Mais próxima do gol e com menos obrigações defensivas: entenda como Marta pode continuar fazendo a diferença

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica por que a mudança de posicionamento da Rainha do Futebol na Seleção Feminina é tão necessária

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Sam Robles / CBF

Este que escreve já falou sobre o talento da nossa Rainha Marta e a sua importância no cenário mundial aqui no TORCEDORES.COM e em outros espaços. A nossa camisa 10 ainda é altamente respeitada e reverenciada pelo mundo a fora e tem sido presença constante das últimas listas elaboradas pela sueca Pia Sundhage para a Seleção Feminina. Por outro lado, é praticamente impossível não perceber que a idade (36 anos completados no último dia 19 de fevereiro) e o consequente declínio físico das mais de duas décadas de carreira começam a cobrar seu preço. Mesmo assim, como abrir mão de uma jogadora que foi eleita a melhor do mundo seis vezes e que ainda impõe MUITO respeito nas equipes adversárias? A resposta para esta e outras perguntas pode estar numa mudança simples de posicionamento da nossa Rainha. Tudo para tê-la mais próxima do gol e sem se preocupar com obrigações defensivas.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que este colunista não está questionando o talento de Marta ou de qualquer outra jogadora. O que se quer aqui é potencializar o talento da nossa camisa 10 diante do contexto atual. Estamos falando de uma atleta de 36 anos que tem muito talento com a bola nos pés, mas que já não tem mais pique nem intensidade para fazer perseguir as laterais adversárias e fechar uma linha de meio-campo pelo lado. É algo que o técnico Marc Skinner e outros já haviam percebido. Nas duas partidas do Orlando Pride contra o North Carolina Courage (equipe da brasileira Debinha) pela National Women’s League Soccer, Marta jogou como atacante num 4-4-2 mais nítido e variava sua posição dependendo do posicionamento da atacante Abby Elinsky. Ora mais avançada (atacando os espaços que aparecem na zaga adversária), ora recuando como uma ponta de lança à moda antiga.

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No Orlando Pride, Marta é muito mais uma atacante de movimentação e uma ponta de lança do que a meio-campista que retorna pelo lado do campo para marcar as laterais adversárias. Essa foi a forma encontrada para adaptar o futebol da camisa 10 ao jogo mais intenso dos nossos dias. Foto: Reprodução / YouTube / National Women’s Soccer League

Note que os jogos citados por este colunista aqui nesta análise foram realizados após uma longa paralisação por conta da pandemia de COVID-19. Além de todos os problemas físicos que Marta teve durante a Copa do Mundo da França (em 2019) ainda havia a questão da falta de ritmo. E a pergunta feita no primeiro parágrafo se mantinha: como abrir mão de uma atleta com tamanho talento e que ainda coloca muito respeito nas adversárias? A solução encontrada foi posicionar a nossa Rainha como uma atacante num 4-4-2 ou na meio-campista que joga por dentro na variação natural para o 4-2-3-1 (também percebida no Orlando Pride de Marc Skinner). Embora tenha perdido o arranque dos tempos em que foi eleita a melhor jogadora do mundo cinco vezes seguidas, Marta ainda tem na perna esquerda um chute potente e muita visão de jogo para abrir espaços e atrair a marcação adversária. E isso tem funcionado bem.

Marta atrai as jogadoras adversárias (pelo menos duas delas) e abre espaços para que as companheiras de equipe ataquem a área adversária. A camisa 10 tem se saído bem desempenhando esse papel nas partidas do Orlando Pride. Tudo para poupar o fôlego da grande estrela da equipe. Foto: Reprodução / YouTube / National Women’s Soccer League

Difícil não notar o contraste com as suas últimas atuações com Pia Sundhage na Seleção Feminina. Talvez por conta das lembranças dos áureos tempos de Marta no escrete canarinho e nas equipes do Umea IK, do Tyresö FF e do FC Rosengard (todas da Suécia) ou pela necessidade de se escalar Debinha mais próxima do ataque (junto à Ludmila ou outra jogadora de referência). Pela She Believes Cup, a nossa camisa 10 teve desempenho razoável contra a Argentina e atuação mais discreta contra a sempre forte equipe dos Estados Unidos. Perceba que nessas duas partidas, Marta jogou no lado esquerdo do meio-campo num 4-4-2 que tentou ocupar o campo adversário, mas que abriu espaços generosos na defesa. Difícil não notar aqui que as escolhas de Pia Sundhage também ajudam a explicar muita coisa na Seleção Feminina. Nossa Rainha rende mais quando tem com quem jogar e trabalhar as jogadas.

Nas partidas contra Argentina e Estados Unidos, Marta jogou como “winger” pela esquerda e sofreu com a velocidade das adversárias e para recompor a linha de meio-campo. A nossa camisa 10 teve apenas atuação discreta nas duas partidas e escancarou os problemas na equipe de Pia Sundhage na She Believes Cup. Foto: Reprodução / SPORTV

É compreensível que as lembranças de uma Marta que dominava a bola no meio-campo e que partia pra cima das adversárias ainda esteja muito forte no imaginário do torcedor. Principalmente da Seleção Feminina que atropelou os Estados Unidos na conquista da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro (em 2007). O impressionante 3-4-3 implementado por Jorge Barcellos (já analisado por este colunista) era incrivelmente moderno para aqueles tempos e potencializava os talentos das então jovens Marta, Cristiane, Daniela Alves e Rosana além de contar com a experiência de uma onipresente Formiga na proteção do trio de zagueiras. A movimentação era tanta que Maycon se juntava às atacantes numa variação para um 3-3-4 de extrema movimentação. Difícil não se encantar com a nossa Rainha se revezando no papel de “arco e flecha” numa Seleção Feminina histórica.

Marta tinha liberdade (e fôlego) para jogar por todo o campo no 3-4-3 de Jorge Barcellos campeão pan-americano e vice-campeão da Copa do Mundo em 2007. A camisa 10 tinha a companhia de Daniela Alves, Cristiane e várias outras lendas numa Seleção Feminina que entrou para a história do futebol mundial. Foto: Reprodução / TV Globo

Mas se sabe que esses tempos ficaram para trás. Marta ainda tem muito talento, mas os 36 anos começam a cobrar seu preço na forma de lesões e de perda de intensidade nos movimentos. Diante desse panorama, qual é a melhor maneira de aproveitar a nossa camisa 10 nos Jogos Olímpicos, competição que deve ser a “Última Dança” para toda uma geração? A resposta está na maneira como jogadores como Cristiano Ronaldo e Romário se adaptaram aos novos tempos e como Marc Skinner vem adaptando o futebol da camisa 10. Utilizando a base levada por Pia Sundhage para a She Believes Cup, este colunista propõe um 4-3-3 que tem Marta saindo do lado para dentro e abrindo o corredor para as descidas de Tamires. Debinha e Ludmila se revezam no centro e no lado direito e o meio-campo formado por Adriana (jogando mais pela esquerda), Andressinha e Júlia Bianchi fecharia os espaços na intermediária.

Marta teria total liberdade para atacar jogando num 4-3-3 que se fecharia num 4-4-2 com Adriana voltando pela esquerda e Ludmila fechando o outro lado, mas sempre saindo em velocidade com a posse da bola. Marta seria mais uma ponta de lança que aproveitaria os espaços criados por Debinha e ficaria livre de obrigações defensivas.

É bem verdade que Pia Sundhage teria que rever alguns conceitos às vésperas dos Jogos Olímpicos de Tóquio para que essa estratégia funcione do jeito esperado. A começar pela insistência na escalação de uma zagueira pelo lado direito e num 4-2-4 que mais enfraquece o sistema defensivo do que provoca o erro na saída de bola adversária. É preciso ter em mente que Marta não tem mais a força e o fôlego necessário para participar dessa pressão. Por outro lado, a sua presença mais à frente pode dar mais poderio ofensivo a uma Seleção Feminina que dependeu demais do brilho individual de Debinha e companhia do que de um jogo coletivo. Principalmente com Andressinha, Adriana e Júlia Bianchi completamente sobrecarregadas na marcação no meio-campo por conta do avanço das duas “wingers” para o ataque. Qualquer bola longa às costas da primeira linha era um verdadeiro “Deus nos acuda” na equipe brasileira.

A disputa dos Jogos Olímpicos pode ser a “Última Dança” de várias jogadoras da Seleção Feminina. Mesmo assim, ainda não é o momento de se abrir mão do talento de Marta. Mas para que seu futebol aparece novamente, é mais do que necessário repensar seu posicionamento dentro de campo. Tudo para que as obrigações defensivas não minem o fôlego da camisa 10 nas partidas decisivas. É mais do que uma “compensação”. É a saída para que nossa Rainha brilhe mais uma vez.

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