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A Glória é delas! Corinthians se adapta ao contexto, dá show de jogo coletivo e conquista a América pela terceira vez

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Arthur Elias, a vitória sobre o Santa Fe e o peso do tricampeonato da Libertadores Feminina

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / CONMEBOL Libertadores Femenina

Este que escreve confessa que já não existem palavras para descrever o impacto que esse time o velho e rude esporte bretão. É bem possível que o Corinthians de Arthur Elias venha a ser lembrado como a equipe que abriu uma série de portas e derrubou uma série de barreiras aqui no Brasil e na América do Sul. A conquista do tricampeonato da Libertadores Feminina veio com uma vitória por 2 a 0 em cima do ótimo Independiente Santa Fe de Albeiro Erazo. É verdade que a final disputada neste domingo (21), em Montevidéu, nos reservou algumas boas doses de emoção e que o Corinthians teve mais sorte do que juízo em alguns momentos. Mas a maneira como o escrete comandado por Arthur Elias consegue se adaptar ao contexto de cada partida e manter o nível altíssimo do seu jogo coletivo ainda surpreende demais. Mesmo os mais céticos. A Glória é delas! Das jogadoras, da comissão técnica e da Fiel Torcida.

A escalação de Yasmim na zaga não era novidade pra ninguém nesta Libertadores Feminina. Sem a zagueira Érika e ciente de que o Independiente Santa iria pressionar a saída de bola da sua equipe, Arthur Elias optou por escalar a camisa 15 ao lado de Campiolo com o claro objetivo de dar mais qualidade para o passe e utilizar a habilidade da sua lateral para fazer a bola chegar com um mínimo de qualidade nos pés de Diany e Gabi Zanotti. Do outro lado, o escrete colombiano adiantava as suas linhas e pressionava bastante o Corinthians para retomar a bola e acelerar na direção do gol de Kemelli. Esta última acertou o travessão logo no primeiro minutos de jogo. No rebote, Gabi Zanotti tirou a bola dos pés de Guarecuco no último instante. E isso tudo logo no primeiro minuto de partida. Por mais que Yasmim qualificasse o passe desde a defesa, estava claro que ela não se sentia muito à vontade nessa função.

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Arthur Elias optou pela escalação de Yasmim na zaga para qualificar o passe desde a defesa e vencer a pressão do Independiente Santa Fe na saída de bola. A camisa 15 conseguiu desafogar a equipe, mas mostrou que não estava muito à vontade na função. O Corinthians teve dificuldades. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

Mas esse Corinthians tem uma capacidade de adaptação absurda. É impressionante o escrete de Arthur Elias consegue entender o cenário que cada partida apresenta e mudar a sua maneira de jogar para tirar o melhor proveito de cada situação. Não foi por acaso que o primeiro gol do Timão saiu justo numa das primeiras investidas da equipe paulista na partida com Adriana se livrando de metade do time do Santa Fe (e vencendo a pressão na base do drible) e Vic Albuquerque e Tamires abrindo o campo para que Gabi Portilho pudesse atacar o espaço às costas da dupla de zaga adversária.

A partir daí, o Corinthians passou a seguir um padrão (se é que podemos usar essa palavra). Com Yasmim sofrendo um pouco com a pressão do time do Santa Fe, Gabi Zanotti e Diany passaram a jogar um pouco mais recuadas, trazendo suas marcadoras com elas. Com o espaço aberto na intermediária, Adriana também voltava e trazia uma das zagueiras e o efeito cascata estava formado. O segundo gol corintiano nasceu justamente de uma dessas movimentações e com o posicionamento correto de Tamires, Vic Albuquerque e Gabi Portilho no momento em que a bola chegou em Gabi Zanotti.

Adriana arrasta a marcação e deixa o ataque corintiano em igualdade numérica com a defesa do Independiente Santa Fe. Tamires e Vic Albuquerque abriam o campo e Gabi Portilho atacava o espaço às costas da última linha. Gol que resume a capacidade de adaptação do Corinthians. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

É interessante que este que escreve e o torcedor que acompanhou a campanha vitoriosa do Corinthians no Brasileirão Feminino e em outras competições acabou se acostumando a ver o escrete de Arthur Elias jogando com linhas mais adiantadas e exercendo a pressão que o Independiente Santa Fe fazia no jogo deste domingo (21). Só que estamos falando de um time que sabe muito bem como se adaptar e que entende o momento certo de recuar um pouco, descansar suas jogadoras de velocidade e atacar o espaço que aparece na frente. Praticar um futebol de alto nível significa também entender e modificar sua estratégia quando necessário.

E foi o que o Corinthians fez diante do Independiente Santa Fe no segundo tempo. O escrete comandado por Arthur Elias jogou em bloco mais baixo, tirou o espaço de circulação do ataque adversário e apostou na movimentação por dentro para abrir a defesa adversária e explorar o posicionamento mais adiantado da última linha. Nesse ponto, Adriana e Vic Albuquerque eram fundamentais para “ler” essa movimentação defensiva do time de Albeiro Erazo. Além disso, Tamires abria bem o campo pelo lado esquerdo e se transformava em mais uma armadora junto de Gabi Zanotti e Diany.

Diany recebe a bola com liberdade e vê uma das suas companheiras de equipe ocupando o espaço aberto pela movimentação ofensiva do Corinthians. A dinâmica colocada pelo ataque corintiano foi fundamental para segurar o ímpeto ofensivo do Independiente Santa Fe no segundo tempo. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

Na prática, o segundo tempo não teve tantas emoções quanto o primeiro, visto que Arthur Elias soube muito bem como montar sua equipe e travar as investidas do escrete comandado por Albeiro Erazo. Além disso, o cansaço das jogadoras do Santa Fe ficou bem claro na metade da etapa final, quando o Corinthians passou a ficar mais com a bola e a trocar passes no meio-campo, mas sem abdicar do ataque e sem deixar de tentar marcar mais gol. Grazi, Jheniffer, Andressinha, Ingryd e Poliana foram para o jogo, mas o 4-4-2/4-2-4 costumeiro não foi modificado. E nem Yasmim deixou o miolo de zaga. Embora ainda um pouco desconfortável, a impressão que ficou foi a de que ela conseguiu se adaptar à função conforme o ritmo da partida ia diminuindo. Com mais presença ofensiva e fôlego novo, o Corinthians apenas esperou o apito final para soltar o grito de campeão e comemorar a conquista a América pela terceira vez.

Arthur Elias mandou Grazi, Jheniffer, Andressinha, Ingryd e Poliana para o jogo e viu o Corinthians ter mais controle das ações após a metade da segunda etapa. Já bastante desgastado, o Independiente Santa Fe não teve forças para reagir diante de um adversário organizado e bem postado. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

É impossível apontar apenas um destaque individual. Todas as jogadoras do Corinthians deram um show de comprometimento e de aplicação tática. Vic Albuquerque pode não ter aparecido com os gols que se acostumou a fazer, mas foi importantíssima na marcação e no jogo sem a bola. Yasmim (mesmo improvisada) tentou dar conta do recado qualificando a saída e ajudando o Corinthians a vencer a pressão. E Gabi Zanotti controlou o jogo com o talento que eu e você conhecemos. É possível afirmar sem nenhum medo de ser feliz que o escrete de Arthur Elias levou o título da Libertadores Feminina porque entendeu como poucas equipes entenderam ao longo da história que o futebol é um JOGO COLETIVO. E isso potencializa o talento individual. Adaptação ao contexto, mudança na estratégia e execução do novo plano. Futebol de alto nível é isso.

Este colunista acredita que vamos falar por muito tempo do feito de um Corinthians vitorioso, implacável e altamente determinado a vencer. E o Independiente Santa Fe (que eliminou Avaí/Kindermann e Ferroviária) só fez valorizar o tricampeonato da Libertadores Feminina. Tamires, Kemelli, Katiuscia, Gabi Zanotti, Gabi Portilho, Adriana, Juliete, Yasmim, Diany… A Glória Eterna é toda de vocês. Desfrutem. Enquanto isso, ficamos aqui tentando entender o tamanho dessa conquista e tudo aquilo que vocês fizeram e fazem pelo futebol feminino.

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