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O trabalho de Arthur Elias e a certeza de que dedicação e simplicidade precisam fazer parte do futebol de alto nível

Na primeira coluna PAPO TÁTICO de 2022, Luiz Ferreira destaca alguns trechos da entrevista do técnico do time feminino do Corinthians no SCCP Scouts

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Alexandre Battibugli / Paulistão

Este que escreve não poderia começar o ano falando de outra coisa aqui no TORCEDORES.COM que não seja futebol feminino. A temporada passada nos presenteou com muitos motivos para celebrar a evolução da modalidade em todos os aspectos e com a certeza de que a sua consolidação definitiva junto ao grande público é questão de tempo. Nesse aspecto, nenhum time marcou tanto o nosso imaginário como o Corinthians de Arthur Elias. Não somente pela conquista da Tríplice Coroa (Brasileirão, Libertadores e Paulistão Feminino), mas por tudo aquilo que eu e você vimos nos gramados do nosso continente ao longo do ano de 2021. No último dia 20 de dezembro, Arthur Elias conversou com os amigos Vic Monteiro, Tatiane Vidal e Renan Bispo no SCCP Scouts (sigam os caras!) sobre essa temporada histórica do Timão. E alguns trechos da LIVE são verdadeiras aulas de futebol e gestão de grupo.

É interessante notar que, apesar do longo caminho que o futebol feminino ainda tem pela frente em termos de melhoria na estrutura, calendário de competições e consolidação junto ao grande público, a modalidade teve uma das temporadas mais ricas e mais significativas dos últimos dez anos. Tudo bem que os Jogos Olímpicos trouxeram mais luz para nossas jogadoras e também para a Seleção Feminina. Clubes de massa (como o próprio Corinthians) investiram pesado no futebol feminino e mostraram que é possível sim ter equipes competitivas sem sacrificar o orçamento e sem gerar prejuízos financeiros. Mais atenção e mais espaço nas grades dos principais canais esportivos atraem mais investimento. É algo que Arthur Elias deixa bem claro de uma maneira bem fácil de se compreender.

Eu trabalho no futebol feminino há bastante tempo, estou vendo esse crescimento agora e eu vejo que se os clubes investirem dois por cento do faturamento anual, eles conseguem montar uma equipe competitiva. E eu acho que é importante esse equilíbrio. Montar um time competitivo que defenda a camisa do clube, mas que não sangre e que não dê tanto prejuízo econômico. Por que não tem jeito. Aquilo que dá prejuízo, você vai ser cobrado por isso. Eu acho que até dois por cento é um número que o clube consegue olhar pro futebol feminino como investimento a médio prazo. Por que as coisas estão melhorando em termos de receita, em termos de mercado de jogadoras, de formação de atleta, da própria bilheteria pra arcar com os custos de jogar em grandes estádios, os patrocínios, a comercialização na TV, ou seja, vários tipos de receita que o futebol feminino ainda não tem, mas que provavelmente vai ter nos próximos anos.

Falando especificamente de tática e da montagem do histórico Corinthians de 2021, Arthur Elias explica algo que já foi amplamente discutido por este que escreve aqui no TORCEDORES.COM mais uma vez: a necessidade de se entender as nuances do jogo, conhecer as características das suas jogadoras e potencializar o talento de cada uma delas dentro de uma formação sólida, coesa e bem treinada. Muita gente se perguntou o que passou na cabeça do treinador durante o jogo contra o Alianza Lima, pelas quartas de final da Libertadores Feminina, quando Diany e Yasmim foram atuar como zagueiras. Arthur Elias enumera os pontos que fizeram com que o Corinthians não perdesse força ofensiva e nem intensidade naquela partida decisiva.

Primeiro a característica do jogo. Segundo o equilíbrio. É a gente surpreender, levar dúvida e dificuldade pro adversário junto com a capacidade nossa de executar aquilo que foi proposto. E os treinamentos. A gente treina as variações que a gente sempre coloca pra treinar e a resposta que elas me não no treino me dá confiança pra fazer. E eu proponho pra elas de forma clara, com confiança, explicando qual é o plano que a gente vai fazer. E dando certo no treino, elas vão muito confiantes pro jogo. Basicamente, são esses pontos que fundamentam essas trocas de sistema, de posicionamento delas no campo como de atletas. A gente tem um grupo bem qualificado pra isso.

Quem viu o jogo se lembra bem que o Alianza Lima jogava de maneira extremamente reativa atrás da linha do meio-campo. O Corinthians precisava da qualidade do passe de Diany e Yasmim no início das jogadas para quebrar essa primeira pressão. E foi o que Arthur Elias fez. Com bastante brilhantismo, diga-se de passagem.

A mudança de posicionamento de Diany e Yasmim para a zaga no jogo contra o Alianza Lima não foi fruto do acaso. Arthur Elias queria que seu Corinthians ganhasse mais força na saída de bola e mais qualidade no passe. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

Essas mudanças táticas também aconteceram na final do Paulistão diante do bom time do São Paulo. Se a equipe comandada por Lucas Piccinato conseguiu travar as saídas do Timão, Arthur Elias encontrou na entrada de Gabi Zanotti como uma espécie de “falsa nove” e com um 4-1-4-1 bem diferente daquele que estávamos acostumados o “mapa da mina” para superar seu rival e levantar mais uma taça. O Corinthians ganhou mobilidade com a camisa 10 arrastando uma das zagueiras e intensidade na pressão pós perda com Gabi Portilho e Vic Albuquerque jogando por dentro. O próprio Arthur Elias admite que essa formação foi pouco treinada, mas deixa claro que só pôde apostar nesse desenho tático por conta do compromisso das jogadoras com suas ideias e pela ótima leitura de jogo de cada uma delas.

Acho que na final (do Paulistão) foi algo um pouco arriscado porque a gente tinha feito pouco essa formação com a (Gabi) Portilho por dentro e a (Gabi) Zanotti na frente. Jogadoras que não vinham jogando tanto saíram como titular, casos da Natascha e da Tarciane, mas eu confio em todas. E isso é um ambiente que a gente tem. É uma coisa que a gente cria ao longo do nosso dia a dia. E quando eu vejo que elas estão preparadas, eu não tenho medo nenhum de arriscar porque eu acho que esse custo-benefício de gerar dúvida no que o adversário preparou para nos enfrentar e a nossa capacidade de fazer as coisas normalmente fala ao nosso favor.

A ideia de Arthur Elias acabou funcionando muito bem diante do 4-4-2 do São Paulo, visto que Gabi Zanotti, Adriana, Gabi Portilho, Vic Albuquerque e Tamires exploravam muito bem o espaço entre as linhas do seu adversário. O Corinthians ocupou melhor o campo, bloqueou as saídas de bola do Tricolor Paulista e construiu a vitória que resultou no título estadual.

O Corinthians conseguiu superar o São Paulo na decisão do Paulistão a partir das mudanças táticas promovidas por Arthur Elias. Gabi Portilho e Vic Albuquerque por dentro, Gabi Zanotti como “falsa nove” e muita intensidade na pressão pós-perda. Foto: Reprodução / YouTube / Paulistão

Arthur Elias ainda enfatizou bastante a questão do preparo físico e do rodízio que implementou no Corinthians em 2021. Por mais que alguns comentaristas não concordem com treinadores que lançam mão desse recurso, ele foi fundamental para que o Timão encontrasse forças para superar seus adversários e se superar em vários momentos da temporada passada. Principalmente no momento em que as jogadoras encaravam as convocações para a Seleção Feminina e a sequência de jogos do Brasileirão Feminino. Difícil não ver na conquista da Tríplice Coroa em 2021 todos os elementos colocados por Arthur Elias ao SCCP Scouts.

Eu acho que o aspecto tático é sempre o primeiro, são as escolhas em relação ao jogo. Mas a questão física é importante não só para a atleta que não vem jogando ter o ritmo de jogo, mas para treinar algumas atletas que tem jogado muito. Para algumas, é melhor treinar do que jogar. O rodízio funciona muito bem para todas elas e a gente consegue preparar o grupo inteiro. E tem o aspecto mental também. Para uma jogadora, um jogo tem mais importância para ela que vem treinando há dois, três jogos. Então eu sei que ela vai estar motivada e focada para participar daquele jogo. Diferente de algumas que estão jogando uma sequência e vindo de um desgaste nessa parte mental. Respira todo mundo. Mentalmente e fisicamente. E dá jogo pra todo mundo. Mas isso não é fácil de fazer.

Foi por conta de todos esses elementos que o Corinthians conseguiu tirar fôlego para fazer um dos mais belos gols da temporada passada no apagar das luzes da final do Paulistão. O amigo DUGA mostrou muito bem como esse time conseguia se livrar da pressão e encontrar espaços no campo adversário. O nome disso é GABARITO.

O grande desafio de Arthur Elias nesse 2022 que se inicia é manter o Corinthians no topo. Administrar todo o sucesso junto com a expectativa do cada vez mais exigente torcedor corintiano também é algo que vai exigir a atenção do treinador (ainda mais com as convocações para a Copa América e amistosos da Seleção Feminina). E o próprio conta qual é a “receita” para cuidar de todos esses pontos levantados anteriormente sem que que ninguém perca o foco no elenco.

Eu acho que é um ambiente que a gente cria no dia a dia, a gente valorizar o nosso trabalho, valorizar os dias de treinamento. Ter um ambiente que seja motivador e desafiados todos os dias que você vai trabalhar. É claro que todos nós oscilamos um pouquinho emocionalmente em alguns momentos, mas é um puxar o outro e ter o controle sobre isso. Quando a gente vê que a atleta tá um pouquinho mais pra baixo, faltando alguma coisa, a gente vai controlando isso e vai injetando ânimo e mostrando o que o Corinthians pode trazer de bom. As pessoas acham que é difícil de administrar o fracasso e a derrota, aquele clima de pressão, de administração. Mas também é muito difícil administrar o sucesso. Não é fácil você criar e manter esse ambiente, uma sinergia que a gente precisa pra seguir vencendo e sendo campeão e jogando contra adversários que querem ganhar de você. É por isso que eu fiquei muito satisfeito com esse ano mesmo por a gente ter conseguido os três títulos.

A LIVE com Vic Monteiro, Tatiane Vidal e Renan Bispo é extremamente rica em assuntos para análise e é perfeita para se entender o que se passa na cabeça de Arthur Elias. Por mais que ele tenha seus métodos e não revele todos os seus “segredos”, ela revela a simplicidade de um treinador que conseguiu extrair o melhor de um grupo altamente qualificado com bastante simplicidade e inteligência. Difícil não se encantar com o treinador do Corinthians, suas ideias e sua visão sobre o velho e rude esporte bretão.

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