Ferroviária se garante nas semifinais da Libertadores com muita transpiração e pouquíssima inspiração

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória suada do time de Lindsay Camila sobre o River Plate na última segunda-feira (15)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Conmebol Libertadores Femenina

Antes de mais nada, é preciso dizer que Ferroviária e River Plate fizeram uma partida com poucas emoções nesta segunda-feira (15). O gramado castigado do Estádio Nuevo Francisco Urbano (localizado na cidade de Morón), a chuva e a postura mais pragmática das duas equipes contribuiu diretamente para que o jogo fosse marcado por muitos erros de passe, muitas bolas longas e muito “bate e volta”. Acabou que as Guerreiras Grenás se superaram na base da garra e da disposição e construíram a vitória por 1 a 0 em cima das argentinas através da conhecida jogada de bola parada, com Sochor servindo Ana Alice no finalzinho do primeiro tempo. A vaga nas semifinais da Libertadores Feminina, no entanto, não apaga os problemas da equipe comandada por Lindsay Camila em todos os setores. Se quiser ir mais longe na competição sul-americana, a Ferroviária precisa melhorar bastante.

A Ferroviária demorou um pouco para se encontrar na partida e sofreu com as bolas longas nas costas da defesa (em busca de Pereira e Martelli) e com os problemas na recomposição defensiva. As Guerreiras Grenás conseguiram equilibrar as ações em campo a partir do momento em que as jogadoras começaram a executar os movimentos do 4-4-2 de Lindsay Camila com mais precisão. Principalmente na pressão na portadora da bola. Com menos espaço entre as linhas e com Nicoly e Luana muito atentas em cada lance, a equipe brasileira foi conseguindo bloquear as saídas do River Plate e obrigado suas adversárias a continuar explorando as bolas longas. Com a marcação mais encaixada (e com uma grande noite da dupla de zaga formada por Yasmin e Ana Alice), as Guerreiras Grenás sofreram (um pouco) menos na defesa, mas seguiam com problemas crônicos na criação das jogadas. Faltava intensidade.

A Ferroviária melhorou seu desempenho contra o River Plate depois que Lindsay Camila corrigiu o posicionamento defensivo. Com as jogadoras mais atentas na pressão na portadora da bola, o jogo das Guerreiras Grenás foi ganhando mais consistência com o passar do tempo. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

Sochor, Aline Milene e a lateral-esquerda Barrinha foram algumas das jogadoras que foram melhorando a partir do momento em que a Ferroviária acelerou o jogo e colocou mais intensidade nas transições para o ataque. Numa das poucas trocas de posição feitas pelas três atletas citadas, a camisa 6 aproveitou o espaço aberto pelas atacantes para se lançar às costas de Melgarejo e só foi parada com falta de González. Sochor mandou a bola para a área e Ana Alice aproveitou a indecisão da zaga do River Plate para escorar para as redes. O único gol da partida nasceu de uma das poucas vezes em que as Guerreiras Grenás acertaram o passe e colocaram um mínimo de intensidade no passe. Parece óbvio, mas a equipe que venceu o jogo (e se garantiu nas semifinais da Libertadores) foi aquela que melhor conseguiu ler os espaços no campo adversário. E Barrinha fez isso muito bem no lance do gol da Ferrinha.

Sochor e Aline Milene abriam o espaço e Barrinha se lançava ao ataque. Essas triangulações (quando bem feitas) foram a principal arma ofensiva da Ferroviária. O River Plate sempre encontrou dificuldades quando as Guerreiras Grenás colocavam intensidade nas transições. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

O segundo tempo da partida Estádio Nuevo Francisco Urbano acabaria marcado pelas inúmeras tentativas do River Plate de (pelo menos) igualar o marcador e levar a decisão para as penalidades. E foi aí que Lindsay Camila (mesmo com todos os problemas citados no início desta análise) aproveitou o “excesso” de inspiração das Guerreiras Grenás para fechar os espaços na frente da área da goleira Luciana e apostar nas bolas longas para as atacantes. Acabou que a estratégia mais consagrou a dupla de zaga do que gerou situações de perigo. Tudo por conta do contexto da partida e da própria Libertadores. Com pouco tempo para treinar e com uma margem baixíssima de erro, a saída de Lindsay Camila foi apostar no pragmatismo. Atacar e defender em bloco, sem muitos toques na bola e acionar as atacantes através das ligações diretas e passes longos. Tudo para assegurar a vaga nas semifinais da Libertadores.

Lindsay Camila fechou sua equipe com duas linhas na frente da área da goleira Luciana e seguiu com sua aposta no estilo mais pragmático. Tudo para segurar a equipe do River Plate e assegurar a vaga nas semifinais da Libertadores Feminina. Boa atuação da dupla de zaga. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

Este que escreve entende muito bem a situação que Lindsay Camila encontrou quando assumiu o comando da Ferroviária no início de 2021. A equipe perdeu jogadoras importantes e a vitória sobre o River Plate foi apenas a QUARTA PARTIDA da treinadora à frente das Guerreiras Grenás. É difícil cobrar consistência, resultados e desempenho num contexto extremamente complicado como esse. E ainda mais tendo que encarar uma Libertadores Feminina logo de cara. Lindsay mal teve tempo para conhecer as características de cada jogadora e encontrar a formação que melhor potencializasse o talento de cada uma delas. Entretanto, por mais que essa irregularidade da Ferroviária seja fácil de explicar e de entender, o nível de exigência da competição sul-americana vai aumentar consideravelmente nas semifinais. Ainda mais contra a Universidad de Chile, equipe que também cresceu na hora certa nessa Libertadores.

A Ferroviária de Lindsay Camila tem todos os méritos na classificação para as semifinais por conta de todo o contexto explicado anteriormente. É difícil assumir uma equipe e tentar fazê-la jogar em alto nível com pouquíssimo tempo de trabalho e com uma Libertadores pela frente. A pouca inspiração teve que dar lugar às doses cavalares de transpiração. Até para compensar todos os problemas de adaptação entre jogadoras e comissão técnica.

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