Corinthians conquista o Paulistão Feminino e escreve mais uma belíssima página da sua história vitoriosa

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como o Timão construiu a goleada de 5 a 0 sobre a Ferroviária na Arena Fonte Luminosa

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Marco Galvão / SC Corinthians Paulista

O que faz uma equipe de futebol entrar para a história da modalidade? São os títulos conquistados? As grandes atuações? Os números? O trabalho dentro de campo? Ou tudo isso junto e misturado? Você pode escolher os critérios que desejar. Discussões como essas fazem parte da resenha eterna que o velho e rude esporte bretão traz consigo desde os tempos de Fergus Suter. O que é certo é que o time feminino do Corinthians atende a todos esses requisitos. Não somente por ter passado o carro em cima do bom time da Ferroviária por 5 a 0 na manhã deste domingo (20) e por ter conquistado o Paulistão Feminino de 2020, mas por todo o conjunto da obra. Este que escreve, inclusive, acredita que só vamos ter noção da grandeza do escrete comandado por Arthur Elias daqui a alguns anos. O Corinthians escreveu mais uma belíssima página da sua história recheada de títulos e glórias.

O que se viu em campo neste domingo (20) lá em Araraquara foi um verdadeiro passeio do escrete de Arthur Elias. Jogadoras concentradas em cada lance, muita intensidade nas transições, forte pressão na portadora da bola e boa distribuição dentro de campo. É interessante notar que o Corinthians entrou em campo com uma formação um pouco diferente da utilizada na partida de ida, disputada na Arena Barueri. Gabi Zanotti permanecia mais à frente (ao lado de Vic Albuquerque) a partir de um 4-4-2 que marcava forte e no campo adversário. Com a posse da bola, Diany pisava na área, Crivelari e Adriana entravam em diagonal e a já mencionada camisa 10 distribuía o jogo com a qualidade de sempre na intermediária. Tudo isso aproveitando os espaços generosos que a Ferroviária de Tatiele Silveira concedia no seu campo. O massacre começou aos 12 minutos do primeiro tempo.

O Corinthians se organizava a partir de um 4-4-2 com Gabi Zanotti mais próxima do ataque e com Crivelari e Adriana entrando em diagonal. A tarefa das comandadas de Arthur Elias ficou muito mais fácil diante da falta de compactação da Ferroviária de Tatiele Silveira. Foto: Reprodução / SPORTV

Era compreensível que as Guerreiras Grenás fossem sair mais para o ataque por conta da derrota no jogo de ida. E assim como aconteceu na semana passada, a Ferroviária pecou demais pela falta de concentração em momentos decisivos. A diferença é que o Corinthians resolveu acabar com qualquer chance das suas adversárias logo no primeiro tempo. Tanto que o escrete do Parque São Jorge já vencia por 2 a 0 aos vinte minutos de jogo. Fica difícil pensar em outro adjetivo que não seja “passeio” para falar da atuação das corintianas. Ainda mais quando a equipe comandada por Arthur Elias não tira o pé do acelerador nem mesmo quando já tem uma ampla vantagem no placar agregado. Esse Corinthians abusa das triangulações, da movimentação constante e ótimas trocas de passe. Assim como aconteceu entre Diany, Crivelari e Katiuscia na origem da jogada do gol marcado por Tamires.

Crivelari recua, puxa a marcação de Barrinha e abre o corredor para Diany lançar Katiuscia no espaço vazio. A camisa 2 cruzou na medida para Tamires aproveitar os buracos na defesa da Ferroviária e marcar o terceiro gol do Corinthians na partida. Atuação coletiva de alto nível. Foto: Reprodução / SPORTV

Com uma desvantagem de dois gols sofrida no jogo de ida e vendo seu adversário meter quatro gols no primeiro tempo, era mais do que natural que a confiança da Ferroviária fosse pro espaço. Tanto que Tatiele Silveira procurou corrigir o que pôde no intervalo para que o estrago não fosse maior. O que se viu, no entanto, foi muito mais um Corinthians que diminuiu o ritmo depois das mexidas de Arthur Elias do que um crescimento de produção e competitividade das Guerreiras Grenás. A já mencionada e comentada falta de compactação entre as linhas da Ferrinha continuava assim como o claro desgaste físico das jogadoras das Guerreiras Grenás diante do volume de jogo quase insano das corintianas. O lance do quinto gol (marcado por Grazi) mostra como a Ferroviária se desmanchou completamente a partir de uma rápida troca de passes entre Juliete e Gabi Nunes na frente da área de Luciana.

Juliete recebe a bola na intermediária e tem todo o tempo do mundo para esperar Gabi Nunes se posicionar para receber o passe. Com bastante espaço à sua frente, a camisa 11 apenas posiciona o corpo e espera a ultrapassagem de Grazi às costas de Luana e Gessica. Foto: Reprodução / SPORTV

Acabou que o Corinthians provou (mais uma vez) que é a equipe a ser batida no Brasil. A maneira como Arthur Elias arma o time e como as jogadoras compraram as suas ideias é a fórmula perfeita do sucesso aqui por estas bandas. Some isso à experiência e à qualidade de jogadoras importantes como Gabi Zanotti, Grazi, Lelê, Andressinha, Diany, Tamires, Gabi Nunes e Erika e você terá um time coeso, consistente e extremamente difícil de ser batido. Por mais que ainda existam pessoas que tentem diminuir os feitos do Corinthians no futebol feminino, a grande verdade é que o trabalho feito pelo clube é primoroso. Só não é perfeito por conta de equipes como a própria Ferroviária de Tatiele Silveira, o Avaí/Kindermann de Jorge Barcellos, o Palmeiras de Ricardo Belli e o Internacional de David da Silva. Times de muita qualidade e que já causaram muitos problemas para o Timão em outros tempos.

Mesmo assim, o trabalho realizado no Departamento de Futebol Feminino do Corinthians deve servir de modelo para todos os clubes que quiserem montar equipes vitoriosas. Os feitos dessa equipe são impressionantes e só aumentam a importância do trabalho realizado dentro e fora de campo. Não somente pelos títulos do Brasileirão Feminino e dos 8 a 1 no placar agregado da decisão do Campeonato Paulista, mas por toda a dedicação das jogadoras e do seu treinador. Arthur Elias sabe muito bem o que pode tirar das suas jogadoras e estas, por sua vez, sabem muito bem o que fazer dentro de campo. A goleada em cima da Ferroviária foi construída a partir de um modelo de jogo extremamente sólido e eficiente aplicado numa equipe muito bem treinada por Arthur Elias na campanha realizada em todas as competições disputadas nessa temporada conturbada desse complicadíssimo ano de 2020.

O Corinthians escreveu mais uma belíssima página na sua magnífica história de títulos e glórias. É o time a ser batido no Brasil (e talvez na América do Sul) quando o assunto é futebol feminino. E talvez só tenhamos noção do tamanho do trabalho que está sendo feito pelos seus profissionais daqui a alguns anos. O que é certo é que o Timão vem se tornando gigante também entre as mulheres. Que continue assim.

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