Corinthians atropela o Grêmio com a autoridade e a qualidade que nós já conhecemos; confira a análise

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca a vitória do Timão sobre as Gurias Gremistas

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Fernando Alves / Grêmio FBPA

Antes de mais nada, é preciso dizer que não houve qualquer sinal de desrespeito por parte do time do Corinthians contra o Grêmio na partida deste domingo (25) como algumas pessoas quiseram insinuar nas redes sociais. A postura do Timão na partida e a disposição das atletas dentro de campo (incluindo o posicionamento da goleira Lelê) estão diretamente ligados às estratégias do técnico Arthur Elias. Não que as Gurias Gremistas tenham feito uma partida ruim, mas fato é que a equipe formada por Gabi Zanotti, Andressinha, Vic Albuquerque e companhia é extremamente qualificada e joga um futebol consistente e eficiente. A vitória por 3 a 0 (ainda que construída através das falhas da goleira Raíssa e da zagueira Ana) é resultado de todo um trabalho tático e de uma ideia de jogo bem estabelecida. A verdade, meu amigo é que é muito difícil segurar esse time do Corinthians.

É bom que se diga que o Grêmio começou bem a partida. As comandadas de Patrícia Gusmão fechavam bem os espaços no meio-campo e obrigavam o Corinthians a apelar para os passes mais longos. Tudo por conta da dinâmica de Pri Back e Tchulla na proteção da zaga. Eram as duas volantes do escrete gaúcho quem davam o tom na saída de bola e também na perseguição a Tamires, Vic Albuquerque, Gabi Zanotti e Andressinha no meio-campo. Estas duas últimas estavam muito bem vigiadas e encontravam muita dificuldades para acionar a dupla de ataque formada por Crivelari e Adriana. O grande problema é que marcar um time da qualidade do Corinthians desse jeito pede uma intensidade e um preparo físico robusto até mesmo para os nossos padrões. O tempo foi passando e o Grêmio foi diminuindo o ritmo. E quando tinha a bola, pouco ameaçava o gol defendido por Lelê.

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As Gurias Gremistas começaram a partida fechando bem a defesa e obrigando o Corinthians a apelar para os passes mais longos. Aos poucos, o escrete comandado por Patrícia Gusmão foi diminuindo o ritmo e concedendo espaços na sua intermediária. Faltou fôlego e concentração. Foto: Reprodução / BAND

A soma desses fatores acabaria resultando no gol marcado por Crivelari aos 20 minutos de jogo em Porto Alegre (em falha da goleira Raíssa). Mas o Corinthians já havia tomado o controle da partida bem antes disso ao explorar bem os espaços que encontrava no meio-campo a partir da movimentação do quarteto ofensivo na intermediária gremista. E a dinâmica do time comandado por Arthur Elias segue enchendo os olhos daqueles que apreciam um bom jogo de futebol. Tamires centralizava e abria o corredor para as subidas de Yasmin pelo lado esquerdo. Ao mesmo tempo, Adriana abria a defesa adversária pelo outro lado e Crivelari saía da área e abria espaços. Com isso, Gabi Zanotti podia se lançar em direção à área defendida por Raíssa para aproveitar os cruzamentos e/ou passes em profundidade. É possível dizer que o Corinthians já joga “de memória” como dizem alguns.

Tamires centralizava, Vic Albuquerque aproximava, Crivelari abria espaços, Gabi Zanotti partia para o ataque e Yasmin e Adriana abriam o campo. Tudo para furar o bloqueio defensivo das Gurias Gremistas com poucos toques na bola e um volume de jogo completamente insano. Foto: Reprodução / BAND

O que eu e você vimos depois do intervalo foi a aplicação dos conceitos de Arthur Elias num nível quase perfeito dentro da Arena do Grêmio. Digo “quase” perfeito porque o Corinthians não conseguiu transformar todas as chances que teve em gols. Ana marcou contra e Crivelari fechou o placar aos dez minutos do segundo tempo, mas Adriana perdeu ótimas oportunidades de ampliar a vantagem corintiana. Do outro lado, Patrícia Gusmão tentou dar mais mobilidade ao seu time com as entradas de Eudimilla e Marta, mas as Gurias Gremistas já estavam completamente dominadas pelo time do Corinthians e pelo jogo posicional proposto por Arthur Elias. Marcação alta, trocas de posição e muita intensidade. O Timão joga com TODO O SEU TIME avançado. Incluindo a goleira Lelê, que tem a função de ocupar o espaço atrás da zaga e cortar os passes longos. Não é desrespeito. É tática.

O time do Corinthians aplicou todos os conceitos de Arthur Elias na partida contra o Grêmio e saiu de Porto Alegre com uma vitória mais do que justa. O ataque posicional e a alta intensidade nas tramas ofensivas é uma das marcas registradas da equipe paulista. Foto: Reprodução / BAND

O Corinthians fez aquilo que tinha que fazer e deu a maior prova de que respeitava sim o time do Grêmio: seguiu atacando e empilhando chances de aumentar a vantagem em Porto Alegre sem firulas, toquinhos pro lado ou qualquer outro tipo de gracinha. O resultado final também escancarou um dos grandes problemas das Gurias Gremistas nesse Brasileirão Feminino: a baixa produtividade do setor ofensivo. Foram apenas 17 gols marcados nas 24 partidas válidas pela primeira fase da competição. A técnica Patrícia Gusmão opta por uma proposta mais pragmática e cautelosa e não há nada de errado nisso. Mas fato é que o Tricolor Gaúcho precisaria produzir muito mais do que produziu até aqui para superar um Corinthians bem organizado e muito bem treinado por Arthur Elias. Mesmo com Eudimilla e Marta em campo. A diferença técnica entre as duas equipes é bem grande.

Mesmo sendo uma das melhores equipes do continente, é muito difícil cravar que o título brasileiro vá para as mãos das comandadas de Arthur Elias. O que é certo é que a qualidade do futebol feminino segue aumentando. Há muita coisa a ser feita ainda (principalmente em equipes de menor investimento), mas equipes como o Corinthians, a Ferroviária e o Santos já mostraram o caminho a ser seguido.

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