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Toque de bola, organização e tom conciliador: o que esperar do retorno de Carlo Ancelotti ao Real Madrid

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa o contexto que envolve o retorno do treinador italiano à capital espanhola

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Real Madrid CF

É praticamente impossível não ligar o retorno do vitorioso Carlo Ancelotti ao Real Madrid como uma clara tentativa por parte de Florentino Pérez de recuperar o prestígio perdido nas últimas temporadas. Até porque a imagem da conquista da Liga dos Campeões da UEFA de 2013/14 (conhecida como “La Decima”) em cima do Atlético de Madrid ainda está bem viva na memória do torcedor merengue. A imprensa espanhola, por sua vez, trata o retorno do italiano de 61 anos de maneiras distintas. Há quem fale na pressão por títulos, na necessidade de se apaziguar os ânimos de um elenco que não encaixou com Zinedine Zidane e até mesmo em “revolução”. Seja como for, Carlo Ancelotti tem uma missão bem clara nessa sua volta ao Real Madrid. Recuperar a confiança e potencializar os talentos de um elenco que, mesmo com todos os problemas extracampo, poderia ter chegado muito mais longe na temporada passada.

Impossível dissociar a imagem de Carlo Ancelotti do histórico Milan de Arrigo Sachi. E é mais do que natural que o treinador italiano tenha levado consigo vários dos conceitos da equipe que encantou o mundo no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 com suas linhas compactadas, velocidade nas transições, bom toque de bola preciso e muita organização em campo. E tem sido assim em todos os clubes por onde passou ao longo de mais de vinte anos de carreira. E isso sem falar nas inovações e adaptações que fez em várias equipes para adaptar as características dos jogadores que treinou. Foi assim no Milan campeão da Champions League em 2002/03 (quando adaptou Pirlo como “regista” num 4-3-1-2) e 2007/08 (temporada em que popularizou o 4-3-2-1 que ficaria conhecido como “Árvore de Natal”). Mas um dos seus pontos altos foi mesmo o Real Madrid e o título europeu em 2013/14.

Carlo Ancelotti assumiu o clube espanhol (substituindo José Mourinho) em 2013 e se deparou com a necessidade de se transformar aquele elenco milionário numa equipe coesa e organizada. A solução foi apostar na simplicidade. O italiano adotou um 4-3-3 que se transformava num 4-4-2 com o recuo do galês Gareth Bale para junto de Khedira, Modric e Di María. Tudo para deixar Benzema um pouco mais recuado e Cristiano Ronaldo mais solto com espaço para fazer as suas famosas arrancadas. A decisão da Liga dos Campeões de 2013/14 ainda é lembrada como uma das partidas mais emocionantes da história da competição e contou com o “dedo” e a coragem de Carlo Ancelotti ao sacar Khedira e Fábio Coentrão para as entradas de Isco e Marcelo para empurrar o Atlético de Madrid para seu campo. O gol de Sergio Ramos aos 48 do segundo tempo foi consequência de todo esse volume de jogo.

Gareth Bale recuava pela direita para fechar o meio-campo no 4-3-3/4-4-2 de Carlo Ancelotti no Real Madrid campeão europeu de 2013/14. Di María fechava o lado esquerdo e Cristiano Ronaldo tinha espaço para atacar sem obrigações defensivas. Foto: Reprodução / YouTube / TNT Sports Brasil

Pelo Real Madrid, Carlo Ancelotti venceria ainda a Copa do Rei, a Supercopa da UEFA e o Mundial de Clubes da FIFA em 2014 antes de acertar com o Bayern de Munique onde teve problemas de relacionamento e acabou “perdendo o vestiário” no melhor jargão do futebol. Esse fato vai de encontro ao que vem sendo veiculado pela mesma imprensa espanhola que afirma que a diretoria merengue quer aproveitar o “tom conciliador” de Ancelotti para acalmar os ânimos do elenco. Também não fez um bom trabalho no Napoli, clube onde repaginou o “gioco all’italiana” ao posicionar Maksimovic como falso lateral e dar mais liberdade a Hamsik no meio-campo para criar as jogadas de ataque e fazer a bola chegar em Insigne. Apesar das inovações e das boas atuações, o escrete napolitano não conseguiu ir longe nas principais competições que disputava. Após ser demitido, assinou com o Everton da Inglaterra.

No comando dos Toffes, Carlo Ancelotti encontrou mais tranquilidade para implementar seus conceitos sem tanta pressão por resultados. O gênio inventivo e inovador também marcou presença no comando de um elenco com ótimos nomes como brasileiro Richarlison, o colombiano James Rodríguez, o islandês Sigurdsson e os ingleses Pickford, Delph e o goleador Calvert-Lewin. O treinador italiano utilizou várias formações ao longo dos meses em que esteve no comando do Everton. Sempre apostou no volume de jogo e em posturas mais ofensivas, mas não se fez de rogado quando enfrentou equipes mais fortes. Na vitória por 2 a 0 sobre o Liverpool em pleno Anfield Road, Carlo Ancelotti apostou num 5-3-2 organizado e que fechava os espaços de circulação de Mané, Salah e Firmino dentro na frente da área e ainda ganhou muita força e velocidade nos contra-ataques com Richarlison, o grande nome do clássico da terra dos Beatles.

Carlo Ancelotti montou o Everton num 5-3-2 na vitória sobre o Liverpool no mês de fevereiro pela Premier League. James Rodríguez organizava o jogo e Richarlison (fora da imagem) atacava o espaço às costas da linha defensiva dos Reds. Foto: Reprodução / YouTube / Everton Football Club

Se o trabalho à frente do Everton nos apresentou um Carlo Ancelotti antenado com o que acontece no mundo do velho e rude esporte bretão, este que escreve ainda tem dúvidas sobre quais seriam as principais razões do seu retorno ao Real Madrid. É possível pensar no mesmo 4-3-3/4-4-2 com Asensio ou Lucas Vázquez voltando pela direita com Vinícius Júnior próximo de Benzema e o trio formado por Casemiro, Modric e Kroos dando o suporte no meio-campo. E ainda há nomes como o excelente Valverde, os brasileiros Éder Militão e Rodrygo, o sempre voluntarioso Nacho Fernández e a força física de Mendy pela lateral-esquerda. Ainda existe a possibilidade de se aproveitar Marcelo no meio-campo ou ainda repatriar este ou aquele “medalhão” para movimentar o mercado do futebol. Nunca se sabe qual será a próxima surpresa de Florentino Pérez nesse início de temporada num Real Madrid sedento por títulos.

Seja como for, a tendência é que a volta de Carlo Ancelotti provoque efeitos positivos num elenco que perdeu a sua identidade e sofre com a queda física e técnica de de nomes importantíssimos no tricampeonato seguido da Liga dos Campeões com Zinedine Zidane de 2016 a 2018. É possível que o treinador italiano tenha que aproveitar os mais jovens e abrir mão de alguns atletas mais experientes num trabalho a médio prazo. Por outro lado, a sensação de que o retorno do italiano de 61 anos ao escrete merengue tem uma certa aura de nostalgia ainda é bem forte. Ainda mais quando a imprensa fala em “tom conciliador” e se esquece dos recentes problemas de relacionamento de Ancelotti no Bayern de Munique e de seus trabalhos abaixo da média. A boa campanha do Everton na Premier League é um alento, mas a pressão nos Toffes é infinitamente menor do que no Real Madrid.

Só o tempo irá dizer se Carlo Ancelotti vai dar certo nesse seu retorno à capital espanhola. Há a necessidade de treinador e elenco se adaptarem e para que os conceitos táticos sejam implementados e executados da melhor maneira. A convivência com nomes mais experientes do elenco do Real Madrid ajuda bastante nesse processo ainda que não seja o suficiente para se cravar a certeza do sucesso. Ancelotti vai precisar de toda a sua sabedoria para conter a pressão e conseguir os resultados desejados por todos no clube.

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