Seria essa a melhor geração da história do futebol português?

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca a safra atual de jogadores de Portugal e projeta a participação da equipe de Fernando Santos na Eurocopa

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / Seleções de Portugal

Comparar gerações de jogadores de futebol de diferentes épocas é sempre um problema por conta de todo o contexto envolvido. Todos nós sabemos muito bem que o esporte bretão jogado hoje é muito diferente do praticado há quinze anos atrás, por exemplo. Mesmo assim, não deixa de ser um exercício interessante. Ainda mais quando o assunto é a nova geração de jogadores portugueses. Além do onipresente e já veterano Cristiano Ronaldo, a seleção comandada por Fernando Santos conta com nomes de respeito como Bruno Fernandes, Diogo Jota, Willian Carvalho, Rúben Neves, Bernardo Silva, Danilo, João Félix, Rúben Dias, Rafael Leão e vários outros. É exatamente por causa dessa safra repleta de grandes nomes que este que escreve pergunta: será essa a melhor e mais promissora geração do futebol português? É o que vamos tentar descobrir aqui. Mas antes, um pouquinho de história.

Embora tenha estreado oficialmente no ano de 1921, Portugal só começou a se destacar no cenário internacional a partir de 1966, quando a equipe comandada por Otto Glória chegou ao terceiro lugar na Copa do Mundo daquele ano, disputada na Inglaterra. Aquela seleção aproveitava boa parte dos jogadores do Benfica bicampeão europeu em 1960/61 e 1961/62. A grande estrela da companhia era Eusébio (ponta de lança de respeito nascido em Moçambique) e que despontava como um dos maiores do seu tempo e chegando a ser comparado com Pelé. Além do “Pantera Negra”, Portugal ainda contava com a segurança do zagueiro Germano, com a polivalência do volante Jaime Graça, com os passes e lançamentos precisos do cracaço Coluna, a velocidade de José Augusto e Simões pelas pontas e com o oportunismo de Torres no comando de ataque. Era, sem dúvida, uma equipe de muito respeito. E que fez história.

Aquele Portugal jogava no 4-2-4 típico daqueles tempos, mas com algumas pequenas adaptações. Diante do “nascimento” do 4-4-2 com a Inglaterra de “Sir” Alf Ramsey e o recuo dos pontas Alan Ball e Peters para o meio-campo, o técnico Otto Glória armava a sua seleção numa pequena adaptação do seu esquema tático. Não era incomum ver José Augusto e Simões acompanhando as subidas dos laterais adversários e até mesmo se alinhando a Coluna e Jaime Graça. A equipe perdeu muito com a lesão de Germano ainda na fase de grupos, mas manteve a consistência até a derrota para os donos da casa nas semifinais. Mesmo assim, a imprensa esportiva daqueles tempos considerava a Seleção Portuguesa como uma das mais agradáveis de se ver em campo. E isso sem falar nas atuações mágicas de Eusébio, artilheiro da Copa do Mundo com nove gols marcados nos seis jogos que sua equipe disputou na Inglaterra.

Portugal 1966 - Football tactics and formations

Otto Glória montou uma seleção forte, competitiva e veloz para disputar a Copa do Mundo de 1966. Eusébio era a grande estrela da primeira grande equipe da história de Portugal e contou com José Augusto, Simões, José Pereira, Jaime Graça e Torres num 4-2-4 que já assimilava as novidades daqueles tempos.

Após o terceiro lugar na Copa de 1966, a Seleção Portuguesa passou por um período de estagnação que durou até a Eurocopa de 1984, quando a geração de Fernando Chalana, Fernando Gomes e Jaime Pacheco chegou às semifinais. A reestruturação da equipe (e do futebol português como um todo) teve início em meados da década de 1990. Luís Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Nuno Gomes, João Pinto, Vítor Baía e outros jogadores participaram de boas campanhas com a da Eurocopa de 2000, quando a equipe comandada por Humberto Coelho só parou para a França nas semifinais. A nova geração que surgia vinha acompanhada do trabalho realizado também na beira do gramado (com o grande sucesso de José Mourinho no Porto e no Chelsea no início do século). Mas seria a Eurocopa de 2004 (realizada em Portugal) que seria o palco do surgimento de um dos maiores jogadores de todos os tempos.

Cristiano Ronaldo virou titular da Seleção Portuguesa durante a disputa da Eurocopa de 2004 (na equipe comandada por Luiz Felipe Scolari). O vice-campeonato na competição, no entanto, não tirou o brilho da geração de Maniche, Costinha, Miguel, Ricardo, Deco, Ricardo Carvalho e vários outros ótimos nomes. A consolidação definitiva viria na Copa do Mundo, disputada em 2006. O quarto lugar conquistado na Alemanha foi o início de uma série de bons resultados a nível internacional da “Seleção das Quinas”. E a partir daí, Cristiano Ronaldo, Pepe e outros jogadores passariam de novatos a veteranos até a formação da equipe que conhecemos atualmente. Mas tudo teve início no 4-2-3-1 costumeiro de Felipão. As arrancadas de CR7 a partir da esquerda, os lançamentos de Figo, os gols de Pauleta e as subidas de Maniche ao ataque ainda estão vivas na memória do torcedor português.

Portugal 2006 - Football tactics and formations

Cristiano Ronaldo ganhou espaço com Luiz Felipe Scolari a partir da Eurocopa de 2004 e virou definitivamente uma grande estrela a partir da Copa do Mundo da Alemanha dois anos mais tarde. O 4-2-3-1 costumeiro do treinador ajudou a consolidar Portugal como uma das grandes seleções do Velho Continente.

A chegada de Fernando Santos ao comando de Portugal logo depois da Copa do Mundo de 2014 (disputada aqui no Brasil) foi determinante para que a seleção finalmente conquistasse seu lugar ao sol. A conquista da Eurocopa de 2016 em cima da França numa partida emocionante decidida apenas no tempo extra (com um gol salvador de Éder) foi o início de grandes dias para o escrete lusitano. O trabalho feito na formação de novos treinadores que fizeram (e fazem) muito sucesso no cenário internacional e, é claro, de novos valores. Gonçalo Guedes, Rúben Duas, Bernardo Silva, Danilo Pereira, Willian Carvalho, Bruno Fernandes e Rui Patrício se juntaram a Cristiano Ronaldo e Pepe (os veteranos que começam a passar o bastão para a geração mais jovem) numa seleção que aliava juventude e experiência. Estamos falando de uma equipe que joga com a bola no chão e que é bastante agradável de se ver em campo.

O grande mérito de Fernando Santos (e um dos principais motivos pelos quais essa nova geração alimenta as expectativas do torcedor português) foi montar a Seleção de Portugal de modo que ela não dependesse de Cristiano Ronaldo. O time que vimos em campo nos últimos meses (mesmo sem a classificação final para a Liga das Nações de 2020/21) tem variações táticas (é comum vermos Portugal jogando no 4-3-3, no 4-4-2, no 4-2-3-1 e em outras formações numa mesma partida), se defende bem e coloca muita intensidade nas suas transições. É bem verdade que o escrete lusitano apresentou uma certa irregularidade que pode complicar a equipe na disputa da próxima Eurocopa (que acontece no meio do ano) e também nesse início de Eliminatórias para a Copa do Mundo do Catar. Mesmo assim, a “Seleção das Quinas” tem um padrão muito claro de jogo. Todos são protagonistas dentro de campo.

Portugal 2019 - Football tactics and formations

A equipe que levou o título da primeira edição da Liga das Nações da UEFA já contava com essa mescla de experiência e juventude numa equipe forte e consistente. O grade mérito do técnico Fernando Santos foi conseguir fazer sua seleção jogar sem depender da genialidade de Cristiano Ronaldo.

Diante do que se viu de 2016 até aqui e dos jogadores promissores que surgiram nas últimas temporadas (Rafael Leão, Diogo Jota, Renato Sanchez, Rúben Neves, João Félix, Francisco Trincão, Pedro Neto e vários outros), é praticamente impossível não se empolgar com a possibilidade (real) da Seleção Portuguesa finalmente conquistar seu lugar no primeiro escalão do futebol mundial. Quase todos esses atletas jogam em ligas muito fortes e já mostraram potencial para crescer ainda mais. Este que escreve iniciou essa análise falando que comparar gerações é muito difícil por conta de todo o contexto envolvido. Por outro lado, as expectativas para a disputa da Eurocopa no meio desse ano e também para a Copa do Mundo de 2022 (no Catar) são as melhores possíveis, já que essa geração estará ainda mais experiente e com condições de fazer boas apresentações dentro de campo.

É complicado afirmar que a atual geração portuguesa é a melhor da história do país. Ainda mais quando estamos comparando os nomes de hoje com Eusébio, Coluna, Figo e outras lendas do passado. No entanto, é possível afirmar sem medo nenhum de errar que Portugal conta hoje com uma leva de grandes jogadores que podem conquistar o que as antigas gerações não conseguiram. Será que temos um novo favorito na Copa do Mundo?

CONFIRA OUTRAS ANÁLISES DA COLUNA PAPO TÁTICO:

Vitória protocolar do Bayern de Munique só reforça o abismo existente entre os clubes europeus e o resto do mundo

Falta de ousadia, pobreza de ideias e excesso de pragmatismo explicam derrota do Palmeiras no Mundial de Clubes da FIFA