Flamengo constrói vitória sobre o Fluminense com facilidade surpreendente e conquista o Cariocão 2021

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação dos times de Rogério Ceni e Roger Machado na decisão do Campeonato Estadual

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Alexandre Vidal / Flamengo

A partida deste sábado (22) esteve bem longe de ser uma daquelas finais emocionantes, repletas de lances de perigo, polêmicas e viradas históricas. Não é exagero afirmar que a vitória do Flamengo sobre o Fluminense foi construída com uma surpreendente facilidade no Maracanã. Não que os comandados de Rogério Ceni tenham feito a sua melhor exibição na temporada, mas justamente pela maneira como o time de Roger Machado se comportou durante toda a decisão do Campeonato Carioca. Bem diferente do jogo de ida, quando o Tricolor das Laranjeiras aproveitou a queda na concentração do escrete rubro-negro e teve possibilidades reais de ficar com a vantagem na finalíssima. O Flamengo (que não tem nada a ver com isso) cumpriu seu papel e, se não teve atuação brilhante, pelo menos mostrou um pouco mais de segurança do que nas partidas contra a LDU e o Unión La Calera pela Copa Libertadores da América.

A grande sacada de Rogério Ceni no jogo deste sábado (22) foi montar o Flamengo de modo a explorar o espaço às costas dos laterais do Fluminense. O treinador rubro-negro sabia bem que um dos pontos mais fortes do time de Roger Machado é a consistência da linha defensiva e que sua equipe precisaria aumentar o ritmo nas jogadas de ataque. Não foi por acaso que eu e você vimos Gabigol e Bruno Henrique acelerando pelos lados do campo e buscando justamente esse espaço entre zagueiros e laterais adversários para receber o passe em profundidade. Foi exatamente o que aconteceu. Vale lembrar que Everton Ribeiro venceu o duelo particular com Danilo Barcelos e abriu o corredor pela direita antes de acionar Gabigol no lance que originou a penalidade em cima de Arrascaeta. Em termos práticos, o 4-4-2/3-2-5 de Rogério Ceni levava ampla vantagem sobre o 4-2-3-1 estático e sem mobilidade de Roger Machado.

Flamengo vs Fluminense - Football tactics and formations

Bruno Henrique e Gabigol buscavam o espaço às costas de Calegari e Danilo Barcelos no 4-4-2/3-2-5 de Rogério Ceni. O Flamengo levou ampla vantagem tática e técnica sobre um Fluminense que quase não teve forças para reagir no primeiro tempo. Faltava mobilidade ao 4-2-3-1 de Roger Machado.

Também é preciso dizer que Filipe Luís e Diego Ribas faziam boa partida. O primeiro descomplicava a pressão exercida pelos ponteiros adversários (Kayky ou Luiz Henrique) e distribuía passes com a qualidade de um verdadeiro lateral-construtor. E o segundo aparecia por dentro para ajudar o camisa 16 na criação das jogadas e no desafogo na saída de bola. O segundo gol de Gabigol (e o segundo do Flamengo) nasceu justamente de bola trabalhada desde o campo de defesa. Do outro lado, o Fluminense tentava se organizar defensivamente diante de uma equipe muito mais intensa e organizada no meio-campo. O escrete comandado por Roger Machado até que ensaiou uma reação depois de diminuir com Fred cobrando penalidade sofrida por Caio Paulista. Mas não passou disso. Embora não tenha faltado disposição ao Tricolor das Laranjeiras, a impressão que ficou foi a de que o time pecou demais pela falta de ideias.

Os números do SofaScore (ver no tweet acima) comprovam a ampla superioridade do Flamengo durante os noventa e poucos minutos de partida. E se Roger Machado não fazia mais do mesmo nas mexidas na equipe do Fluminense, Rogério Ceni acertava em cheio ao povoar o meio-campo com as entradas de Vitinho, Pedro e João Gomes nos lugares de Arrascaeta, Gabigol e Gerson. Mesmo com as críticas deste que escreve no Twitter. Agora armado no 4-3-3, o escrete rubro-negro aproveitou o 4-2-4 tresloucado do Fluminense para trabalhar a bola e construir o terceiro gol a partir de jogada iniciada pelos jogadores que entraram em campo no segundo tempo. Difícil não notar como Vitinho e Pedro se entendem bem no terço final e como João Gomes joga com personalidade no meio-campo. Do outro lado, o Tricolor das Laranjeiras estava entregue à própria falta de criatividade e só ameaçava nas bolas levantadas para a área de Gabriel Batista.

Fluminense vs Flamengo - Football tactics and formations

Rogério Ceni modificou peças e viu seus reservas construírem a jogada do terceiro gol (marcado por João Gomes) aproveitando os espaços generosos que o Fluminense deixou no seu campo. A estratégia de Roger Machado não funcionou e o time acabou sucumbindo diante de um adversário mais forte.

É bem verdade que o Fluminense saiu de campo reclamando da arbitragem de Bruno Arleu de Araújo. Mas deve reclamar mesmo da maneira como o time vem se comportando nos últimos jogos. As derrotas para o Junior Barranquilla e a deste sábado (22) para o Flamengo mostram que Roger Machado anda previsível demais na elaboração da estratégia inicial e nas mudanças durante o jogo. É sempre aquele 4-2-3-1 mais estático e sem mobilidade que depende demais da velocidade do jovem Kayky para abrir espaços na última linha. Quando está bem marcado, a equipe tricolor não se acha em campo. A sensação é a de que Roger Machado vem encontrando dificuldades muito grandes para encontrar a sacada certa para mudar o panorama de uma partida com uma substituição ou com uma alteração na formação tática da equipe. Há momentos em que a situação dentro de campo pede mudanças drásticas em todos os setores, no ritmo e por aí vai.´

O que é certo nessa história toda é que o Flamengo conquistou seu Campeonato Carioca de número 37 e que Rogério Ceni (para desgosto de alguns) vem se consolidando no comando do escrete rubro-negro. Há como se contestar vários pontos do seu trabalho à frente da equipe, mas ninguém pode afirmar que ele não é corajoso e não tem confiança nas suas convicções. O título estadual serve para dar mais tranquilidade ao treinador que vem sofrendo com uma perseguição desproporcional à qualidade do que vem entregando nos últimos meses. O posicionamento defensivo ainda é um problema crônico e a demora nas substituições pode causar sérios problemas em partidas com maior nível de exigência. Mesmo assim, a conquista do Brasileirão, da Supercopa do Brasil e do Campeonato Carioca tem sim o dedo de Rogério Ceni. Por mais que as críticas sejam merecidas em determinados momentos, é preciso ser justo nas análises.

A facilidade com a qual o Flamengo construiu o resultado sobre o Fluminense neste sábado (22) diz muito sobre o momento das duas equipes na temporada. Enquanto o rubro-negro da Gávea segue como uma equipe muito difícil de ser batida, o Tricolor das Laranjeiras precisa reencontrar o rumo na temporada. Ainda mais quando o time de Roger Machado vai encarar o River Plate de Enzo Pérez na próxima terça-feira (25). Aquele mesmo de Enzo Pérez. O goleiro que, segundo Marcos Felipe, não fez nada de extraordinário contra o Santa Fe…

CONFIRA OUTRAS ANÁLISES DA COLUNA PAPO TÁTICO:

Chances perdidas, aplicação tática e muita emoção: as facetas do empate entre Grêmio e Flamengo

Entre a renovação e a experiência, Pia Sundhage escolheu o caminho do improviso e da dúvida; entenda

SIGA LUIZ FERREIRA NO TWITTER