Título do Brasileirão Feminino é resultado direto do belíssimo trabalho de Arthur Elias à frente do Corinthians

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca a vitória do Timão sobre o Avaí/Kindermann no jogaço desse domingo (6)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Antes de mais nada, é preciso dizer que Corinthians e Avaí/Kindermann protagonizaram uma das partidas mais emocionantes desse complicado e puxadíssimo ano de 2020. Sem exageros. Não digo isso somente pelos seis gols marcados e pela vitória das comandadas de Arthur Elias, mas por todo o conjunto da obra. Quem esperava ver um jogo onde apenas um atacava, se deparou com duas equipes que buscaram o gol o tempo todo e que mostraram (mais uma vez) que o céu é o limite quando se fala no nível de qualidade do futebol feminino praticado aqui no Brasil. Eu e você vimos dois grandes trabalhos de dois grandes treinadores que recebem o devido respaldo de seus clubes. Não tem como não dar certo. Melhor para o Corinthians, que levou pra casa seu segundo título nacional com um show de Gabi Zanotti, Adriana, Lelê e (principalmente) Diany, a melhor em campo na opinião deste colunista.

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O jogo na NeoQuimica Arena começou com o Avaí/Kindermann tentando surpreender através das bolas longas nas costas das laterais Katiuscia e Tamires. Ao contrário do jogo de ida (na Ressacada), as Avaianas Caçadoras bloqueavam os espaços e exploravam bem a velocidade de Duda, Lelê e Catyellen no 4-2-3-1 de Jorge Barcellos. Tudo para tentar pegar a defesa corintiana desprevenida nos contra-ataques aliando velocidade e passes precisos. Na defesa, compactação na frente da área e muita atenção nas transições do 4-1-4-1 costumeiro de Arthur Elias. Na primeira metade do primeiro tempo, eu e você vimos o escrete catarinense bloqueando bem os espaços e incomodando bastante as donas da casa. Principalmente Tamires na lateral-esquerda. A camisa 37 tende a centralizar o jogo para auxiliar na armação das jogadas e sofreu bastante com as descidas de Duda pelo seu lado.

Jorge Barcellos apostou na marcação mais alta e na velocidade de Duda, Lelê e Catyellen às costas da linha defensiva do Corinthians. As comandadas de Arthur Elias encontraram muitas dificuldades para impor seu jogo nos primeiros minutos da partida na NeoQuimica Arena. Foto: Reprodução / Twitter / Brasileirão Feminino

A ideia era aproveitar um descuido na defesa corintiana e aproveitar o posicionamento mais adiantado da goleira Lelê. No entanto, o Corinthians foi se arrumando aos poucos na partida e conseguindo encaixar seu jogo apesar dos desfalques de Andressinha, Pâmela e Juliete, todas com COVID-19. Todas as jogadas do escrete paulista passavam pelos pés do trio criativo no meio-campo. Gabi Zanotti aparecia mais no ataque, Ingryd organizava a saída de bola e Diany distribuía o jogo com um talento absurdo a partir da intermediária do Avaí/Kindermann. A inversão para o 2-3-5 (a famosa “pirâmide”) acontecia quando Katiuscia e Tamires (principalmente esta última) vinham jogar mais por dentro e liberavam Zanotti e Diany para encostar no trio ofensivo. Não demorou muito para que o Corinthians tomasse conta do jogo apostando no seu estilo bem conhecido e na qualidade do seu elenco.

Tamires aparecia mais por dentro e auxiliava Gabi Zanotti, Diany e Ingryd na armação das jogadas no meio-campo. Ao mesmo tempo, Crivelari, Adriana e Gabi Nunes empurravam a defesa do Avaí/Kindermann para trás com muita intensidade nas transições ofensivas. Foto: Reprodução / Twitter / Brasileirão Feminino

A bola parada descomplicou a vida do Corinthians aos 27 e aos 32 minutos com Gabi Nunes e Gabi Zanotti aproveitando as falhas da defesa do Avaí/Kindermann (incluindo uma saída errada da goleira Bárbara). Com a vantagem no placar, as comandadas de Arthur Elias foram colocando a bola no chão e acelerando as jogadas a partir da linha do meio-campo. Adriana começou a aparecer mais para o jogo e voltou a criar seríssimos problemas para a ótima Bruna Calderan no lado esquerdo de ataque. Era tanta intensidade que o Timão se organizava na já mencionada “pirâmide” de Arthur Elias em determinados momentos. Com até cinco jogadoras empurrando a defesa do Avaí/Kindermann para trás, o Corinthians foi encontrando espaço para criar suas jogadas de ataque e fazer Bárbara trabalhar bastante. Nesse ponto, quem começava a ganhar ainda mais protagonismo no escrete comandado por Arthur Elias era Diany.

Laterais caíam por dentro, atacantes empurravam a defesa para trás e meias ocupavam os espaços. O jogo posicional de Arthur Elias obrigava uma das duas volantes (Pat ou Zoio) a voltarem para a última linha defensiva, ponto que gerava ainda mais espaços no meio-campo. Foto: Reprodução / Twitter / Brasileirão Feminino

Se a jogada de bola parada descomplicou a vida do Corinthians, ela acabou tendo o mesmo efeito no Avaí/Kindermann com o gol de Zoio. Mesmo com o gol de Gabi Zanotti cinco minutos depois (aproveitando bola rebatida de Bárbara), as Avaianas Caçadoras não baixaram a guarda. Júlia Bianchi (que esteve bem marcada) ainda conseguiu armar boas jogadas de ataque explorando sempre as costas das laterais corintianas. Jorge Barcellos sabia muito bem que eram ali que os espaços apareceriam. Ainda mais com o ímpeto ofensivo e a marcação alta do seu forte adversário desse domingo (6). Primeiro no bom chute de Duda (desta vez jogando pela esquerda) defendido por Lelê, e depois no gol da atacante homônima em belíssimo lançamento de Bruna Calderan do campo de defesa. As Avaianas Caçadoras ainda estavam vivas e mostravam que conseguiam competir contra o Corinthians de Arthur Elias.

Jorge Barcellos manteve a estratégia do primeiro tempo e posicionou suas atacantes às costas das laterais corintianas. As chances apareceram conforme Júlia Bianchi e Bruna Calderam iam encontrando espaços para pensar o jogo e fazer os lançamentos precisos. Foto: Reprodução / Twitter / Brasileirão Feminino

Mas o Corinthians tinha Diany no seu meio-campo. Seja organizando a saída de bola ou comandando as ações ofensivas, a camisa 8 foi importantíssima na construção da vitória num cenário que não era dos melhores no início da partida. E ela estava sempre lá abusando da qualidade nos passes e no posicionamento. Exatamente como fez no lance do quarto gol corintiano (marcado por Vic Albuquerque) depois de um lançamento pornográfico a partir da intermediária. Este que escreve considera que ela foi a melhor em campo justamente pelo contexto: Andressinha fora de jogo e toda a pressão de uma finalíssima de Brasileirão Feminino. E Diany deu conta do recado com a calma de uma veterana. Pode não ter tanta mídia ou tanta grife, mas ela (junto com Ingryd, Grazi e várias outras) mostrou que o ponto mais forte desse Corinthians bicampeão brasileiro é a força do seu conjunto. Título merecido.

Diany foi a principal jogadora da finalíssima com ótimos passes, apurada visão de jogo e muita inteligência para encontrar espaços na defesa do Avaí/Kindermann. O lançamento para Vic Albuquerque fazer o quarto gol do Corinthians foi simplesmente sensacional. Foto: Reprodução / Twitter / Brasileirão Feminino

Impossível não ficar feliz e esperançoso com a qualidade do futebol apresentado nesse domingo (6). E é preciso dizer que o Avaí/Kindermann se consolida como uma das grandes forças da modalidade no Brasil. O projeto é seríssimo e conta com um treinador do quilate de Jorge Barcellos. Além disso, nomes como Júlia Bianchi, Duda, Camila e Bruna Calderan podem e devem marcar presença nas próximas convocações da Seleção Brasileira. No entanto, o Corinthians de Arthur Elias ainda é o time a ser batido no Brasil. Primeiro pelo elenco qualificado que o treinador tem à sua disposição. E depois pela maneira como cada uma das jogadoras ama esse esporte. Dá pra sentir isso em cada toque, em cada lançamento e em cada gol. Não é à toa que este que escreve sempre disse que é muito agradável ver essa equipe jogando futebol. Esse Corinthians já é histórico. Sem nenhum exagero.

Essa final do Brasileirão Feminino também é mais uma prova de como a modalidade evoluiu aqui por essas bandas. Os jogos são emocionantes, a qualidade dos times aumentou e nossas jogadoras superaram as expectativas. É só dar condição de trabalho e visibilidade que as coisas acontecem. Avaí/Kindermann, Corinthians, Internacional, São Paulo, Palmeiras e outras equipes não me deixam mentir. Que venha 2021!

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