Porto de Sérgio Conceição mostra que existem muitas maneiras de competir em alto nível na Liga dos Campeões

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória do escrete português sobre a Juventus de Pirlo e Cristiano Ronaldo

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / FC Porto

O velho e rude esporte bretão pode ser de uma complexidade absurda e de uma simplicidade incrível em coisa de dois toques. A prova disso é a atuação do Porto de Sérgio Conceição na vitória por 2 a 1 sobre a Juventus de Andrea Pirlo e Cristiano Ronaldo nesta quarta-feira (17), no Estádio do Dragão. A equipe portuguesa foi extremamente precisa na construção dos dois gols (ainda que o primeiro tenha contado com a participação direta de Szczesny e Bentancur) e na marcação do forte adversário na partida de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões da UEFA. O Porto usou de simplicidade para entender suas condições no duelo contra “La Vecchia Signora” e muita movimentação no ataque para incomodar bastante a defesa do escrete italiano. Existem muitas formas de competir em alto nível. E a equipe comandada por Sérgio Conceição mostrou isso durante boa parte dos noventa (e poucos) minutos de jogo.

Na prática, é como se o Porto já tivesse iniciado a partida com a vantagem no placar. Nesse ponto, é preciso enxergar a estratégia aplicada logo nos primeiros segundos: marcação adiantada, forte pressão na saída de bola e encaixes nos homens de defesa da Juventus para isolar a dupla de ataque do meio-campo. O gol de Taremi praticamente acabou com todo o planejamento de Andrea Pirlo para essa partida e escancarou as dificuldades que o escrete italiano tinha para fazer a bola chegar em Cristiano Ronaldo. É bem verdade que Porto e Juventus entraram em campo organizadas no mesmo 4-4-2, mas era a equipe de Sérgio Conceição quem conseguia ser mais insinuante nas transições para o ataque explorando a velocidade de Corona pelo lado direito e a força de Marega nas bolas longas. Alta intensidade e alta competitividade diante de um adversário que demorou para assimilar o golpe do primeiro gol.

Juventus vs Porto - Football tactics and formations

O gol relâmpago de Taremi desmontou completamente o plano de jogo de Pirlo. A Juventus tinha a posse da bola, mas não conseguia superar o forte bloqueio defensivo do Porto (organizado no 4-4-2 preferido de Sérgio Conceição), errou passes demais no meio-campo e sofreu com os contra-ataques insinuantes do seu adversário.

Vale destacar aqui a grande atuação de Sérgio Oliveira. O melhor jogador da partida na opinião da UEFA (e também na humilde opinião deste que escreve) fez de tudo no meio-campo do Porto. Fechou seu setor, ajudou na “caça” a Cristiano Ronaldo no lado direito de defesa e ainda aproveitou a indolência de Rabiot e Bentancur para distribuir o jogo e acionar Otávio e Corona pelos lados e a velocidade de Taremi e Marega na frente. Ele e o colombiano Uribe foram implacáveis na marcação. Assim como os zagueiros Pepe e Mbemba. Ao mesmo tempo, o escrete comandado por Sérgio Conceição tinha na velocidade de Manafá e Sanusi (este um pouco mais contido que o português) a válvula de escape para sair da “blitz” da Juventus no meio-campo. Tanto que o segundo gol do Porto saiu de um passe em profundidade que o camisa 18 levou até a linha de fundo e passou para o malinês Marega tocar na saída de Szczesny.

Por outro lado, é preciso dizer que as substituições promovidas por Andrea Pirlo deram outro ânimo para a Juventus. Morata foi a referência que faltava no ataque do escrete de Turim e Ramsey melhorou a qualidade do passe no meio-campo. A equipe se organizou em algo mais próximo de um 4-2-3-1 (com o camisa 8 cobrindo mais o lado esquerdo e liberando Cristiano Ronaldo para atacar) e explorou bem o recuo do Porto de Sérgio Conceição. As entradas de Luís Díaz e Grujic nos lugares de Otávio e Marega reforçaram a marcação e o jogo pelos lados, mas tiraram a referência no ataque do escrete português. Tanto que Chiesa marcou um gol importantíssimo aos 36 minutos da segunda etapa depois de belo cruzamento de Rabiot (um dos que mais subiram de produção depois das mudanças de Pirlo). Mesmo assim, o Porto seguia levando muito perigo nos contra-ataques e poderia até ter feito mais gols nesse final de jogo.

Porto vs Juventus - Football tactics and formations

A Juventus melhorou com as entradas de Morata e Ramsey e conseguiu seu gol de honra com Chiesa completando belo cruzamento de Rabiot. Mas o Porto seguia insinuante nos contra-ataques e colocava muita intensidade na marcação. O escrete de Sérgio Conceição conseguiu um belo resultado contra um oponente mais qualificado.

Este que escreve não marcaria a penalidade em cima de Cristiano Ronaldo por entender que o craque português já havia inclinado o corpo antes da chegada de Sanusi, mas entende a revolta dos jogadores da Juventus com o árbitro espanhol Carlos del Cerro, que encerrou a partida antes de checar o lance no VAR. A questão é que nem isso diminui o tamanho da atuação de um Porto extremamente competitivo e ciente das suas limitações e tampouco esconde a atuação ruim dos comandados de Andrea Pirlo. Aliás, ainda é bem difícil entender as razões pelas quais a lenda da Squadra Azzurra insiste em deixar Dybala no banco de reservas quando precisava de criatividade no meio-campo e alguém que ocupasse o espaço entre as linhas de um adversário bem postado na defesa. O camisa 10 de “La Vecchia Signora” poderia exercer essa função, vigiar Sérgio Oliveira e ainda municiar Cristiano Ronaldo com bons passes em profundidade.

O Porto mostrou nesta quarta-feira (17) que é muito possível jogar o velho e rude esporte bretão aliando simplicidade na hora de atacar e complexidade nos movimentos defensivos para entender por onde seu adversário vai atacar. E isso sem mencionar a maneira como o escrete de Sérgio Conceição conseguiu competir contra um adversário mais qualificado tecnicamente. A vantagem nas oitavas da UCL é pequena. Mas deve ser comemorada.

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