Flamengo sente o choque de filosofias de jogo em vitória suada sobre o Defensa y Justicia; confira a análise

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como Renato Gaúcho montou a equipe rubro-negra para a partida desta quarta-feira (14)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Alexandre Vidal / Flamengo

Toda mudança de treinador marca o início de um novo processo de entendimento e adaptação entre este profissional e os jogadores de uma determinada equipe. É assim no Brasil e em qualquer outro lugar no mundo. E com o Flamengo não foi diferente. A vitória por 1 a 0 em cima do bem organizado time do Defensa y Justicia foi importante para dar moral e confiança a Renato Gaúcho em seu início de trabalho no escrete rubro-negro. Ainda mais quando sua estreia acontece logo num jogo eliminatório de Libertadores e disputado na casa do adversário. Por outro lado, a atuação de Gabigol, Everton Ribeiro, Arrascaeta e companhia escancarou esse choque de filosofias de jogo e as dificuldades do Flamengo em conter o ímpeto ofensivo do seu adversário. Na prática, o torcedor viu uma equipe muito diferente daquela dos tempos de Jorge Jesus, Domènec Torrent ou Rogério Ceni.

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É muito difícil dizer qual foi o real tamanho desse choque de ideias tomando apenas a partida desta quarta-feira (14) como base. É preciso entender que quase não houve tempo para Renato Gaúcho implementar todo seu estilo e sua filosofia de jogo. O que é certo, no entanto, é que o Flamengo (armado no 4-2-3-1 preferido de seu treinador) sofreu muito além da conta. Primeiro pelas dificuldades na saída de bola contra um Defensa y Justicia que se defendia muito bem e adiantava as linhas do 3-4-2-1 de Sebastián Beccacece para o campo ofensivo. E depois pela postura pragmática e mais defensiva. O único gol da partida (marcado por Michael) saiu numa das únicas vezes em que o Flamengo tentou se aventurar no campo adversário, mas ainda sem aquela fluidez que eu e você nos acostumamos a ver nos últimos dois anos. Fora isso, a equipe mostrava uma certa desorganização na hora de atacar.

Renato Gaúcho apostou no seu 4-2-3-1 costumeiro com Michael e Everton Ribeiro bem abertos e Arrascaeta por dentro. Na prática, o Flamengo mostrou muita desorganização na hora de atacar e sofreu com a boa marcação do Defensa y Justicia. Faltava consistência. Foto: Reprodução / YouTube / Conmebol Libertadores

Nem é preciso dizer (de novo) que a falta de tempo para treinamentos e adaptação entre Renato Gaúcho e jogadores é um fator que limitava as ações do treinador. Repetimos: são novas ideias e novos conceitos. Totalmente diferentes dos trabalhados pelos seus antecessores no comando da equipe rubro-negra. Mas a maneira como o Flamengo se organizou em campo contra o Defensa y Justicia mostrava de maneira muito clara que algumas escolhas foram feitas. A começar pela marcação individual nas bolas aéreas, praticamente um dos “pilares” da filosofia de jogo de Renato Gaúcho. Além disso, o seu 4-2-3-1 tirou Filipe Luís da construção das jogadas e deixou Everton Ribeiro e Arrascaeta encaixotados na marcação adversária. Nesse ponto, era visível a falta de um plano claro para recuperar a bola e “jogar pra frente” como Renato Gaúcho falou na sua entrevista de apresentação.

Na prática, o veloz Michael era a única válvula de escape de um Flamengo que abriu mão da posse da bola e que encontrava muitas dificuldades para fazer a bola chegar no ataque. Muito por conta das enormes crateras que existiam entre a defesa, o meio-campo e o ataque. Além disso, as perseguições individuais (um dos pilares da filosofia de jogo de Renato Gaúcho) mais desorganizavam do que fortaleciam o sistema defensivo do escrete rubro-negro. Diego Alves (que esteve muito mal na saída de bola e cometeu erros bobos nesse quesito) fez pelo menos três grandes defesas no segundo tempo e garantiu a vitória de uma equipe que não mostrou a mesma fluidez e consistência de outros tempos nem tão longínquos assim. Não foram poucas as vezes que as duas linhas com quatro jogadores à frente da área abriu buracos entre os jogadores e permitiu que o Defensa y Justicia finalizasse a gol.

As perseguições individuais características do trabalho de Renato Gaúcho foram facilmente percebidas na partida contra o Defensa y Justicia. O Flamengo sofreu com a velocidade do seu adversário e com a falta de um plano de jogo mais claro do seu treinador. Foto: Reprodução / YouTube / Conmebol Libertadores

Este que escreve entende muito bem o fato de que Renato teve apenas dois treinamentos entre sua apresentação e a partida desta quarta-feira (14) e que as coisas foram resolvidas muito mais na base do papo do que na prancheta. Mesmo assim, a atuação do Flamengo no Estádio Norberto “Tito” Tomaghello nos mostrou que a filosofia de jogo adotada para a equipe será muito diferente daquilo tudo que vimos com Jorge Jesus, Dome e Ceni. Prova disso são os números finais da partida. De acordo com o SofaScore, o Fla terminou o jogo com 44% de posse de bola e apenas cinco finalizações (contra dezessete do Defensa y Justicia de Sebastián Beccacece). Na prática, foi uma equipe que preferiu adotar uma postura mais pragmática e burocrática contra um adversário mais organizado e mais consistente. Acabou que o Flamengo teve apenas raros lampejos de um futebol minimamente razoável na Argentina.

A vitória (suada e sofrida) desta quarta-feira (14) não permite que se diga até que ponto Renato Gaúcho influenciou na atuação da sua equipe. Mas foi suficiente para mostrar que a adaptação dos jogadores do Flamengo às ideias do seu treinador vai precisar de tempo e paciência de ambas as partes. De positivo, a vitória fora de casa (é óbvio), as defesas de Diego Alves e a afirmação de Michael numa formação que melhor adapta as suas características. Mas ainda é pouco. Muito pouco. Ainda mais com tantos talentos à disposição.

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