Goleada sobre a Argentina não esconde os problemas coletivos da Seleção Feminina; entenda

Luiz Ferreira analisa a vitória das comandadas de Pia Sundhage na rodada de abertura da She Believes Cup nos Estados Unidos

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Sam Robles / CBF

Você pode até achar que este colunista está exagerando ao falar de problemas coletivos numa equipe depois que ela vence um jogo por 4 a 1. Acredite: não é exagero. A Seleção Brasileira Feminina venceu a frágil Argentina de Carlos Borrello pelo placar citado na estreia da equipe na She Believe Cup nesta quinta-feira (18) em Orlando, nos Estados Unidos. Por mais que a equipe comandada por Pia Sundhage esteja utilizando a competição amistosa para realizar testes, é preciso dizer (mais uma vez) que algumas das escolhas da treinadora sueca são sim bem questionáveis. Mesmo com a goleada sobre o rival sul-americano, ainda existe muita coisa a ser resolvida na Seleção Feminina em todos os setores. A impressão que fica é a de que o escrete canarinho mais venceu o jogo por conta do talento individual do que pelo jogo coletivo e pela estratégia. E isso é preocupante demais.

Conheça a 1xBet:

Um novo jeito de fazer sua aposta esportiva!

Sem Luana e Formiga (que não foram liberadas pelo Paris Saint-Germain), muita gente pensou que Pia Sundhage fosse escalar Andressinha ao lado de Júlia Bianchi na frente da zaga brasileira. No entanto, não foram apenas vocês que se espantaram quando a escalação foi divulgada. Adriana (que já jogou mais recuada com Arthur Elias no Corinthians) entrou como titular, Camilinha entrou na lateral-direita e Marta foi jogar mais pelo lado esquerdo no 4-4-2 básico da treinadora sueca. Com pouca gente pensando o jogo no meio-campo (até pela característica das titulares), a primeira etapa acabou marcada pelas bolas longas para Bia Zaneratto e Debinha no ataque e pela pouca criatividade da equipe. A única coisa que deu certo foi as jogadas de ultrapassagem. Foi assim que Adriana (talvez uma das mais lúcidas em campo) recebeu no meio e só foi parada com falta de Aldana Cometti dentro da área.

As jogadas de ultrapassagem e as subidas de Adriana ao ataque foram o único ponto positivo da Seleção Feminina no primeiro tempo da partida contra a Argentina. O meio-campo criou pouco e a equipe de Pia Sundhage abusou das ligações diretas procurando Bia Zaneratto e Debinha no ataque. Foto: Reprodução / SPORTV

A penalidade convertida por Marta deu um pouco mais de tranquilidade pata a Seleção Feminina. Mesmo assim, o time só melhorou no segundo tempo, quando Pia Sundhage mandou Andressinha para o jogo. E ainda assim não foi nada de muito extraordinário. Ao mesmo tempo, a movimentação ofensiva do escrete canarinho também ganhou mais mobilidade, com Bia Zaneratto mais participativa e Debinha atacando os espaços que surgiam na defesa da Argetnina. Os gols brasileiros da segunda etapa (marcados pela camisa 9, por Adriana e Geyse) surgiram exatamente dessa movimentação. A atacante de referência recebe a bola, atrai a marcação e abre espaços que foram muito bem aproveitados com passes em profundidade. E isso tudo com a marcação alta e o apoio das volantes para aproveitar a sobra e/ou fazer a pressão na portadora da bola. Foram poucos momentos de bom futebol, mas que merecem a nossa atenção.

Zagueiras adiantando a marcação, volantes apoiando e atacantes dando profundidade às jogadas. Os melhores momentos da Seleção Feminina no jogo desta quinta-feira (18) aconteceram quando Bia Zaneratto (ou Cristiane) abriam espaços e esperavam a movimentação de Debinha ou Geyse no terço final Foto: Reprodução / SPORTV

Embora a Argentina tenha ameaçado pouco a meta brasileira, este que escreve precisa colocar que o setor defensivo é um dos que mais precisa de ajustes. Não pela dupla de zaga, mas por duas decisões de Pia Sundhage. A primeira é a insistência na escalação de uma zagueira na lateral-direita. Difícil entender essa escolha quando o Brasileirão Feminino revelou tantas atletas da posição que poderiam estar sendo melhor aproveitadas. E a segunda é a escalação de Camilinha na posição. A camisa 18 vem jogando como meio-campo há algum tempo e já não tem mais o “cacoete” para jogar na linha defensiva. Tanto que o posicionamento corporal da jogadora no lance do gol marcado por Mariana Larroquette é completamente equivocado. E ainda existe um outro detalhe: Marta nem aparece no frame abaixo para ajudar na marcação ou pelo menos fechar seu setor. Uma verdadeira sucessão de erros num lance despretensioso.

Tainara (zagueira improvisada na lateral-direita) permite que Yamila Rodríguez tenha tempo e espaço para fazer o cruzamento no segundo pau. A experiente Mariana Larroquette aproveita o vacilo de Camilinha (outra jogadora que não é da posição) para marcar o gol de honra da Argentina. Foto: Reprodução / SPORTV

Sim, a Seleção Feminina sobrou na partida e venceu com toda a justiça. Mas a impressão que ficou foi a de que o escrete comandado por Pia Sundhage sofreu mais do que o necessário. Ainda mais diante das dificuldades apresentadas no primeiro tempo na criação das jogadas e nos já mencionados problemas defensivos. Este colunista entende muito bem que a presença de Marta no grupo é importante pela história da nossa Rainha e por tudo que ela representa. Mas Pia Sundhage precisa fazer uma escolha: ou utiliza a camisa 10 numa formação que tire qualquer obrigação defensiva de suas costas ou segue insistindo no seu posicionamento pelo lado do campo. E aqui não existe certo ou errado. A decisão da treinadora sueca vai gerar consequências dentro de campo. Futebol é isso. Mas vale mesmo insistir em Marta jogando como “ponta” sabendo que ela já não entrega o mesmo desempenho de outros anos?

O próximo compromisso da Seleção Feminina é o jogo contra os Estados Unidos, marcado para o próximo domingo (21). A partida pode ser um verdadeiro divisor de águas para Pia Sundhage na Seleção Feminina. Principalmente pela qualidade do seu adversário. Mas é preciso ter em mente que o resultado não pode esconder os pontos positivos e negativos da equipe. E nesses tempos de preparação, é preciso olhar muito além do placar final.

CONFIRA OUTRAS ANÁLISES DA COLUNA PAPO TÁTICO:

Porto de Sérgio Conceição mostra que existem muitas maneiras de competir em alto nível na Liga dos Campeões

Empate contra o Arsenal mostra que linha de cinco defensores no Benfica ainda precisa de alguns ajustes