Corinthians controla o jogo, aproveita a desorganização do Palmeiras e se garante na final do Brasileirão Feminino

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa como Arthur Elias conseguiu vencer o Derby Feminino

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rodrigo Coca / Agência Corinthians

Quem acompanha a coluna PAPO TÁTICO já sabe que este que escreve já afirmou mais de uma vez que é muito difícil enfrentar o Corinthians de Arthur Elias. E o que eu e você vimos nessa segunda-feira (16) na NeoQuímica Arena foi a repetição de um filme visto muitas vezes nesse Brasileirão Feminino. A vitória por 3 a 0 sobre o Palmeiras (que esteve bastante desorganizado e afobado em determinados momentos da partida) não só garante o Timão na finalíssima contra o Avaí/Kindermann como ajuda a consolidar ainda mais a hegemonia do escrete corintiano no cenário nacional. Poliana, Yngrid e Diany marcaram os gols de uma partida que foi controlada do começo ao fim pela equipe comandada pelo técnico Arthur Elias. Mesmo jogando a baixo do que costumam jogar, mas descomplicando as coisas através da ótima execução do 4-1-4-1 e do ótimo aproveitamento nas bolas paradas.

É preciso dizer que o Palmeiras até que conseguiu competir contra o Corinthians nos primeiros minutos de partida. Tudo por conta da proposta de Ricardo Belli de espelhar a formação das adversárias na NeoQuímica Arena e negar espaços no campo ofensivo com Nicoly, Angelina e Maressa por dentro e Bianca e Ary pelos lados entrando em diagonal buscando a tabela ou o passe em profundidade para Carla Nunes. O grande problema dessa formação é que Ricardo Belli optou por deixar Isabella no banco para escalar Camilinha na lateral-direita. Não foram poucas as vezes em que a camisa 9 jogava mais por dentro fazendo o movimento natural de jogadora de meio-campo e abria o corredor para as descidas de Yasmin e Adriana. O Corinthians, por sua vez, fazia seu jogo e explorava bem os espaços que apareciam entre as linhas do Palmeiras. Aos poucos, o panorama ia se desenhando.

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Ricardo Belli armou o Palmeiras no mesmo 4-1-4-1 do Corinthians com Bianca e Ary encostando em Carla Nunes e Camilinha como lateral. Tudo para explorar os espaços que apareceriam às costas das zagueiras adversárias e para frear o ataque posicional de Arthur Elias. Foto: Reprodução / CBF TV

O gol de Poliana aos 21 minutos da primeira etapa (e na bola parada que descomplicou as coisas para o Corinthians várias e várias vezes durante o Brasileirão Feminino) praticamente acabou com o plano do Palmeiras. É bem verdade que o técnico Ricardo Belli poderia ter usado melhor o elenco e escolhido uma estratégia mais propositiva de jogo. Por outro lado, é impossível não notar que o panorama ficou extremamente complicado para a equipe alviverde a partir do momento em que o Corinthians resolveu aumentar o nível de intensidade nas transições para o ataque. Ao mesmo tempo, o time de Arthur Elias sabia como se fechar na defesa e acelerar as jogadas de ataque no lado esquerdo (onde Camilinha sofria para recompor a defesa) assim que recuperava a bola. Não foi por acaso que a goleira Lelê quase não trabalhou nos primeiros 45 minutos de jogo na NeoQuímica Arena.

O Corinthians acelerava e cadenciava o ritmo do jogo conforme a necessidade da partida. A execução dos movimentos do 4-1-4-1 tirava o espaço das adversárias e também explorava bem os espaços às costas de Camilinha no lado esquerdo de ataque. Yasmin e Adriana faziam boa partida. Foto: Reprodução / CBF TV

O grande trunfo de Arthur Elias estava na escolha das jogadoras para a partida dessa segunda-feira (16). Vic Albuquerque começou no banco e a veterana Grazi foi jogar como referência no ataque. Era a camisa 7 quem segurava a bola e distribuía os passes na intermediária para as chegadas de Crivelari, Adriana, Gabi Zanotti e Tamires. E a postura mais intensa e a marcação alta do primeiro tempo foram mantidas no segundo tempo (ainda mais diante da desorganização tática do time do Palmeiras). Thaís, Agustina e as demais jogadoras de defesa encontravam enormes dificuldades para sair jogando da defesa por conta do posicionamento do quinteto ofensivo corintiano na intermediária. Quase sempre, a saída para as palmeirenses foi apelar para as bolas longas buscando Carla Nunes (que jogava completamente isolada no ataque e pouco produziu enquanto esteve em campo.

Arthur Elias trocou peças, deu sangue novo ao Corinthians, mas não mudou a postura da sua equipe. O Timão seguiu marcando o Palmeiras no campo de ataque e explorando a desorganização tática e a afobação das suas adversárias na NeoQuímica Arena. Ótimo jogo coletivo do Timão. Foto: Reprodução / CBF TV

A ótima atuação coletiva do Corinthians (mais uma) só poderia resultar em gols. E, ao contrário do que aconteceu no jogo de ida, a bola resolveu entrar dessa vez. Primeiro com o golaço olímpico marcado por Ingryd aos 45 minutos da segunda etapa. E depois com mais uma ótima demonstração de como esse time de Arthur Elias já “joga de memória”. Gabi Portilho recebeu na entrada da área e percebeu que Ingryd se lançava às costas de Karla Alves pelo lado direito. A camisa 5 rolou com açúcar e afeto para Diany chutar cruzado e vencer a goleira Vivi (que acabou traída pelo desvio em Agustina). Mesmo atuando com quase todo seu sistema ofensivo reserva, o Corithians conseguia explorar os espaços que apareciam à sua frente e mostrava (mais uma vez) que ainda é uma equipe muito difícil de ser batida. Ainda mais quando resolve ditar o ritmo das jogadas de ataque.

Diany está no início da jogada e se preparando para atacar o espaço que vai aparecer entre as linhas do Palmeiras. Gabi Portilho recebe na entrada da área, passa para Ingryd e que rola para a camisa 8 decretar a vitória de uma equipe que já “joga de memória” há bastante tempo. Foto: Reprodução / CBF TV

Mesmo com a superioridade do escrete corintiano, algumas perguntas precisam ser respondidas por Ricardo Belli. Há como se justificar a escalação de Camilinha na lateral por conta da sua convocação como jogadora da posição por Pia Sundhage na Seleção Brasileira. Mas apelar para improvisações num jogo decisivo como esse só deu munição para as comandadas de Arthur Elias, que basearam seu jogo nos passes no chão e na troca de posições entre Grazi, Adriana e Crivelari. E mesmo quando poderia colocar Isabella e posicionar Camilinha na posição onde se sente mais confortável, Ricardo Belli seguiu mexendo no esquema tático e na disposição das suas jogadoras sem encontrar a consistência necessária para competir com o Corinthians. Se não fosse a ótima atuação de Angelina (a melhor em campo na opinião deste que escreve), as coisas poderiam ter ficado ainda mais complicadas.

As finais do Brasileirão Feminino (marcadas para os dias 22 de novembro e 6 de dezembro) nos reservam um verdadeiro duelo tático entre Arthur Elias e Jorge Barcellos. São os dois melhores projetos do futebol feminino no Brasil e duas grandes equipes. Corinthians e Avaí/Kindermann já provaram mais de uma vez que a modalidade só cresce em termos de qualidade aqui por essas bandas.

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