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A loucura de Marcelo Bielsa (PARTE II) – Da trajetória na Seleção Argentina e a criação de uma “terceira via”

Luiz Ferreira repassa a carreira de “El Loco” numa série de reportagens especiais na coluna PAPO TÁTICO; segunda parte da série destaca os anos como técnico da Argentina e as comparações com Cesar Menotti e Carlos Billardo

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Mesmo não tendo conquistado muitos títulos de expressão ao longo de mais de três décadas como treinador, Marcelo Bielsa marcou para sempre o velho e rude esporte bretão com seus conceitos arrojados e suas equipes extremamente ofensivas. Começando pelo histórico Newell’s Old Boys do início dos anos 1990, passando pela descoberta de grandes jogadores, pela sua rápida e marcante passagem pelo Vélez Sarsfield. Em 1999, Bielsa assumiria o comando da Seleção Argentina e daria início a uma verdadeira revolução na maneira como se pensava o futebol, uma espécie de “terceira via” dentro das duas principais linhas de pensamento existentes naquela época: os adeptos do “menotismo” e os defensores do “bilardismo”. O TORCEDORES.COM (através da coluna PAPO TÁTICO) traz a segunda reportagem da série sobre a “loucura” de Marcelo Bielsa e seu impacto no futebol mundial.

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Antes de abordarmos a importância que os conceitos de “El Loco” tiveram na construção de uma nova maneira de se enxergar o velho e rude esporte bretão, precisamos contextualizar as coisas e falar do cenário encontrado por ele assim que assumiu o comando da Albiceleste. Naqueles tempos (final da década de 1990), a discussão sobre o futebol argentino estava dividida entre os defensores de Cesar Luis Menotti, treinador campeão da Copa do Mundo de 1978 e adepto de um futebol de mais inspiração e valorização da posse de bola, e os defensores de Carlos Bilardo, técnico campeão da Copa de 1986 e dono de um estilo mais pragmático e reativo de jogo. Inimigos mortais depois de trocas de farpas na imprensa portenha, os dois foram importantíssimos na construção de uma identidade bem clara do futebol argentino naqueles tempos que ainda carregavam uma boa dose de romantismo.

César Luis Menotti assumiu o comando da Seleção Argentina após o fracasso na Copa do Mundo de 1974 credenciado pelo sucesso no comando do Huracán (onde foi campeão metropolitano um ano antes). Seus conceitos eram baseados na união entre eficácia e beleza além de um resgate do romantismo perdido por conta dos insucessos nos últimos Mundiais. “Eu sustento que um time é, antes de tudo, uma ideia”, dizia Menotti. Para ele, o futebol era “a verdadeira manifestação da classe trabalhadora do país”. Vale destacar que isso foi dito num tempo em que a Ditadura Militar censurava, perseguia e torturava opositores com muita brutalidade. Não levou um jovem Diego Maradona para o Mundial da Argentina, mas montou uma seleção vibrante que resgatava o River Plate dos anos 1940 (conhecido como “La Maquina), mas que também contava com certa dose de pragmatismo quando era necessário.

A equipe jogava num 4-3-3 básico com o ataque em formato de W (dois pontas abertos, um centroavante e dois meias chegando por dentro). Leopoldo Luque jogava entre Daniel Bertoni e Oscar Ortiz. À direita estava Osvaldo Ardiles (um autêntico “camisa 8). E à esquerda, o camisa 10 (e artilheiro daquela Copa do Mundo com seis gols) Mario Kempes. Ainda que o futebol da Argentina não tenha empolgado em alguns momentos e que a goleada sobre o Peru na segunda fase seja alvo de suspeitas até hoje, fato é que aquele time ficou marcado no imaginário do torcedor pela atuação na final contra a Holanda. Após o empate no tempo normal (e a bola na trave de Resenbrink no último minuto), os gols de Kempes e Bertoni na prorrogação seriam suficientes para garantir a primeira Copa do Mundo da Argentina. Uma vitória que fez com que muita gente relembrasse o romantismo de outros tempos.

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Argentina vs Holanda - Football tactics and formations

Ortiz voltava pela esquerda para que Kempes avançasse para o ataque e fizesse os gols que a Argetina precisava naquela Copa do Mundo. A decisão contra a Holanda (que contava com Neeskens, Jansen e outros remanescentes de 1974) teve a dramaticidade de um tango de Carlos Gardel. A conquista do mundial resgatou o romantismo no futebol portenho.

No entanto, após o fracasso no Mundial de 1982, César Luis Menotti deixava o comando da Albiceleste. Ex-jogador do Estudiantes de La Plata (e tricampeão da Libertadores no final dos anos 1960), Carlos Bilardo foi o escolhido pela AFA para assumir a seleção. E com “El Doctor” (Bilardo era formado em medicina) viria uma mudança completa na filosofia do selecionado argentino. Mudou 18 nomes e não se preocupava com a opinião pública. “Não quero mais o jogo sul-americano estático, lento e de jogadores que só fazem uma função. Quero atletas polifuncionais, que joguem todo o jogo. Sei que serei criticado. Mas prefiro que 30 jogadores entendam o que desejo e não que os 30 milhões de argentinos me compreendam”, afirmou Bilardo. E a sua Argentina seria toda montada para que Diego Maradona pudesse brilhar intensamente e fazer a diferença em terras mexicanas.

Mesmo assim, Bilardo foi criticado. Primeiro pela campanha irregular nas Eliminatórias. E depois por escalar três zagueiros num tempo em que pouco se falava disso. Certo é que aquela Argentina foi ganhando corpo aos poucos e superando seus adversários. A vitória sobre a Inglaterra (numa das maiores atuações da vida de Maradona) deu a confiança que o escrete portenho precisava para seguir até a decisão e superar a sempre poderosa Alemanha Ocidental. O 3-3-2-2 liberava seu principal jogador para atacar, mas privilegiava a defesa: Cuciuffo ficou preso na lateral (de olho em Allofs), Ruggeri perseguia o craque Rummenigge e Giusti cuidava de Magath. Até mesmo o ofensivo Olarticoechea avançava menos pela esquerda e Valdano recuava para acompanhar Briegel. Vários cuidados defensivos para conquistar a Copa do Mundo de 1986 com a assinatura de Maradona.

Argentina vs Alemanha - Football tactics and formations

Carlos Bilardo armou uma espécie de 3-3-2-2 de forte poder de marcação e jogadores polivalentes na defesa. Tudo para liberar Diego Maradona na frente para fazer a diferença. A decisão contra a Alemanha Ocidental foi marcada pela perseguição individual dos argentinos e pela grande movimentação dos jogadores de frente.

A discussão sobre quem teria sido mais importante para o futebol argentino perdura até os dias de hoje. Ponto que só aumenta a importância de Marcelo Bielsa na Seleção Argentina. “El Loco” criou uma espécie de “terceira via”, uma opção diferente daquelas apresentadas por César Menotti e Carlos Bilardo. Sua estreia no comando da Albiceleste aconteceu num amistoso contra a Venezuela (vencido por 2 a 0) no dia 3 de fevereiro de 1999. A campanha na Copa América (realizada no mesmo ano) foi apenas raozável, com o escrete portenho parando na Seleção Brasileira de Vanderlei Luxemburgo nas quartas de final. Mas a cereja do bolo viria na campanha realizada nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002: treze vitórias, quatro empates e apenas uma única derrota, com 42 gols marcados e apenas 15 sofridos. Números que encheram o torcedor argentino de esperanças.

Marcelo Bielsa permaneceu no comando da Seleção Argentina de 1998 a 2004. Ao todo, foram 89 partidas (56 vitórias, 18 empates e apenas 11 derrotas) e um futebol extremamente ofensivo que encantou o mundo na virada do século. O seu usual 3-3-1-3 seguia como o esquema tático básico e a Albiceleste contava com uma das gerações mais talentosas da sua história. Na defesa, “El Loco” contava com nomes como Ayala, Pochettino, Vivas e Samuel. No meio, Redondo começou como titular, mas acabaria dando lugar a “Cholo” Simeone por conta das inúmeras lesões no joelho. Nas alas, Bielsa tinha jogadores como Sorín, Zanetti e Kily González à disposição. “La Brujita” Verón e Pablo Aimar eram os “enganches” preferidos do treinador. E Hernán Crespo, Gabriel Batistuta, Claudio López e Ariel “Burrito” Ortega faziam parte do grupo de atacantes utilizados por Marcelo Bielsa.

Apesar do bom futebol mostrado nas Eliminatórias, o treinador não se livrou das polêmicas. Talvez a que mais tenha gerado comoção tenha sido a ausência de Riquelme da lista final de convocados para a Copa do Mundo de 2002, disputada na Coreia do Sul e no Japão. Além disso, Bielsa também gerou discussões amplas sobre a utilização de dois “nueves” na Albiceleste quando escalou Crespo e Batistuta numa variação para um 3-3-2-2 que tinha força pelo meio, mas não contava com muita amplitude e profundidade. A expectativa criada nas Eliminatórias caiu por terra na disputa do Mundial. O preparo físico fortíssimo exigido por Marcelo Bielsa pesou demais num elenco estrelado, mas que vinha de final de temporada na Europa. Vitória contra a Nigéria, derrota para a Inglaterra e empate contra a Suécia no Grupo F da Copa do Mundo de 2002. Argentina eliminada na primeira fase.

Argentina - Football tactics and formations

A Seleção Argentina era apontada como favorita ao título da Copa do Mundo de 2002, mas acabou eliminada ainda na primeira fase. A alta exigência física exigida por Marcelo Bielsa e o desgaste do final da temporada europeia minaram as chances da Albilceleste no Mundial da Coreia do Sul e do Japão.

A imprensa esportiva pedia a saída de Marcelo Bielsa do comando da seleção portenha, mas Julio Grondona resolveu manter o treinador no cargo após o fracasso na Copa de 2002. A partir daí, “El Loco” (sempre fiel às suas convicções) realizou uma ampla renovação na equipe a partir do elenco campeão mundial sub-20 em 2001. Na Copa América do Peru (realizada em 2004), a Argentina contava com jogadores do quilate de Heinze, Lucho González, Saviola, D’Alessandro, Carlitos Tévez e “Pato” Abbondanzieri. Se classificou na segunda posição do Grupo B e teve bons momentos, como as goleadas por 6 a 1 sobre o Equador e os 4 a 2 sobre o Uruguai. No entanto, a Albiceleste (mesmo tendo feito ótima partida contra o Brasil de Carlos Alberto Parreira) acabaria surpreendida pelo antológico gol de Adriano Imperador no último lance da partida e perderia o título na decisão por penalidades.

Mesmo assim, Bielsa sabia que sua equipe estava pronta para fazer história nos Jogos Olímpicos de Atenas. “El Loco” manteve seu 3-3-1-3 básico com D’Alessandro como “enganche” jogando logo atrás de Mauro Rosalez, Delgado e Carlitos Tévez (que já despontava como grande estrela do Boca Juniors). Mais atrás, Mascherano já protegia a zaga com a calma de um veterano mesmo com 20 anos de idade. Lucho e Kily González eram os alas. E mais atrás, Ayala, Coloccini e Heinze formavam o trio de zagueiros. A tão sonhada medalha de ouro olímpica foi conquistada com uma campanha irretocável: seis vitórias em seis jogos, 17 gols marcados e nenhum sofrido. A vitória por 1 a 0 sobre o Paraguai de Gamarra, Enciso e Carlos Jara fechava o ciclo de Marcelo Bielsa no comando da Seleção Argentina de forma digna. Ainda mais com a quebra de um jejum de 52 anos sem medalhas douradas.

Argentina - Football tactics and formations

A medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas foi a despedida perfeita para Marcelo Bielsa. A sua Argentina jogava um futebol ofensivo e vibrante dentro do seu 3-3-1-3 preferido e ainda contava com nomes bem conhecidos do torcedor, como D’Alessandro, Heinze, Lucho González, Mascherano e Carlitos Tévez.

Marcelo Bielsa deixava o comando da Albiceleste depois de seis anos sem conquistar títulos de expressão. Mas seu legado no comando do escrete portenho ficaria marcado pela criação de uma “terceira via” no futebol de seu país. A imprensa esportiva argentina e a torcida agora discutiam se o selecionado nacional deveria seguir o caminho deixado por “El Loco” e deixar de lado a eterna discussão entre “menotistas” e “bilardistas”. Não foi por acaso que o próprio Bielsa afirmou que conversou com cada um por oito anos para tirar o melhor deles. Uma equipe de muita intensidade, marcação alta e que não deixa de fazer jogo bonito. Há quem o veja mais próximo de Menotti e há quem veja seus conceitos mais semelhantes ao de Bilardo. O que é certo é que Bielsa marcou para sempre o futebol argentino. Tanto que é sempre cogitado para reassumir o comando da Albiceleste.

“El Loco” faria um intervalo de três anos na sua carreira como treinador na fazenda de Máximo Paz, na Província de Santa Fé, para voltar três anos depois e revolucionar o futebol mais uma vez no comando do Chile. Vamos contar essa e outras histórias na terceira parte do nosso especial.

FONTES DE PESQUISA:

Blog Painel Tático: Marcelo Bielsa, o grande treinador de técnicos do futebol
Blog Futebol Argentino: Influências de Bielsa na La U de Sampaoli
RSSSF Internacional
A Pirâmide Invertida, por Jonathan Wilson (Editora Grande Área)
Tatica Mente, por Paulo Vinícius Coelho (Editora Saraiva)
As melhores Seleções Estrangeiras de todos os tempos, por Mauro Beting (Editora Contexto)

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