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As ideias táticas de Paulo Sousa (PARTE II) – Formações preferidas, filosofia de jogo e a “sombra” de Jorge Jesus

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca os últimos trabalhos do treinador do Flamengo e explica como o português pode montar o escrete rubro-negro

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Alexandre Vidal / Flamengo

Paulo Sousa foi oficialmente apresentado no Flamengo e expôs algumas das suas ideias na entrevista coletiva concedida na última segunda-feira (10), no Rio de Janeiro. Depois de quase uma hora falando sobre seus métodos e aquilo que pensa sobre o velho e rude esporte bretão, o técnico português deixou a certeza de que sempre haverá disposição para conversar e debater sobre o jogo e suas nuances. Não é difícil entender a euforia (ainda que levemente contida por conta do passado recente) dos torcedores rubro-negros com relação ao novo comandante da equipe. Por outro lado, muito se tem falado sobre a maneira como Paulo Sousa irá montar o Flamengo naquela que pode ser uma das temporadas mais desgastantes dos últimos anos aqui por estas bandas. Esse é o tema da segunda parte da reportagem especial sobre as ideias táticas do novo treinador do Mais Querido do Brasil.

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Antes de mais nada, é preciso sempre lembrar que qualquer treinador que assuma o Flamengo pelos próximos anos terá que conviver com a “sombra” de Jorge Jesus. Assim como aconteceu com Cláudio Coutinho e Paulo César Carpegiani em décadas anteriores, a imagem do time que conquistou quase tudo o que disputou em 2019 e 2020 vai permanecer na memória coletiva e afetiva do torcedor por muito tempo. Relembrar e tentar repetir esses períodos mais vitoriosos sempre fará parte da rotina de qualquer clube do mundo e com o Flamengo não será diferente. Por mais que Paulo Sousa esteja trazendo seus métodos, seu “toque pessoal” ao escrete rubro-negro, sempre haverá a cobrança e a comparação com o “Mister”. É nesse contexto que o português chega ao Fla e isso precisa ser levado em consideração no processo de entendimento entre sua comissão técnica e os jogadores.

Certo é que Paulo Sousa tem suas preferências na hora de montar suas equipes. Não foi por acaso que o português deixou claro que deseja ver o Flamengo jogando de maneira bem ofensiva e controlando o jogo através da posse de bola. Esses são conceitos que com certeza serão bastante reforçados nos treinamentos e nas preleções antes das partidas. Analisando seus últimos trabalhos, vemos que seus times possuem maneiras bem características de atacar, de se defender e de fazer a bola chegar no ataque. Para efeito de comparação e análise, este que escreve escolheu os períodos em que o português esteve à frente da Fiorentina (onde levou “La Viola” à quinta posição no Campeonato Italiano de 2015/16) e seu trabalho na Seleção Polonesa para deixar claro quais problemas Paulo Sousa pode ter nesses primeiros dias no comando do Mais Querido do Brasil.

Paulo Sousa armava a sua Fiorentina numa espécie de 3-4-2-1 com muita amplitude e muita valorização da posse de bola nos momentos ofensivos. No time de 2015/16 (que terminou o Calcio com 60 gols marcados e 42 sofridos em 38 rodadas), jogadores como Gilberto (o mesmo lateral que hoje atua pelo Benfica) e o espanhol Marcos Alonso eram os responsáveis por abrir o campo e esgarçar as defesas adversárias. Mais à frente, um trio ofensivo com um jogador mais avançado (o esloveno Ilicic) jogando como referência e dando opção de passe para os velozes Kalinic e Bernardeschi. Estes dois últimos aproveitavam o espaço entre as linhas adversárias e se movimentavam um pouco mais por dentro, formando um “quadrado” com os dois volantes que protegiam o trio defensivo. O passe pelo chão, no entanto, não era regra. A Fiorentina poderia muito bem apostar numa bola mais longa se a ocasião permitisse.

Gilberto e Marcos Alonso abriam o campo e o trio ofensivo ocupava o espaço mais por dentro no 3-4-2-1 da Fiorentina comanda por Paulo Sousa. A “Viola” terminou o Campeonato Italiano de 2018/16 na quinta posição com ótimos números. Foto: Reprodução / YouTube / Serie A TIM

É interessante notar que o próprio Paulo Sousa fez questão de frisar na entrevista coletiva da última segunda-feira (10) que não se liga muito a sistema. De acordo com ele, são os jogadores quem vão definir a melhor formação para o time. Não é difícil concluir que isso acontecia na Fiorentina em 2015 e pode se repetir no Flamengo em 2022. É claro que o contexto e os atletas à disposição são completamente diferentes, mas não é difícil imaginar Bruno Henrique, Pedro, Gabigol, Arrascaeta e outros jogando no mesmo 3-4-2-1 com pequenas adaptações e ocupando o campo de ataque exatamente como no frame abaixo. São oito jogadores ocupando o espaço, abrindo o campo e “lendo” cada movimento do adversário em busca do pedaço de campo e do momento certo para pisar na área ou buscar a jogada de linha de fundo. As associações pelos lados do campo também são muito presentes no trabalho de Paulo Sousa.

A Fiorentina ocupava bem o campo de ataque e colocava até oito jogadores na intermediária adversária quando o contexto da partida assim o permitia. As associações pelos lados do campo também são bastante presentes no trabalho de Paulo Sousa. Foto: Reprodução / YouTube / Serie A TIM

Saindo da “Viola” e partindo para a Seleção Polonesa, Paulo Sousa encontrou certa dificuldade para implementar seus conceitos, visto que o tempo de treinamento e de contato com os jogadores era muito menor do que num clube. Foram 15 jogos à frente das “Águias Brancas” com seis vitórias, cinco empates e quatro derrotas. Terminou a Eurocopa na última posição do seu grupo, mas colocou a equipe na repescagem das Eliminatórias para a Copa do Mundo do Catar. E assim como aconteceu na Fiorentina, no Bordeaux e em vários outros dos times que treinou, Paulo Sousa apostou numa linha defensiva com três zagueiros. Mas vale destacar aqui o papel dos volantes.

Para que seu 3-4-2-1 (ou 3-4-1-2 no caso da partida contra a Inglaterra) funcione, é altamente necessário que os jogadores de meio-campo saibam jogar de costas para a marcação e se livrar da pressão adversária sem muitos problemas. No jogo em questão, a Polônia encontrou problemas para fazer a bola chegar no ataque contra o 4-3-3 imposto por Gareth Southgate. Por mais que Moder e Krychowiak tenham habilidade, faltava mais aproximação de pelo menos um deles e mais rapidez na saída de bola.

A saída de três é uma das marcas do trabalho de Paulo Sousa. Seu trabalho na Polônia, no entanto, acabou sendo prejudicado pelo tempo de trabalho e de adaptação das suas ideias. Contra a Inglaterra, sua equipe sofreu para fazer a bola chegar no ataque. Foto: Reprodução / YouTube / TNT Sports Brasil

Nos momentos defensivos, Paulo Sousa costuma utilizar um 4-4-2 mais nítido, mas isso não é um conceito rígido. A Polônia marcava num 5-3-2 e utilizava com frequência o recuo dos dois alas para junto do trio defensivo. Notem mais que o treinador português teve que se adaptar ao contexto encontrado por ele, visto que treinar uma seleção é bem diferente do que treinar um clube onde há o convívio quase que diário. Trabalhar a posse de bola, a coordenação dos movimentos defensivos (seja com uma linha de quatro ou cinco jogadores na frente da área) não é algo simples de ser realizado. E requer tempo e paciência.

No jogo contra a Inglaterra (retratado nos dois últimos frames) mostra que a Polônia encontrou dificuldades para conter os avanços do seu adversário justamente num dos pontos que é a marca registrada das equipes de Paulo Sousa: a amplitude. Para que o modelo de jogo do português dê certo no Flamengo, os jogadores vão precisar de concentração, entendimento e comprometimento com as ideias do novo comandante. Como dito acima, é preciso ter calma e entender que esse processo de entendimento mútuo não se dará da noite para o dia.

A Polônia encontrava alguns problemas para encaixar a marcação contra equipes que abriam o campo. Por mais que Paulo Sousa tenha boas ideias, ele também precisa de tempo e paciência para implementá-las. E no Flamengo, esse quadro não será diferente. Foto: Reprodução / YouTube / TNT Sports Brasil

Nada no futebol é estático. Ele é fluido e dinâmico. Sempre foi, aliás. E Paulo Sousa sabe disso. É por isso que o técnico português teve tanta cautela na hora de falar sobre os jogadores do Flamengo. A tendência é que Pedro e Thiago Maia ganhem mais oportunidades. Ele pode escalar o escrete rubro-negro irá jogar com três zagueiros, com Filipe Luís fazendo o papel de um terceiro defensor ou ainda com Bruno Henrique jogando como ala pela esquerda. Só o TEMPO irá dizer qual será a melhor formação para Paulo Sousa, sua comissão técnica e os jogadores. Este que escreve acredita sim num trio ofensivo, mas entende que alguns nomes mais consagrados podem perder espaço entre os titulares a curto prazo. No entanto, como teremos as convocações para as seleções nacionais, é possível que isso nem se transforme num problema muito grande. Pelo menos não num primeiro momento.

O que é certo é que o time do Flamengo deve sofrer algumas mudanças mais drásticas. E o torcedor rubro-negro precisará entender que isso é um processo natural. E por mais que a “sombra” de Jorge Jesus ainda faça parte de todo esse contexto, vale lembrar que o “Mister” em pessoa não fez questão de manter Cuellar (ídolo da torcida até sua saída conturbada do clube em 2019) no elenco. E isso diz muito sobre o que Paulo Sousa pode fazer nesses próximos meses.

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