Avaí/Kindermann x Corinthians: a prévia tática da grande final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino

Luiz Ferreira analisa as estratégias de Jorge Barcellos e Arthur Elias e como os dois treinadores podem montar suas equipes na busca pelo título

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Mariana Sá / CBF

A sorte será lançada a partir deste domingo (22). Avaí/Kindermann e Corinthians, as duas melhores equipes do Brasil, fazem o primeiro “round” da final do Brasileirão Feminino na Ressacada, em Florianópolis. De um lado, toda a experiência de Jorge Barcellos (ex-treinador da Seleção Brasileira e responsável pela montagem do timaço de 2007) no comando da excelente e consistente equipe das Avaianas Caçadoras. Do outro, o inventivo e competente Arthur Elias e seu cada vez mais poderoso Timão, o grande pulverizador de recordes. Maneiras diferentes de se enxergar o jogo dentro das quatro linhas, mas com algumas semelhanças. A principal delas talvez seja a busca pela excelência e pela perfeição na execução dos fundamentos com e sem a bola. A coluna PAPO TÁTICO traz aqui no TORCEDORES.COM uma pequena prévia do confronto pelo título mais importante da modalidade no país.

Em 19 partidas disputadas no Brasileirão Feminino (somando os jogos da fase de grupos, das quartas e das semifinais), o escrete comandado por Arthur Elias teve 17 vitórias, um empate e uma derrota, marcando 53 gols e sendo vazado apenas oito vezes. Já o Avaí/Kindermann de Jorge Barcellos teve números um pouco mais modestos ao longo: 10 vitórias, quatro empates e cinco derrotas, com 46 gols a favor e 19 contra. Por mais que os números, as campanhas e as atuações na competição nacional apontem para um favoritismo do Corinthians nos dois jogos da decisão, é preciso prestar atenção em certos detalhes do futebol apresentado dentro de campo. Principalmente na maneira como as Avaianas Caçadoras se comportaram ao longo do torneio diante de equipes mais fortes e mais verticais no ataque (caso das suas adversárias nas finais) e em como Jorge Barcellos pensou seu time.

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Antes de mais nada, é preciso dizer que (ao contrário do que muita gente pensa), o Avaí/Kindermann NÃO É uma equipe reativa. Essa impressão pode ter sido causada pelo fato da equipe catarinense não ter o mesmo volume de jogo do Corinthians, por exemplo, ou por não aplicar uma marcação alta contra seus adversários na maioria das vezes. Por conta da característica das suas jogadores, o técnico Jorge Barcellos optou por uma linha mais baixa (utilizando o 4-1-4-1 e o 4-2-3-1) para aproveitar os passes de Duda e Júlia Bianchi para a velocidade de Lelê e Catyellen. Uma é o arco e a outra é a flecha. E para fazer com que essa estratégia funcione, é preciso ter espaço na frente para que as atacantes tenham para onde se projetar. As Avaianas Caçadoras também sabem se adaptar a diferentes situações de jogo, alternando um estilo vertical com certo pragmatismo quando necessário.

O Avaí/Kindermann mostrou que consegue se adaptar a diferentes situações de jogo apenas com o técnico Jorge Barcellos modificando o estilo e o posicionamento das jogadoras em campo. A linha de marcação um pouco mais baixa propicia que as jogadas de “arco e flecha” aconteçam com frequência. Foto: Reprodução / MyCujoo

O estilo de jogo do Corinthians, por sua vez, já foi amplamente divulgado e explicado aqui mesmo neste espaço em outras oportunidades. E vale lembrar também que muito antes de se falar em “inversão da pirâmide” e variação do 4-1-4-1 para o 2-3-5 (com a projeção de meias para a última linha e laterais caindo por dentro), as comandadas de Arthur Elias já faziam isso dentro de campo. O treinador corintiano conseguiu adaptar Andressinha na frente da zaga, trouxe Tamires para o meio-campo (alinhada a Gabi Zanotti) e com o trio ofensivo abrindo o campo e empurrando a defesa adversária para trás. Contra o Palmeiras (no jogo de volta das semifinais), Grazi atuou como referência móvel com Adriana e Crivelari pelos lados e muita intensidade na pressão pós-perda e uma linha de marcação bem alta. O volume de jogo do Corinthians de Arthur Elias beira níveis insanos.

Yasmim tem a bola, Katiuscia aparece do outro lado e Gabi Zanotti e Tamires se projetam em direção ao ataque para criar espaços. Ao mesmo tempo, Adriana, Grazi e Crivelari abrem o campo e dão profundidade às jogadas de ataque. O volume de jogo do Corinthians de Arthur Elias segue surpreendente. Foto: Reprodução / CBF TV

Usando as escalações de Avaí/Kindermann e Corinthians nos jogos de volta das semifinais, é possível imaginar as duas equipes entrando em campo num 4-1-4-1 nos primeiros momentos da partida. As Avaianas Caçadoras, com a linha de marcação mais baixa e ocupando bem os espaços no seu campo, teriam como principal objetivo a roubada de bola e o lançamento mais longo para a velocidade de Lelê no comando de ataque para partir em direção ao gol ou procurar Duda e Catyellen entrando em diagonal buscando os espaços atrás de Erika e Poliana. Ao mesmo tempo, ainda teríamos Andressinha qualificando a saída de bola, Gabi Zanotti e Tamires levando a bola ao ataque e Grazi se movimentando bastante na frente da defesa adversária. Por mais que o Corinthians tenha o favoritismo ao seu lado, é praticamente impossível não notar as inúmeras possibilidades que essa final nos traz.

Avai/Kindermann vs Corinthians - Football tactics and formations

Tomando as escalações dos jogos de volta das semifinais, é possível imaginar Avaí/Kindermann e Corinthians jogando no 4-1-4-1, mas com estratégias e posturas bem distintas. Arthur Elias e Jorge Barcellos possuem suas cartas na manga e podem surpreender muita gente nessa decisão do Brasileirão Feminino.

É bem verdade que as duas equipes podem entrar em campo com escalações e formações completamente diferentes (ainda mais por causa dos desfalques certos de Zoio e Pat nas Avaianas Caçadoras). É óbvio, mas não existe meios de se entrar nas mentes de Arhtur Elias e Jorge Barcellos para saber o que cada um deles está pensando no momento. Certo é, no entanto, que tanto o Avaí/Kindermann como o Corinthians já mostraram mais de uma vez que projetos sérios e bem elaborados costumam dar resultados extremamente positivos. Não é por acaso que as duas equipes chegaram na decisão. Cada uma com seu estilo e com seu jeito de jogar e enxergar o futebol dentro das quatro linhas. Mas igualmente consistentes e eficientes quando o assunto é bola na rede. Não há como esperar outra coisa de Timão e das Avaianas Caçadoras senão duas grandes partidas a partir desse domingo (22), na Ressacada, em Florianópolis.

Os números e a campanha no Brasileirão Feminino apontam o Corinthians como o grande favorito ao título. Mas quem conhece o trabalho de Jorge Barcellos sabe muito bem do que o ex-treinador da Seleção Brasileira é capaz de fazer com suas equipes. A decisão será marcada pelo equilíbrio e por um senhor duelo de estrategistas no banco de reservas. E como diriam os romanos, “alea jacta est”.

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