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Campanha do Peru nas Eliminatórias reforça ainda mais a qualidade do trabalho de Ricardo Gareca

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória sobre o Paraguai e as escolhas do treinador argentino na partida desta terça-feira (29)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Selección Peruana

Ricardo Gareca ficou conhecido aqui no Brasil como o “treinador que não deu certo no Palmeiras” e como o “sósia do Odair José”. Só que precisamos tirar nossos conceitos “desse lugar” comum de análises rasas e falas preconceituosa em determinados casos. Estamos falando de um grande treinador e de um dos grandes responsáveis pelo crescimento da Seleção do Peru nesses últimos anos. Gareca está a apenas uma partida da sua segunda Copa do Mundo seguida e já comandou “La Blanquirroja” em excelentes campanhas nas duas últimas edições da Copa América. A vitória sobre o Paraguai do também argentino Guillermo Schelotto reforça ainda mais a qualidade do seu trabalho. Ricardo Gareca merece mais reconhecimento e mais respeito e provou ser muito mais do que apenas o “sósia do Odair José” como alguns ainda insistem em dizer por aí.

Isso porque o Peru compensa a falta de qualidade individual do elenco (em comparação com Brasil e Argentina) com muita organização, linhas bem fechadas, bom posicionamento e jogo vertical na direção de Lapadula, a referência do 4-1-4-1 de Ricardo Gareca. Há força e qualidade no passe pelos lados com Advíncula e Miguel Trauco (ex-lateral do Flamengo), firmeza na marcação com Renato Tapia entre as linhas e chegadas na área e chutes de média distância com Sergio Peña e Yoshimar Yotún (AQUELE MESMO que jogou pelo Vasco). Com Edison Flores abrindo o campo pela direita e Christian Cueva atuando como “ponta-armador” pela esquerda, o Peru descobriu rapidamente os caminhos para explorar os crônicos problemas defensivos do seu adversário.

Do outro lado, o Paraguai tentava se conter muito mais na base da disposição do que através da organização e da troca de passes. Há nomes conhecidos do torcedor brasileiro como Balbuena, Junior Alonso e Angel Romero, mas ainda falta a consistência de outros tempos menos penosos para “La Albirroja”. Guillermo Schelotto bem que tentou apostar num 4-4-2 que lembrava o 4-1-3-2 utilizado por Marcelo Gallardo no River Plate, mas sem a compactação e a objetividade no passe necessária para superar o ímpeto de um adversário mais intenso e muito mais preciso nos lançamentos e passes longos. Por mais que o Peru tenha falhado em alguns pontos, o time de Ricardo Gareca foi mais feliz nas tomadas de decisão.

Peru vs Paraguai - Football tactics and formations

Formação das duas equipes no Estádio Nacional de Lima. O Peru levava vantagem sobre o Paraguai na base da organização e da melhor execução do plano de jogo.

Times organizados têm a capacidade de potencializar o talento dos seus principais jogadores. E com o Peru não foi diferente. Sergio Peña se aproximava de Renato Tapia sempre que a jogava passava pelo lado direito e Trauco aproveitava o corredor quando Cueva saía da esquerda para o meio para buscar o jogo e armar as jogadas de ataque. O gol de Lapadula (marcado logo aos quatro minutos de jogo) nasceu justamente de um dos lançamentos do camisa 10 e da falha de posicionamento de Omar Alderete no lance. A vantagem permitiu que o Peru jogasse de maneira mais tranquila e fosse explorando bem os espaços que apareciam na frente da última linha de defesa paraguaia. Nem mesmo a cabeçada no travessão de Sebastián Ferreira foi capaz de abalar a confiança do escrete peruano.

O gol de Yoshimar Yotún aos 41 minutos do primeiro tempo (nascido de mais uma jogada de Cueva pelo lado esquerdo) deu ainda mais tranquilidade para Ricardo Gareca e seus comandados nesta terça-feira (29). O bom volume de jogo do Peru ainda resultou em duas bolas na trave de Lapadula e boas trocas de passe na intermediária. Do outro lado, o Paraguai ganhou mais consistência e agressividade no ataque com as entradas de Iván Torres, Cólman e Angel Romero, mas o nível de atuação coletiva ainda estava muito abaixo do esperado. Ricardo Gareca viu sua equipe administrar a vantagem e deu minutos para jogadores como Christofer González e Calcaterra na segunda etapa. Por mais que “La Albirroja” pressionasse e tentasse manter a bola no ataque, o escrete de Ricardo Gareca se manteve firme.

Paraguai vs Peru - Football tactics and formations

O Paraguai ganhou mais consistência e agressividade com as substituições de Guillermo Schelotto, mas o Peru seguiu controlando a partida sem muitos sustos até o apito final.

A campanha nas Eliminatórias da Copa do Mundo fala por si só. O Peru conquistou dez dos últimos quinze pontos disputados na competição e deixou para trás rivais como Chile e Colômbia na briga por uma vaga na repescagem. Tudo isso e a maneira como o selecionado nacional se comporta diante de adversários mais fortes (sem perder a organização e a sua proposta de jogo) só comprovam a qualidade e o tamanho dos feitos de Ricardo Gareca. Ainda que ridicularizado e tratado como “personagem” por boa parte da imprensa esportiva, o treinador argentino não só merece respeito como o reconhecimento por ter sido um dos grandes responsáveis pelas ótimas campanhas do Peru nas últimas temporadas. Há um norte, um caminho a ser seguido para um futuro nos próximos ciclos que promete ser muito, mas muito promissor.

A vaga na repescagem também premia as atuações de Laadula, Gallese, Trauco, Yotún e (principalmente) Cueva. O camisa 10 peruano chamou a responsabilidade e se transformou na principal referência técnica após a lesão grave de Paolo Guerrero. E pelo que se viu nessas últimas rodadas das Eliminatórias, o sonho ainda segue vivo. Principalmente para uma seleção que se permitiu ser grande e que conta com um senhor treinador de futebol. Ricardo Gareca é muito mais do que o “sósia de Odair José”. E merece nosso reconhecimento.