governo brasileiro para resolver o problema do número limitado de frequências disponíveis no México para a transmissão da Copa do Mundo. E de lá saíram algumas das narrações mais fantásticas da história da radiofonia mundial.

Se Zagallo havia mantido o time que venceu o Uruguai nas semifinais, o técnico italiano Ferruccio Valcareggi também não fez mudanças na sua equipe. A “stafetta” continou com Sandro Mazzola começando de início de Rivera no banco de reservas. Aliás, falando no comandante da Azzurra, uma das suas principais orientações para seu sistema defensivo foi o cuidado com Jairzinho. Dentro das suas análises, Valcareggi pensava que o ataque brasileiro não funcionaria com o “Furacão da Copa” bem marcado. Para tanto, pediu a Giacinto Facchetti que não desse sossego ao camisa 7 e o perseguisse por todo o campo (guardem essa informação). No mais, os esquemas táticos básicos foram mantidos. A Seleção Brasileira jogava no conhecido 4-3-3 (que poderia variar para três formações diferentes) e a Squadra Azzurra também jogava num 4-3-3 mas com clara inspiração no “catenaccio” de Helenio Herrera. Burgnich pouco avançava e o habilidoso Domenghini ocupava o espaço à sua frente. Por incrível que pareça, a Itália deixava espaços e o Brasil tentava se aproveitar deles.

Brasil vs Italia - Football tactics and formations

O técnico italiano Ferruccio Valcareggi pediu que Facchetti perseguisse Jairzinho por todo o campo e reforçou ainda mais o sistema defensivo com De Sisti e Bertini jogando ainda mis próximos da defesa. Já o Brasil tocava a bola e rodava toda a equipe (principalmente Pelé, Tostão e Jairzinho) para chegar ao gol de Albertosi.

A Itália começou dando sustos no começo da partida, mas a Seleção Brasileira foi dominando as ações no campo aos poucos e empurrando a Azzurra para seu campo. Aos 18 minutos do primeiro tempo, Tostão cobrou lateral da esquerda, Rivellino cruzou de primeira e a bola encontrou Pelé dentro da área. O Rei saltou e testou forte para o chão, sem chances para Albertosi. Era o gol de número 100 do Brasil em Copas do Mundo. Ao mesmo tempo em que a torcida mexicana explodia de alegria no Estádio Azteca, a Itália se via obrigada a sair para o jogo. E mesmo não fazendo uma partida tão boa, a Azzurra conseguiu o empate numa bobeira do escrete canarinho. Clodoaldo recebeu de Brito na intermediária e tentou passar a bola de primeira para Everaldo usando o calcanhar. Boninsegna interceptou o passe, armou o contra-ataque (especialidade da Azzurra), se livrou de Brito e Félix e marcou o gol de empate da Itália chutando da meia-lua da grande área. Ainda houve tempo para Pelé ter gol anulado pelo árbitro alemão Rudi Glöckner no final da primeira etapa.

O jogo começou equilibrado na segunda etapa. Pelé e Gérson perderam chances para o Brasil e Domenghini quase virou o placar para os italianos. A decisão da Copa do Mundo seguia nervosa até que, aos 21 minutos, Carlos Alberto lançou Gérson e este passou para Jairzinho na esquerda. O camisa 7 perdeu a bola, mas ela ficou com o “Canhotinha de Ouro” que se livrou da marcação e mandou uma bomba para o gol, sem chances para Albertosi. Cinco minutos depois, o mesmo Gérson fez um lançamento de mais de 50 metros procurando Pelé. O Rei do Futebol apenas escorou para Jairzinho (já livre da marcação implacável de Giacinto Fachetti) completar de coxa e ver a bola entrando de mansinho no gol. A desvantagem no placar (e a genialidade daquela equipe) fizeram com que o técnico Ferruccio Valcareggi sacasse o defensivo Bertini (justamente o marcador de Pelé) e mandasse o meia Antonio Juliano para o jogo. Até mesmo a famosa (e amplamente criticada) “stafetta” foi desfeita com a entrada de Rivera no lugar de Boninsegna.

Italia vs Brasil - Football tactics and formations

Após os gols de Gérson e Jairzinho, o técnico Ferruccio Valcareggi mandou Juliano e Rivera para o jogo, mas só fez desarrumar ainda mais a Itália. Com Facchetti perseguindo o “Furacão da Copa” por todo o campo, os espaços começaram a aparecer ainda mais. Principalmente do lado direito, onde Carlos Alberto virou ponta-direita numa variação para o 3-4-3 até então impensável para aqueles tempos.

Mas ainda faltava o “grand finale”, a cereja do bolo, o fechamento de uma das histórias mais bonitas da história do futebol. E ele aconteceu aos 41 minutos da segunda etapa. Tostão recebeu a bola na esquerda, se livrou da marcação e deixou a redondinha com Piazza. Ese passou para Clodoaldo que passou para Pelé e este para Gérson. A bola voltou para o camisa 5 que se livrou de quatro italianos antes de tocar na esquerda para Rivellino. Jairzinho partiu por aquele mesmo lado e recebeu o passe certeiro do companheiro de equipe. Com Facchetti ao seu encalço, o “Furacão da Copa” passou para Pelé na entrada da área. O Rei esperou alguns segundos e simplesmente rolou a bola para a direita onde não parecia ter ninguém por ali. Carlos Alberto Torres apareceu como um foguete (justamente no espaço onde deveria estar Facchetti) e soltou uma bomba no canto direito de Albertosi. Golaço. Um dos mais bonitos da história das Copas do Mundo. Um dos mais bonitos de todos os tempos. Pura arte. E a Jules Rimet era do Brasil.

Todos aqueles que puderam ver essa Seleção Brasileira em campo costumam falar da dificuldade que é descrever o que o aquele time fez dentro de campo. E quem viu o jogo pelas telas do computador (no YouTube) ou nas reprises dos principais canais esportivos do país durante a pandemia de COVID-19 só tem uma palavra para falar daquele Brasil de 1970: arte. A atuação de Pelé, Tostão, Jaizinho, Rivellino, Gérson e companhia só pode ser descrita dessa maneira. A apoteose daquilo que sempre se chamou de “futebol-arte”. Nunca um time conseguiu atingir aquele grau de beleza e de sublimidade com a bola nos pés. Tanto que aquela Seleção Brasileira tricampeã do mundo em 1970 inspirou vários treinadores e jogadores ao longo dos anos. Seja como uma das primeiras equipes a jogar de maneira moderna (se fechando no seu campo e saindo em velocidade para o ataque) ou por todo o trabalho da comissão técnica que preparou o time para encarar a altitude do México e adversários de respeito em seis partidas que entraram para a história.

Não podemos esquecer de quem começou o trabalho lá atrás. Se Zagallo foi simplesmente brilhante na escalação do time, na escolha por Rivellino como ponta-esquerda e na distribuição dos jogadores em campo (e dos vários “camisas 10” que aquela seleção poussía), João Saldanha merece ser lembrado como o responsável por reunir o elenco, apostar na qualidade das suas “feras” e por formar a base do time que seria tricampeão mundial. Quis o destinho que o “João sem medo” estivesse no México apenas como comentarista. No entanto, assim como ele, todos os amantes do futebol se emocionam sempre que as imagens da Copa do Mundo de 1970 aparecem na tela da TV ou dos celulares. O melhor time de todos os tempos merece ser visto, revisto, estudado e celebrado por muito, muito, muito tempo.

Relembre os capítulos anteriores do especial “50 anos do Tri”:

50 anos do Tri (Parte I): Toda história tem um começo
50 anos do Tri (Parte II): A saída de João Saldanha e a chegada de Zagallo
50 anos do Tri (Parte III): Começa a Copa do Mundo!
50 anos do Tri (Parte IV): Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia
50 anos do Tri (Parte V): Brasil 1 x 0 Inglaterra
50 anos do Tri (Parte VI): Brasil 3 x 2 Romênia
50 anos do Tri (Parte VII): Brasil 4 x 2 Peru
50 anos do Tri (Parte VIII): Brasil 3 x 1 Uruguai
50 anos do Tri (Parte IX): O jogo do século

FONTES DE PESQUISA:

Site oficial da CBF
Site oficial da FIFA – 1970 World Cup
RSSSF Brasil
The RSSSF Archive
Blog Três Pontos – Brasil 4 x 1 Itália
Imortais do Futebol – Jogos Eternos: Brasil 4 x 1 Itália
Portal EBC: Na Copa 70, havia uma seleção no rádio brasileiro
A Pirâmide Invertida, de Jonathan Wilson (Editora Grande Área)
Os 55 maiores jogos das Copas do Mundo, de Paulo Vinícius Coelho (Panda Books)
Escola Brasileira de Futebol, de Paulo Vinícius Coelho (Editora Objetiva)
As melhores Seleções Brasileiras de todos os tempos, de Milton Leite (Editora Contexto)

LEIA MAIS:

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