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Seleção Feminina ganha consistência e surpreende positivamente com grande atuação de novatas e novo posicionamento de Marta

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Pia Sundhage na goleada sobre a Argentina nesta segunda-feira (20), em João Pessoa

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Este que escreve precisa confessar que não esperava um grande desempenho da Seleção Feminina no segundo amistoso contra a Argentina. Isso porque a escalação divulgada por Pia Sundhage indicava que a equipe brasileira jogaria com uma “lateral-zagueira” pela direita, Duda atuando na proteção da zaga e Marta mais à frente brigando contra as zagueiras portenhas. Essa sensação ruim, no entanto, deu lugar a um pequeno fio de esperança depois das grandes atuações de nomes como Nycole (outra novidade na escalação), Yasmim, Antônia e Angelina. Difícil não ver que a nova geração que surge tem tudo para nos dar grandes alegrias. Além disso, o posicionamento de Marta dentro de campo deu muito mais mobilidade e qualidade ao escrete canarinho diante de um adversário frágil e até certo ponto ingênuo nas tomadas de decisão. Ao invés de uma “segunda atacante” jogando de costas para a zaga, uma jogadora com liberdade total de movimentação e grande visão de jogo.

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Talvez este colunista tenha cometido um dos erros mais comuns nas análises dos jogos de futebol: não esperar a bola rolar e ver o que acontece dentro de campo. E o jogo nos mostrou uma Seleção Feminina muito mais inteira jogando num 4-2-3-1 com Nycole dando aulas de como se atua como referência móvel na frente, Kerolin e Debinha pelos lados e Marta um pouco mais por dentro. Com a posse da bola, a nossa Rainha recuava e arrastava a defesa da Argentina com ela para que o trio ofensivo pudesse atacar os espaços abertos pela movimentação da camisa 10 na intermediária e entre as linhas do 4-1-4-1 do time de Germán Portanova. O Brasil ganhava volume ofensivo com uma alteração simples na sua formação e mais equilíbrio entre os setores, já que, ao contrário de todas as outras zagueiras testadas na lateral, Antônia não deixou de aparecer no ataque e foi boa opção pelo lado direito, se alinhando com Duda, Angelina (mais uma grande atuação no meio-campo) e Tamires logo atrás de Marta.

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Marta recua e ocupa o espaço entre as linhas da Argentina e permite que Kerolin, Debinha e Nycole ataquem o espaço aberto pela movimentação da camisa 10. Mais atrás, Antônia se somava a Duda, Angelina e Tamires sempre que a Seleção Feminina tinha a posse da bola. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Se Antônia fazia muito bem a sua função de “lateral-zagueira” pela direita, a atuação de Nycole no comando de ataque também merece destaque e aplausos. Se Marta teve condições de jogar mais próxima do gol sem trombar com as zagueiras, muito se deve ao trabalho realizado pela camisa 16. Sempre que a Seleção Feminina tinha a posse da bola, ela se posicionava como referência móvel e servia suas companheiras de equipe com bons passes em profundidade. Além, é claro, de arrastar e prender as defensoras portenhas para que Kerolin, Marta e Debinha pudessem atacar o espaço. Mas o “pulo da gata” estava nos momentos em que a equipe de Pia Sundhage não tinha a bola. Nycole se posicionava por dentro da linha de três meias no 4-2-3-1 da treinadora sueca e liberava Marta de obrigações defensivas. Muita atenção na saída de bola e quarteto ofensivo ligado em cada bola que passava por perto de qualquer uma delas. Não foi por acaso que a Argentina encontrou tantas dificuldades.

Nycole se posiciona mais atrás e libera Marta das obrigações defensivas no 4-2-3-1 utilizado por Pia Sundhage na goleada sobre a Argentina. A Seleção Feminina ganhou volume de jogo, consistência na pressão na saída de bola adversária e fechava bem as linhas de passe. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Com a vantagem de dois a zero no placar (após o gol de Keroline e a obra-prima em formato de cobrança de falta realizada por Marta), Pia Sundhage promoveu as entradas de Yasmim, Lauren e Ludmila após o intervalo. O 4-2-3-1 do primeiro tempo foi mantido. Mas é preciso dizer que a Seleção Feminina ganhou muito mais contundência com a entrada da lateral do Corinthians na partida. Não somente pelo senso de posicionamento e controle de espaço da camisa 5, mas pela facilidade nos cruzamentos em velocidade e por manter um nível alto de desempenho tanto na defesa como no ataque. Yasmim precisou de apenas de seis minutos em campo para fazer a assistência para Debinha fazer o terceiro gol brasileiro e ainda balançar as redes após belo passe de Marta. Notem bem que a Seleção Feminina manteve o padrão de jogo dos primeiros 45 minutos, com Marta recuando e o trio ofensivo abrindo espaços. Só que a camisa 5 deu muito mais profundidade e amplitude ao escrete canarinho.

Marta atraiu a defesa, Ludmila e Nycole puxaram a marcação, Debinha abriu o corredor pela esquerda e Yasmim atacou o espaço no lance do quarto gol da Seleção Feminina. A lateral-esquerda do Corinthians deu muito mais consistência ao jogo brasileiro no segundo tempo. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

O único ponto negativo (se é que podemos chamar assim) foi a falha de Lauren no lance do gol de Larroquette. Faltou atenção e concentração no passe na frente da área. Assim como também faltou velocidade a Lelê no abafa em cima da atacante argentina. Seja como for, o momento de errar, ajustar e corrigir problemas é justamente em amistosos como esse, onde a pressão não é tão grande como numa reta final de preparação para uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada. Além de Lauren, nomes como Katrine, Thaís, Ary Borges, Geyse, Daiane, Bruninha e Vic Albuquerque têm muito a somar nesse início de ciclo. Fora as jogadoras que não foram convocadas para essa Data FIFA. E Pia Sundhage acertou na escolha da formação e das jogadoras que inciaram a partida contra a Argentina. Principalmente no posicionamento de Marta. A camisa 10 atuou na faixa do campo onde ainda pode fazer a diferença. Mas isso só foi possível graças ao trabalho coeltivo feito toda a Seleção Feminina na partida.

Mas também precisamos ser pragmáticos. Diante de tudo o que nos foi mostrado nesses dois amistosos, nomes como Antônia (impecável como “lateral-zagueira”), Angelina (uma gigante que apareceu em todos os espaços), Nycole (atacante de raro talento e que potencializou o ataque brasileiro) e Yasmim (lateral que tem a velocidade de um atacante e o senso de posicionamento de uma zagueira) saíram bastante fortalecidas. Essas quatro merecem mais chances de vestir a camisa da Seleção Feminina e de serem testadas contra adversários mais fortes do que a Argentina de Germán Portanova. Ao mesmo tempo, foi bom ver Pia Sundhage abandonando (ainda que temporariamente) aquele seu 4-4-2/4-2-4 e apostando numa formação diferente, numa maneira de jogar que potencialize o talento das suas jogadoras. Principalmente de Marta, nome que ainda impõe muito respeito em todos e que pode ser muito útil se for escalada na faixa do campo onde rende mais. O jogo desta segunda-feira (20) indicou um caminho interessante.

Este colunista iniciou essa humilde análise confessando o erro básico de não esperar a bola rolar nessa segunda-feira (20). A “corneta” deu lugar a uma ponta de esperança com relação ao futuro e a certeza de que é preciso ver o que acontece dentro de campo antes de se tirar conclusões precipitadas. Pia Sundhage encontrou uma forma de jogar bem interessante para a Seleção Feminina e jogadoras que podem ser extremamente úteis. Que continue assim nas próximas partidas do escrete canarinho.

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