Chances perdidas, aplicação tática e muita emoção: as facetas do empate entre Grêmio e Flamengo

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação das equipes comandadas por Celso Silva e Patrícia Gusmão

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Jéssica Maldonado / Grêmio FBPA

O empate entre Grêmio e Flamengo, em jogo válido pela nona rodada do Brasileirão Feminino Série A1, pode ser analisado de várias maneiras. Há como falar da estratégia inicial das comandadas de Celso Silva, organizadas num 4-1-4-1/4-3-3 de muita velocidade nas transições e com marcação em bloco médio. Há como abordar o crescimento de produção da equipe de Patrícia Gusmão no segundo tempo (principalmente depois das entradas de Gabizinha e Patrícia Maldaner nos lugares de Andréia Rosa e Maglia). E também há como se mencionar a persistência das Gurias Gremistas na busca pelo gol de empate e a grande atuação da goleira Kaká (a melhor em campo na opinião deste que escreve) pelo lado das Meninas da Gávea. Seja como for, o empate em 1 a 1 no CT Hélio Dourado apresentou as mais diversas facetas de duas equipes que ainda buscam manter um mínimo de regularidade na competição mais importante do futebol feminino brasileiro.

Quem pensava que o Flamengo fosse adotar uma postura mais pragmática e conservadora jogando fora de seus domínios, viu uma equipe bem organizada no seu campo e que colocava muita intensidade nas transições com Flávia, Rafa Barros, Ana Clara e Jayanne se movimentando nas entrelinhas. O 4-1-4-1/4-3-3 de Celso Silva fechava espaços e compactava as linhas do escrete rubro-negro e ainda potencializava o talento das jogadoras escolhidas pelo treinador. Mesmo com sérios problemas no lado esquerdo da defesa (onde Ana Portugal e Dedê sofriam para conter os avanços constantes de Isa e Jane Tavares naquele setor), o Flamengo manteve a postura mais ofensiva, congestionou o meio-campo com cinco jogadoras e abriu o placar aos 28 minutos do primeiro tempo. Flávia recebeu de Ana Clara na entrada da área, ajeitou o corpo e chutou no travessão. A bola bateu nas costas da goleira Raíssa e morreu no fundo do gol.

Celso Silva apostou num 4-1-4-1/4-3-3 para fechar as saídas do Grêmio e ganhar profundidade e amplitude com as descidas de Rafa Barros, Flávia e Jayanne no ataque. O Flamengo congestionou o meio-campo e fez um bom primeiro tempo apesar das falhas defensivas. Foto: Reprodução / YouTube / Desimpedidos

Só que o gol fez com que o Grêmio finalmente acordasse para a vida. Tanto que a equipe de Patrícia Gusmão empilhou pelo menos três chances claríssimas logo depois do Flamengo abrir o placar no CT Hélio Dourado. Jane Tavares, Pri Back e Rafa Levis pararam nas defesas de cinema da goleira Kaká, o grande nome das Meninas da Gávea na partida deste sábado (22). O intervalo serviu para que as Gurias Gremistas voltassem mais arrumadas e com uma postura muito mais ofensiva. Saiu o 4-2-3-1 e entrou o mesmo 4-1-4-1/4-3-3 utilizado pelo time de Celso Silva. Com as entradas de Gabizinha e Patrícia Maldaner nos lugares de Andréia Rosa e Maglia, o Grêmio igualou as ações no meio-campo e passou a ter mais a posse da bola. E o trabalho feito pelas laterais Isa e Gisseli nesse início de segundo tempo precisa ser destacado. Ambas foram jogar mais por dentro para ajudar na saída de bola das Gurias Gremistas.

As entradas de Gabizinha e Patrícia Maldaner nos lugares de Andréia Rosa e Maglia deixaram o Grêmio mais ofensivo e com mais gente no meio-campo. O Flamengo foi sendo empurrado para trás e sofreu com a movimentação das Gurias Gremistas na frente da área de Kaká. Foto: Reprodução / YouTube / Desimpedidos

Celso Silva, por sua vez, percebeu que o Grêmio subiu de produção e tratou de reforçar o meio-campo rubro-negro com as entradas de Carlinha, Bruna Rosa e Samhia, mas o Flamengo não conseguiu recuperar a consistência do primeiro tempo. Do lado das Gurias Gremistas, a técnica Patrícia Gusmão apostou nas entradas de Nathane, Mariza e Kaíssa, acabou com a sobra na defesa adversária (que passou os últimos minutos da partida se defendendo numa linha de cinco na frente da área da goleira Kaká). Sem saída para o ataque, o Flamengo não fez nada além de se plantar na defesa e esperar o apito final. Acabou que o ímpeto ofensivo e a persistência da equipe de Patrícia Gusmão foram premiadas com o gol de Maiara (em penalidade bem assinalada pela arbitragem) aos 50 minutos do segundo tempo. Resultado justo para um jogo emocionante e cheio de alternativas no CT Hélio Dourado. Mas que não deixou ninguém satisfeito.

Patrícia Gusmão foi para o tudo ou nada com as entradas de Nathane, Mariza e Kaíssa no final da partida. O Flamengo, que já não tinha saída para o ataque, se limitou a se defender na frente da sua área e a esperar o apito final que só veio depois do gol de empate. Foto: Reprodução / YouTube / Desimpedidos

A impressão que ficou da partida no CT Hélio Dourado foi a de que Flamengo e Grêmio podem chegar mais longe no Brasileirão Feminino, mas parecem hesitar nos momentos decisivos. Enquanto as Gurias Gremistas se lançavam ao ataque, as Meninas da Gávea tiveram ótimas chances em contra-ataques puxados por Rafa Barros, Flávia e Jayanne, mas pecaram nas conclusões a gol. Assim como todo o sistema ofensivo do Tricolor Gaúcho se apequenou diante da ótima goleira Kaká em vários momentos. Não que falte qualidade. Muito pelo contrário. Mas ficou claro que as equipes de Celso Silva e Patrícia Gusmão ainda sofrem demais nas tomadas de decisão, nas conclusões a gol e no último passe. Falta calma e frieza para definir os lances da melhor maneira e conquistar as vitórias que os dois times tanto precisam nesse Brasileirão Feminino. Ainda mais numa competição tão equilibrada e nivelada pelo alto nível técnico e tático.

O Grêmio segue na sexta posição (com 14 pontos), mas já começa a ver seus adversários mais próximos na briga por uma vaga na próxima fase. Já o Flamengo perde a chance de entrar no G8 com o empate no CT Hélio Dourado. Pelo menos até a realização dos jogos de domingo (23). O décimo lugar na tabela do Brasileirão Feminino (com 11 pontos em nove rodadas) deixa o time de Celso Silva longe dos seus objetivos e com grande necessidade de melhora no desempenho nos próximos dias.

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