50 anos do Tri (Parte VII): Brasil 4 x 2 Peru

A goleada da Seleção Brasileira sobre o Peru nas quartas de final da Copa do Mundo de 1970 é o tema do sétimo capítulo da série especial “50 anos do Tri”; partida foi marcada pelo reencontro entre Pelé e Zagallo com Didi, grande nome do Brasil nos Mundiais de 1958 e 1962

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Acervo CBF

A primeira etapa já havia sido concluída. E com bastante êxito. Com três vitórias em três jogos, a Seleção Brasileira se garantiu na primeira posição do Grupo 3 da Copa do Mundo de 1970 e não precisaria deixar Guadalajara (onde toda a delegação já estava bem adaptada) para a disputa das quartas de final da competição. Por outro lado, a atuação abaixo da expectativa e as falhas defensivas observadas na partida contra a Romênia (a última da fase de grupos) deixaram Zagallo bastante preocupado. Afinal de contas, o escrete canarinho, mesmo com o prestígio recuperado e a moral elevada, teria pela frente adversários ainda mais complicados na caminhada rumo ao tricampeonato da Copa do Mundo. E quiseram os deuses do futebol que o Brasil enfrentasse o Peru de Teófilo Cubillas, Héctor Chumpitaz, Ramón Mifflin e Alberto Gallardo. Mas o grande adversário talvez estivesse no banco de reservas: Waldir Pereira, o Didi. Simplesmente um dos maiores jogadores do Brasil em todos os tempos e bicampeão mundial em 1958 e 1962. Assim como Zagallo.

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O início da fase eliminatória da Copa do Mundo de 1970 seria marcado por duelos entre grandes seleções da época, incluindo um reencontro entre alemães e ingleses quatro anos depois da polêmica decisão de 1966 no Estádio de Wembley. Os confrontos das quartas de final foram marcados para o dia 14 de junho de 1970 e eram os seguintes:

  • União Soviética x Uruguai (na Cidade do México)
  • Brasil x Peru (em Guadalajara)
  • Itália x México (em Toluca)
  • Alemanha Ocidental x Inglaterra (em León)

A imprensa esportiva dava bastante destaque para o confronto entre os atuais campeões e vice-campeões do mundo em León. Não seria apenas a oportunidade da Alemanha Ocidental realizar a sua “vingança” contra a Inglaterra, mas também a chance de vermos as duas equipes em campo mais amadurecidas e ainda mais qualificadas. Entretanto, a imprensa esportiva brasileira destacava mesmo era o reencontro entre o escrete canarinho e Didi, o “Mr. Football”, melhor jogador da Copa do Mundo de 1958 e treinador da Seleção Peruana, adversária do Brasil nas quartas de final.

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A presença do “Mr. Football” no banco de reservas do adversário era emblemática. Didi havia recebido o apelido da imprensa europeia após ter sido eleito o melhor jogador da Copa do Mundo de 1958 e ter entrado na seleção da Copa de 1962, ambas conquistadas pela Seleção Brasileira com ele, Zagallo e Pelé no grupo. O “Príncipe Etíope” (apelido que ganhou de Nelson Rodrigues) também foi o criador da “folha seca”, chute em que a bola ganha um efeito repentino de descaída inesperada na frente do gol. E isso sem falar nos títulos, gols, passes milimétricos que deu com a camisa do Americano, do Madureira, do Fluminense (onde foi campeão carioca em 1951 e da Copa Rio de 1952) e do Botafogo (onde se tornou grande ídolo da torcida alvinegra e foi campeão carioca em 1957, 1961 e 1962 e do Torneio Rio-São Paulo em 1962). Pela Seleção Brasileira, além das copas do Mundo de 1958 e 1962, Didi foi campeão pan-americano em 1952, da Taça Oswaldo Cruz em 1955, 1958, 1961 e 1962, da Taça Bernardo O’Higgins em 1955 e 1961 e da Taça do Atlântico em 1966. Passou também por Real Madrid, Sporting Cristal e pelo futebol mexicano antes de encerrar a carreira no São Paulo aos 37 anos.

A importância de Didi para o futebol brasileiro e mundial pode ser medida a partir da Copa do Mundo de 1958, quando o a Seleção Brasileira assombrou o planeta com a eficiência do 4-3-3 proposto por Vicente Feola e atuações mágicas de Garrincha, Vavá e Pelé. Enquanto o trio decidia no ataque e Zagallo recuava para ajudar no meio-campo (na variação do 4-2-4 para o 4-3-3), Didi ganhava espaço e tempo para pensar as jogadas e desferir passes e lançamentos milimétricos para seus companheiros de equipe (principalmente para Garrincha, companheiro de Botafogo e de Seleção Brasileira). Tudo passava por ele, como se a bola precisasse do contato com seus pés para chegar à área adversária. Tanto que levou sua genialidade para o banco de reservas. Didi teve momentos de destaque como treinador à frente do Sporting Cristal (campeão peruano em 1968), do Fenerbahçe (bicampeão turco em 1973/74 e 1974/75), Fluminense (campeão carioca em 1975 no início da lendária “Máquina Tricolor”) e do Cruzeiro (campeão mineiro em 1977). E isso sem falar na classificação da Seleção Peruana para a Copa do Mundo de 1970.

Brasil 1958 - Football tactics and formations

Didi foi eleito o melhor jogador da Copa do Mundo de 1958 jogando o fino da bola no 4-3-3 que tinha no recuo de Zagallo o grande trunfo daquela Seleção Brasileira. O “Mr. Football” foi o grande nome de uma equipe que contava com um Garrincha em plena forma, um Vavá extremamente decisivo e um ainda jovem Pelé.

Zagallo sabia que Didi tinha amplo conhecimento do jeito brasileiro de jogar e pensar o futebol e até mesmo de alguns dos conceitos aprendidos pelo “Velho Lobo” quando os dois formaram uma linha de ataque poderosa com Garrincha, Quarentinha e Amarildo no Botafogo. Além disso, a Seleção Peruana contava com uma das melhores gerações de sua história e se colocava entre as oito melhores seleções do mundo 40 anos depois da sua última Copa do Mundo (em 1930, no Uruguai). Ao mesmo tempo, a participação de Teófilo Cubillas, Héctor Chumpitaz e companhia estava cercada de emoção e simbolismo. No dia 31 de maio de 1970 (dia da abertura da Copa do Mundo), um terremoto atingiu o país e matou mais de 60 mil pessoas. Mesmo com toda a delegação muito abalada, o Peru se manteve no Mundial e fazia boa campanha. Era exatamente por isso que os retornos de Gérson e Rivellino ao time titular foram muito celebrados por Zagallo, visto que o escrete canarinho iria precisar de toda a experiência possível para o jogo do dia 14 de junho. A única dúvida estava na lateral-esquerda. Everaldo sentiu lesão na partida contra a Romênia e lutava para se recuperar a tempo do jogo contra os peruanos.

Sem seu lateral titular, Zagallo manteve Marco Antônio na lateral e mandou a campo o que tinha de melhor na Seleção Brasileira. E quem viu o jogo no sufocante calor de meio-dia no Estádio Jalisco viu um escrete canarinho mais maduro e mais “cascudo”. O Brasil voltava ao 4-3-3 do início da Copa do Mundo com Rivellino recuando para participar da armação das jogadas e Pelé, Tostão e Jairzinho se movimentando muito na frente. Do outro lado, Didi armou um 4-3-3 que se transformava num 4-2-4 conforme o avanço de Cubillas para o ataque. A ideia era surpreender a Seleção Brasileira. No entanto, as coisas não funcionaram como o esperado para o selecionado peruano. Logo no comecinho da partida, Gérson achou Pelé na entrada da área. O Rei dominou, se livrou da marcação e acertou a trave do goleiro Rubiños. Aos onze minutos de jogo, após cruzamento de Pelé para a área, Tostão ajeitou a bola com açúcar e afeto para Rivellino soltar a sua “patada atômica” de três dedos e abrir o placar. Quatro minutos depois, Tostão tabelou com Rivellino após cobrança de escanteio curto e contou com a colaboração do goleiro Rubiños para fazer o segundo gol brasileiro num chute quase sem ângulo da esquerda.

Peru vs Brasil - Football tactics and formations

A Seleção Brasileira entrou em campo armada no 4-3-3 preferido de Zagallo com os retornos de Gérson e Rivellino. Os comandados de Zagallo não encontraram muitos problemas para fazer 2 a 0 em quinze minutos de partida apesar do bom volume de jogo do Peru com Gallardo e Cubillas causando muitos problemas para a defesa brasileira.

Depois de Pelé ter um gol anulado e desperdiçar boa chance após mais uma boa jogada de Tostão, a Seleção Brasileira diminuiu o ritmo e acabou cedendo espaços que foram aproveitados pelo selecionado peruano. Aos 28 minutos do primeiro tempo, Chumpitaz lançou Gallardo (rápido ponta-esquerda que teve boa passagem pelo Palmeiras na década de 1960) pela esquerda. O camisa 11 passou como quis por Carlos Alberto e chutou sem ângulo. O goleiro Félix tentou encaixar e acabou desviando para dentro do próprio gol. Pelé ainda teve mais uma chance de marcar no final do primeiro tempo em nova bola na trave após defesa de Rubiños. No entanto, mesmo com as falhas individuais, a Seleção Brasileira era a dona do jogo e voltou do intervalo a todo vapor. Logo aos sete minutos da segunda etapa, Pelé tabelou com Jairzinho e entrou na área livre para tentar o arremate. O Rei viu Tostão entrando na área sem marcação e passou a bola para o camisa 9 estufar as redes de Rubiños e marcar seu segundo gol na partida. Poucos minutos depois, Didi fez alterações no Peru: os atacantes Baylon e “Perico” León deixaram o jogo para as entradas dos também atacantes Hugo Sotil e Eladio Reyes.

As mexidas do “Mr. Football” deixaram o escrete peruano ainda mais ofensivo e ainda mais perigoso nos contra-ataques visto que, apesar da vantagem no placar, o Brasil continuou atacando. Aos 22 minutos do segundo tempo, Zagallo mandou Paulo Cézar Lima para o jogo no lugar de Gérson e recuou Rivellino para junto de Clodoaldo no meio-campo. A mexida visava poupar o camisa 8 que vinha de problemas musculares. No entanto, três minutos depois, após bela jogada coletiva, Cubillas aproveitou novo cochilo da defesa brasileira e fez o segundo do Peru. O escrete canarinho redobrou a atenção e passou a valorizar mais a posse da bola trocando passes no meio-campo e partindo para o ataque somente “na boa”. Aos 30 minutos, Rivellino viu Jairzinho arrancando pela esquerda e fez o passe milimétrico para o “Furacão da Copa” se livrar do goleiro Rubiños e tocar para o gol vazio. Cinco minutos depois de marcar pela quinta vez em cinco jogos, Jairzinho (completamente exausto) deu lugar a Robeto Miranda. Daí para o final do jogo, o Brasil se manteve fechado na defesa e valorizou bem a posse de bola diante de um adversário já sem forças para reagir.

Brasil vs Peru - Football tactics and formations

Zagallo sacou Gérson após o terceiro gol e Jairzinho após o quarto gol para poupar seus alguns dos seus principais jogadores para a sequência da Copa do Mundo. Mesmo com mais volume ofensivo do que no primeiro tempo, o Peru acabou se tornando presa fácil para os rápidos e letais contra-ataques brasileiros.

A Seleção Brasileira estava classificada para as semifinais da Copa do Mundo com todos os méritos e toda a autoridade. Todos os outros semifinalistas foram definidos naquele dia 14 de junho de de 1970. Em Toluca, a Itália venceu o México por 4 a 1 com grande atuação do hábil atacante Luigi Riva (autor de dois gols). Em León, após 120 minutos de partida, a Alemanha Ocidental venceu a Inglaterra por 3 a 2 de virada e se vingou da derrota na final da Copa do Mundo de 1966. E na Cidade do México, o Uruguai venceu a União Soviética po 1 a 0 (com um gol de Espárrago aos 12 minutos do segundo tempo da prorrogação) e seria o adversário do Brasil nas semifinais. O fantasma de 1950 voltava para assombrar a nossa seleção. Mas isso é assunto para o oitavo capítulo da série “50 anos do Tri”. Não percam!

Relembre os capítulos anteriores do especial “50 anos do Tri”:

50 anos do Tri (Parte I): Toda história tem um começo
50 anos do Tri (Parte II): A saída de João Saldanha e a chegada de Zagallo
50 anos do Tri (Parte III): Começa a Copa do Mundo!
50 anos do Tri (Parte IV): Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia
50 anos do Tri (Parte V): Brasil 1 x 0 Inglaterra
50 anos do Tri (Parte VI): Brasil 3 x 2 Romênia

FONTES DE PESQUISA:

Site oficial da CBF
Site oficial da FIFA – 1970 World Cup
RSSSF Brasil
The RSSSF Archive
Blog Três Pontos – Brasil 4 x 2 Peru
TRIVELA: [Os 50 anos da Copa de 70] O carinho mútuo entre Zagallo e Didi, amigos que se enfrentariam no Brasil x Peru
A Pirâmide Invertida, de Jonathan Wilson (Editora Grande Área)
Escola Brasileira de Futebol, de Paulo Vinícius Coelho (Editora Objetiva)
As melhores Seleções Brasileiras de todos os tempos, de Milton Leite (Editora Contexto)

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