Entenda por que o cuidado com as pessoas é tão importante no futebol (e na vida também)

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa o momento de Jorge Sampaoli no Olympique de Marselha e lembra que o velho e rude esporte bretão é formado, pensado e praticado por gente como a gente

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / Olympique de Marseille

O companheiro de TORCEDORES.COM Mário André Monteiro repercutiu a informação do tradicionalíssimo L’Équipe em reportagem publicada no último sábado (ver no tweet abaixo). De acordo com o jornal francês, Jorge Sampaoli já estaria enfrentando problemas de relacionamento com boa parte dos jogadores do Olympique de Marselha pouco mais de um mês depois da sua chegada no clube francês. O L’Équipe ainda fala em “reclamações sobre os gritos e reprovações” do treinador argentino durante os treinamentos, na falta de uma adaptação da sua abordagem às características dos atletas que tem à sua disposição e nos exercícios considerados repetitivos e desgastantes. No entanto, é preciso deixar claro que, por mais que Jorge Sampaoli seja conhecido pelo gênio difícil, esta não é uma análise sobre seus métodos de treinamento ou sobre seus últimos resultados no Olympique de Marselha. É sobre pessoas. É sobre eu e você.

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Este que escreve não pretende realizar aqui um tratado sobre “como ser legal com o amiguinho” ou ditar as regras sobre relacionamentos entre atletas, dirigentes e comissões técnicas no esporte de alto rendimento. Mas simplesmente mostrar que todo planejamento, toda tática e todos os demais detalhes do futebol (foco desta humilde análise) nunca serão bem sucedidos se não existir entendimento entre todas as partes. Assim como os jogadores se adaptam aos conceitos de um treinador, este também precisa se adequar e compreender as valências que cada atleta possui. Parece óbvio. Mas a história do velho e rude esporte bretão está repleta de depoimentos e casos de treinadores “disciplinadores” que conseguiam fazer com que até os jogadores mais rebeldes comprassem as suas ideias e levassem as suas equipes às vitórias e aos títulos. De Helenio Herrera a Rinus Michels. De Yustrich a Antônio Lopes.

Sobre Jorge Sampaoli, é preciso dizer que sua trajetória no futebol brasileiro (onde fez ótimo trabalho no Santos e teve resultados abaixo das expectativas no Atlético-MG) ficou marcada pelo seu pensamento claro sobre o que quer de suas equipes, pela boa aplicação do “jogo de posição” (clique aqui para relembrar todos os conceitos) e também pelos pedidos de reforços de tempos em tempos. É como se o técnico argentino não acreditasse no potencial de cada atleta que encontrou em cada clube que comandou nos últimos anos. Principalmente depois da sua passagem caótica pela Seleção da Argentina na Copa do Mundo de 2018. Em entrevista coletiva concedida na última quinta-feira (8), dois dias antes da abertura da 32ª rodada do Campeonato Francês (e do empate em 3 a 3 com o Montpellier), Jorge Sampaoli admitiu que alguns jogadores não estavam se adaptando ao seu estilo.

Sobre o nosso diagnóstico depois de um mês de trabalho, nós buscamos a carga de trabalho que atenda ao jogo que queremos criar, de acordo com o que a comissão técnica pretende, modificando hábitos anteriores. Essas mudanças profundas podem levar tempo. (…) Alguns jogadores conseguem se adaptar e outros não. Estou demandando do grupo somente o que tem a ver com o campo, o atleta“, afirmou Sampaoli.

É preciso deixar bem claro que a adaptação entre treinador e jogadores não se dá em apenas um mês e alguns dias. É preciso muito mais tempo para que todas as ideias e todas as potencialidades sejam trabalhadas nos treinamentos e nos jogos. Não é e nunca foi um processo simples. Não existe “receita de bolo” para o sucesso de uma equipe de futebol. Nunca existiu. Mas todos os grandes times e seleções da nossa história tinham um ponto em comum: entendimento mútuo. Se um jogador não compreende as ideias do seu técnico ou se este não tem paciência para passá-las da maneira mais clara para cada atleta, as coisas tendem a ficar bastante complicadas. É daí que nascem as atuações ruins, os problemas de relacionamento e vários outros pontos tratados com muito mais ênfase por boa parte da nossa imprensa esportiva do que a execução do jogo dentro das quatro linhas.

Tudo isso nos leva de volta a Juan Manuel Lillo. Você pode não conhecê-lo, mas certamente você conhece um dos seus pupilos: Pep Guardiola. Falamos sobre ele e as suas contribuições na criação do 4-2-3-1 e na formação do “jogo de posição” como conhecemos hoje. Juanma Lillo não conquistou grandes títulos na sua carreira, mas foi determinante para que Guardiola chegasse no patamar que ocupa atualmente. Em ótima entrevista ao The Blizzard (publicada no ano de 2013), o auxiliar técnico de Pep nos Citzens falou sobre a sua visão de que o futebol é tão coletivo que é simplesmente impossível jogá-lo ou analisá-lo sem entender o contexto. É a tal compreensão mútua que este colunista abordou e aborda aqui neste espaço.

Não é sobre futebol, é sobre pessoas. Nada pode ser descontextualizado. Como você vive, o que você é, a importância que você dá para os relacionamentos, suas interações, reações…tudo isso afeta como um time joga. (…) Nada pode ser descontextualizado. A sociedade te leva ao individualismo, mas o futebol é um esporte coletivo. É impossível jogá-lo sem tratá-lo com esse aspecto. (…) Nem sempre é possível prever o comportamento humano. Nós sabemos que Messi é perigoso se ele recebe a bola em certos espaços. Mas ele só recebe essa bola dentro de um contexto. Quem passa e quando passa a ele, se o último movimento dele foi de fora ou de dentro, qual o contexto emocional, como o oponente reage. O Jogo de Posição permite que você provoque certas situações dentro desse caos. Ele fortalece o relacionamento entre os jogadores e o time” – afirmou Juanma Lillo ao The Blizzard.

O nível de profundidade atingido por Juanma Lillo e também por Paco Seirulo (profissional que ajudou a consolidar e colocar no papel todos os estudos do “jogo de posição” nos anos 1990) são fundamentais para se compreender a complexidade que as relações interpessoais têm no futebol mundial. Por mais que todo processo de adaptação leve tempo para ser implementado, ele só dará certo se jogadores e comissão técnica se compreenderem e “assumirem a bronca” uns dos outros. Tudo passa, inclusive pelo processo de se reconhecer qual atleta está rendendo mais do que outro e passar isso ao grupo de maneira clara, objetiva e (principalmente) respeitosa. Nesse ponto, é difícil não lembrar da explosão de Fernando Diniz com Tchê Tchê no início da queda de rendimento do São Paulo no Brasileirão de 2020. Ou você acha mesmo que isso não interferiu em todo o entendimento e confiança entre elenco e técnico?

Futebol não é somente sobre táticas, estratégias, gols, vitórias e derrotas. É, essencialmente, sobre pessoas e suas relações umas com as outras dentro do clube, nos treinamentos ou no campo de jogo. É por isso que ele nos ensina tanto sobre a vida e sobre como ela funciona. Todos os laços de confiança que existem na sociedade uns com os outros são repetidos dentro do velho e rude esporte bretão. É sobre a vida! Pura e simples. Como você trata os companheiros de trabalho, como você lida com os problemas e como você convive com “presenças indesejáveis” no seu ambiente. Voltando a falar sobre Jorge Sampaoli, a impressão que fica é a de que o treinador argentino vem caindo num dos erros cometidos por Marcelo Bielsa (mentor de nove entre dez treinadores do primeiro escalão do futebol mundial) sobre a necessidade de uma certa flexibilidade na implementação dos seus conceitos numa equipe.

Se os jogadores não fossem humanos, eu não perderia nunca“, afirmou “El Loco” quando foi questionado pela imprensa sobre seu estilo de jogo.

Por mais que se conheça a fama de Jorge Sampaoli e a maneira como deixou cada clube/seleção após seu sucesso com a Universidad de Chile no início da década de 2010, é preciso levar em consideração que a sua caminhada no Olympique de Marselha apenas começou. E, fazendo o papel de “advogado do diabo”, todo processo de entendimento entre técnico e jogadores leva tempo para ser consolidado. Não é algo que vai acontecer da noite para o dia. O próprio Marcelo Bielsa precisou de quase dois anos para conquistar a Championship com o Leeds United (que faz campanha bem honesta na Premier League atualmente). O que precisa ficar claro é que o futebol como esporte, filosofia de vida e paixão está diretamente ligado às relações entre as pessoas que jogam e pensam essa que é uma das maiores invenções da Humanidade depois do sorvete de flocos, do pão de queijo e do doce de leite com coco.

A gestão de pessoas e as relações com cada um que compõe o ambiente do nosso velho e rude esporte bretão são fundamentais. Até mesmo Guardiola e outros mais badalados tiveram suas rusgas com este ou aquele jogador. Como dissemos, estamos lidando com gente como a gente. Jorge Sampaoli pode dar certo no Olympique de Marselha como também pode dar errado. Isso, meus amigos, só o tempo irá dizer. Mas sem entendimento mútuo, compreensão e respeito não se chega a lugar nenhum. Seja no futebol ou na vida.

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