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Nem mesmo a goleada sobre os Emirados Árabes Unidos consegue mascarar a irregularidade da Seleção Olímpica

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação da equipe comandada por André Jardine no último teste antes dos Jogos de Tóquio

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Quem acompanha a coluna há algum tempo sabe que este que escreve defende a tese de que alguns detalhes do jogo dizem muito mais sobre esta ou aquela equipe do que o resultado final de alguma partida. A vitória da Seleção Olímpica sobre os Emirados Árabes Unidos nesta quinta-feira (15), em Novi Sad (na Sérvia), é um bom exemplo disso. Quem viu somente o placar final (5 a 2 a favor do escrete de André Jardine) pode pensar que o Brasil não teve muitos problemas para vencer a aplicada equipe comandada pelo espanhol Denis Silva. No entanto, apesar dos ótimos nomes à disposição, o time ainda sofre demais com oscilações de desempenho e falta de concentração dentro de uma mesma partida. Por mais que a partida passe a impressão de que a Seleção Olímpica está pronta para os Jogos de Tóquio, ficou claro que a equipe ainda precisa de ajustes. Pelo menos para este que escreve.

André Jardine apostou no mesmo 4-3-3/3-2-5 que eu e você vimos nas últimas partidas da equipe sub-23. Ainda que reforçada pelo veterano Daniel Alves (que se revezou entre a lateral-direita e o meio-campo com Gabriel Menino) e o goleiro Santos, o time começou a partida pressionando a saída de bola dos Emirados Árabes e tentando ocupar o campo de ataque. Ainda que Antony e Guilherme Arana dessem bastante amplitude às jogadas de ataque e Claudinho se mostrasse bastante presente na criação, faltava um pouco de profundidade e (principalmente) capricho e refinamento nas finalizações a gol. Vale lembrar que a opção de André Jardine por Paulinho e Antony (pontas que jogavam com os “pés invertidos” pelos lados do campo) acabou embolando demais o jogo por dentro. Como consequência, Matheus Cunha demorou para se livrar da marcação adversária e aparecer como opção de passe na frente.

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Embora chegasse com muita gente no ataque, a Seleção Olímpica pecava pela falta de capricho no último passe e (principalmente) nas conclusões a gol. Antony e Paulinho embolavam o jogo pelo meio e não conseguiam acionar Matheus Cunha no comando de ataque. Foto: Reprodução / TV Globo

Por mais que a Seleção Olímpica mostrasse muito mais qualidade técnica, coletiva e individual do que os Emirados Árabes Unidos, a equipe oscilava demais e errava lances bobos em determinados momentos da partida desta quinta-feira (15). Difícil não lembrar da atuação contra Cabo Verde, onde o escrete de André Jardine cometeu os mesmos erros e apresentou os mesmos problemas. Se falta calma na hora de definir as jogadas, também falta concentração na hora de marcar. Os dois gols sofridos no amistoso em Novi Sad nasceram de lances em que a última linha não conseguiu fechar os espaços e permitiu a infiltração dos atacantes adversários. Principalmente entre os zagueiros Diego Carlos (autor do gol de empate da Seleção Olímpica) e Nino (que abriu o placar jogando contra o patrimônio). Fora isso, os demais jogadores não bloquearam seus setores e sobrecarregaram a defesa.

Marwan Alwatani recebe a bola na intermediária sem marcação e tem tempo para ajeitar o corpo e fazer o lançamento para Abdalla Alnaqbi no lance do segundo gol dos Emirados Árabes Unidos. A Seleção Olímpica concedeu espaços demais no meio-campo e não fechou as suas linhas. Foto: Reprodução / TV Globo

A Seleção Olímpica começou a melhorar seu desempenho a partir do momento em que André Jardine mandou Gabriel Martinelli, Reinier e Matheus Henrique para o jogo. Com o jovem atacante do Arsenal dando profundidade pelo lado direito e deixando Antony jogando mais por dentro, o jogo brasileiro passou a ter mais fluidez e mais contundência. Não foi por acaso que o Brasil conseguiu a virada em poucos minutos sempre com o quinteto ofensivo empurrando a frágil defesa dos Emirados Árabes para trás e acionando Matheus Cunha mais vezes no terço final. Nesse ponto, a dinâmica colocada por Reinier na movimentação entre as linhas foi fundamental para desafogar um pouco a Seleção Olímpica e fazer com que o jogo coletivo da equipe de André Jardine deslanchasse de vez. Fora isso, Matheus Henrique mostrava mais objetividade do que Bruno Guimarães no meio-campo do escrete canarinho.

Com Gabriel Martinelli, Matheus Henrique e Reinier em campo, a Seleção Olímpica ganhou mais profundidade e mais fluidez nas trocas de passe. O jogo coletivo tão pedido por André Jardine apareceu e a equipe brasileira conseguiu virar o jogo com facilidade. Foto: Reprodução / TV Globo

Este que escreve entende muito bem que todo o contexto do jogo desta quinta-feira (15) é muito diferente daquele que a Seleção Olímpica irá encontrar em Tóquio. Ainda mais quando sabe que irá enfrentar adversários muito mais fortes do que a não mais do que esforçada equipe dos Emirados Árabes Unidos. E é exatamente por isso que a atuação da equipe comandada por André Jardine preocupa para o início dos Jogos Olímpicos. A equipe brasileira tem sim muitas qualidade, mas ainda apresenta muitas oscilações dentro de uma mesma partida. A postura ofensiva de ocupação dos espaços e de jogo posicional acaba esbarrando na falta de mobilidade e na falta de capricho e acabamento nas jogadas. Ao mesmo tempo, a recomposição defensiva ainda apresenta problemas. E a escolha por Diego Carlos e Nino (zagueiros mais altos e mais lentos) aumenta o risco assumido pela marcação mais alta da Seleção Olímpica.

Por mais que os problemas ainda persistam, é plenamente possível ver o Brasil como uma das equipes favoritas à medalha de ouro em Tóquio. Vale lembrar que Richarlison, Douglas Luiz e Malcom ainda vão se juntar ao grupo e devem deixar a Seleção Olímpica ainda mais forte. Por outro lado, essas oscilações e quedas na concentração podem ser adversários mais fortes do que as seleções que o Brasil vai encarar daqui a alguns dias. Há margem para melhora do desempenho. Principalmente na parte mental.

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