Atuação contra o São Paulo mostra que Flamengo teve muito mais sorte do que juízo na conquista de mais um título nacional

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação dos comandados de Rogério Ceni na rodada que fechou o Brasileirão 2020

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

O Flamengo é o campeão brasileiro de 2020 e com todos os méritos. Cresceu na hora certa, emplacou momentos que lembraram o rolo compressor de 2019 (sob o comando de Jorge Jesus) e teve em Rogério Ceni o treinador que conseguiu organizar (um pouco) as coisas dentro de campo. E isso tudo numa temporada absurdamente atípica com direito a surto de COVID-19 no elenco, seguidos desfalques por lesões e eliminações doídas na Libertadores e na Copa do Brasil. Mesmo assim, este que escreve não pode fechar os olhos para o fato de que o escrete rubro-negro fez de tudo para não levar o título pra casa, já que o grito de campeão só veio depois do empate sem gols entre Internacional e Corinthians. A derrota para um São Paulo aplicado e intenso nas transições acabou por ser o retrato do Flamengo nessa retomada das atividades. Impossível não enxergar muito mais sorte do que juízo nessa conquista.

Falando sobre o jogo em si, é preciso dizer que a estratégia do São Paulo era clara: fechar espaços na frente da área e acelerar nos contra-ataques com Luciano e Pablo aproveitando os passes mais longos às costas de Rodrigo Caio e Gustavo Henrique através do 5-3-2 montado por Marcos Vizolli. Essa estratégia foi suficiente para escancarar (mais uma vez) os problemas criativos do Flamengo de Rogério Ceni. Com Everton Ribeiro e Isla encaixotados pela marcação, Daniel Alves vigiando e levando a melhor no duelo particular com Gerson e Diego Ribas sobrecarregado na saída de bola, o escrete rubro-negro chegou poucas vezes ao gol de Tiago Volpi. Gabigol lutava contra os zagueiros e Bruno Henrique não conseguia colocar velocidade nas suas descidas em diagonal a partir do lado esquerdo. Até mesmo Arrascaeta (o jogador mais lúcido do meio-campo do Fla) fazia partida ruim no Morumbi.

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Flamengo vs Sao Paulo - Football tactics and formations

Jogando no 5-3-2 de Marcos Vizolli, o São Paulo fechou as principais saídas do Flamengo e viu seu adversário perder consistência aos poucos no primeiro tempo. Daniel Alves e Tchê Tchê ditavam o ritmo do meio-campo e não davam chance para Diego Ribas e Gerson na criação das jogadas de ataque.

Diante de um Flamengo sem o mesmo brilho das partidas anteriores (principalmente nas partidas contra Grêmio e Sport), o São Paulo percebeu que era possível adiantar as suas linhas e se aventurar no ataque. A primeira finalização viria apelas aos 45 minutos da primeira etapa, numa bela cobrança de falta de Luciano. Há como se questionar a posição da barreira armada pelo goleiro Hugo Souza, mas isso não tira os méritos do camisa 11 do São Paulo. Cobrança precisa e de manual. E a vantagem no placar era mais do que justa, visto que Rogério Ceni não conseguia fazer o Flamengo se livrar da arapuca do seu adversário. E o grande problema não estava na formação escolhida pelo treinador rubro-negro. Estava na execução dos movimentos e na velocidade colocada em cada um deles. Fora o fato de que Gerson e Diego Ribas carregavam demais a bola e não conseguiam se livrar da marcação no meio-campo.

O gol de Bruno Henrique aos seis minutos do segundo tempo deu a falsa impressão de que o Flamengo voltou do intervalo mais aceso e mais ligado na partida. Falsa porque os problemas coletivos continuavam lá. A equipe continuava engessada e muito lenta nas transições, pontos que só facilitavam a marcação adversária. E as falhas individuais também. Hugo Souza saiu jogando errado, Daniel Alves interceptou o passe e passou para Pablo tocar na saída do goleiro rubro-negro e fazer o segundo do São Paulo na partida. E para piorar a situação, Gabigol deixou o campo machucado para a entrada de Pedro. Rogério Ceni tentou dar mais consistência ao time com as entradas de João Gomes e Matheuzinho, mas não conseguiu fazer o Flamengo jogar um bom futebol. Do outro lado, Marcos Vizolli manteve a estrutura básica do seu 5-3-2 e usou as cinco substituições para ganhar tempo. Vitória justa.

Sao Paulo vs Flamengo - Football tactics and formations

O Flamengo de Rogério Ceni foi estático e lento nas transições e em quase nada lembrou o time que venceu Grêmio e Sport jogando um bom futebol. Marcos Vizolli foi feliz ao montar o São Paulo para explorar os pontos fracos do seu adversário e apenas administrou o resultado até o apito final.

A confirmação do título brasileiro só viria com o empate sem gols entre Internacional e Corinthians e a imagem dos jogadores assistindo ao jogo pelo celular numa imagem que tinha tudo para se transformar num dos maiores “memes” de todos os tempos. Difícil não chegar à conclusão de que o Flamengo conquistou seu oitavo título brasileiro muito mais na base da sorte do que qualquer outra coisa. Claro que a qualidade individual falou mais alto em partidas complicadas e que Rogério Ceni tem sim seus méritos na organização do time e na manutenção do estilo mais ofensivo. Principalmente na escalação de Willian Arão na defesa e Diego Ribas ao lado de Gerson no meio-campo. Fora isso, o Flamengo teve o ataque mais positivo do Brasileirão com 68 gols. Mas também foi a equipe que mais desperdiçou chances claras (ver abaixo). Mais uma prova de que a sorte prevaleceu sobre o juízo do escrete rubro-negro.

Por mais que negue nas entrevistas coletivas, Rogério Ceni tentou sim deixar a sua “marca” no time do Flamengo. O jogo posicional do treinador rubro-negro precisa de muitos ajustes para a próxima temporada (que promete ser ainda mais desgastante do que a de 2020) para não depender tanto das individualidades de Bruno Henrique, Gabigol e (principalmente) Arrascaeta. E o mais curioso de tudo é perceber que o Fla jogou melhor quando teve que entrar em campo de três em três dias do que nos momentos em que Rogério Ceni tinha semanas cheias para treinar. Impossível não perceber uma certa queda de rendimento no escrete rubro-negro. Este que escreve não quer tirar os (muitos) méritos da equipe na conquista do octacampeonato nacional. Mas tudo o que foi relatado acima mostra que o título foi construído muito mais na base do talento individual do que num trabalho coletivo. É algo que deve ser levado em consideração.

O Campeonato Brasileiro de 2020 chega ao fim com o Flamengo comemorando o título e com o Internacional protestando contra a arbitragem e o VAR. Impossível não chegar à conclusão de que tudo poderia ter sido muito mais parecido com o ano de 2019, quando a equipe de Jorge Jesus encantou o país com um belíssimo futebol. Rogério Ceni merece comemorar esse título, mas deve repensar muita coisa para que sua equipe não dependa tanto da sorte.

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