América-MG abusa da intensidade nas transições para superar o Vitória e encaminhar o acesso para a Série A

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca o trabalho de Lisca Doido à frente do Coelho e a goleada sobre o Leão Baiano

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Mourão Panda / América-MG

Este que escreve já disse certa vez que o trabalho de Lisca não tem nada de “Doido”. Suas equipes são competitivas, têm muita organização, sabem jogar com a bola no chão e abusam da intensidade nas transições. É bem verdade que muita gente ainda teima em enxergar o treinador do América-MG como mais um “personagem” do sempre “folclórico” futebol brasileiro. Só que a goleada sobre um cada vez mais frágil e cada vez mais perdido Vitória neste sábado (9), na Arena Independência, e a campanha do Coelhão no Brasileirão da Série B nos mostram exatamente o contrário. Lisca vem mostrando que é um ótimo treinador ao praticamente garantir o acesso da sua equipe para a Série A. E isso sem mencionar que o América-MG já havia surpreendido muita gente ao causar muitos problemas para o Palmeiras de Abel Ferreira nas semifinais da Copa do Brasil. Lisca faz um baita trabalho.

As posições de América-MG e Vitória na tabela do Brasileirão da Série B já eram suficientes para comprovar a qualidade do trabalho de Lisca Doido e a péssima fase do Leão Baiano. É bem verdade que os comandados de Rodrigo Chagas tentaram se lançar ao ataque nos primeiros minutos partida na Arena Independência. No entanto, não demorou muito para que o Coelho tomasse conta do jogo a partir dos movimentos bem executados do 4-1-4-1/4-3-3 de Lisca Doido. Muita intensidade nas transições para o ataque, muito volume de jogo e muita movimentação para abrir espaços na defesa adversária. A disposição tática do escrete mineiro no lance do gol marcado por Rodolfo (o primeiro da noite) mostra os laterais Daniel Borges e Sávio atacando por dentro, Zé Ricardo, Alê e Juninho pisando na área e os ótimos Ademir e Felipe Augusto abrindo o campo. Eram oito atletas no campo de ataque ao todo.

Laterais atacando por dentro (nos círculos), meio-campo pisando na área e “pontas” dando amplitude. O América-MG deu aula de ocupação inteligente dos espaços no lance do primeiro gol da equipe, marcado por Rodolfo aos dezenove minutos da primeira etapa. Foto: Reprodução / SPORTV

Os números do SofaScore também ajudam a comprovar essa superioridade do América-MG de Lisca Doido diante do Vitória. Foram 52% de posse de bola com 25 finalizações a gol (com onze delas indo na direção do gol de César) contra doze do escrete baiano. O número de faltas (15 contra 13 do Leão Baiano) também mostra uma equipe aguerrida na marcação e na pressão pós-perda. Os comandados de Rodrigo Chagas sofriam para segurar seu adversário e também para fazer a bola chegar nos pés de Léo Ceará (vice-artilheiro da Série B com 13 gols) com um mínimo de qualidade. O meio-campo mais encorpado com Lucas Cândido, Guilherme Rend e Fernando Neto não conseguiam dar conta da marcação e os laterais Leandro Silva e Rafael Carioca sofreram bastante com os avanços de Felipe Augusto e Ademir (este o melhor em campo na humilde opinião deste que escreve). Superioridade incontestável em todos os quesitos.

Não é difícil concluir que a mesma organização que Lisca Doido vista nos momentos ofensivos do América-MG também eram amplamente notadas na defesa. O já citado 4-3-3 se desdobrava num 4-1-4-1 bastante compactado e que negava espaços ao recuar seus “pontas” para auxiliar o trabalho dos laterais. Quem via o jogo na Arena Independência deve ter ficado com a impressão de que o Coelhão se organizava com uma linha de cinco ou até uma linha de seis jogadores na frente da área defendida pelo goleiro Matheus Cavichioli. Todos os movimentos eram coordenados e realizados com o objetivo de permitir que o escrete mineiro colocasse bastante intensidade nos contra-ataques. Principalmente com Juninho e Alê pisando na área e com Zé Ricardo organizando a saída de bola. A goleada de 4 a 0 mostrou a força e a organização de um América-MG cada vez mais próximo da elite do futebol brasileiro.

Ademir e Felipe Augusto fechavam o lado do campo e auxiliavam os laterais na perseguição ao adversário. Tudo para recuperar a bola o mais rápido possível e acelerar os contra-ataques. O América-MG de Lisca Doido consegue alternar diferentes estilos dentro de uma mesma partida. Foto: Reprodução / SPORTV

É interessante notar que o Coelhão não baixou o nível da sua atuação neste sábado nem mesmo quando Lisca Doido sacou cinco jogadores mais para o final da partida. Tanto que Neto Berola marcou duas vezes em três minutos em jogadas rápidas de contra-ataque que contaram com a participação de quase toda a equipe. Alguns podem até dizer que o Vitória (que luta contra o rebaixamento para a Série C) facilitou demais a vida do América-MG ao não compactar as suas linhas e permitir que seu adversário tivesse campo para jogar. Este que escreve, no entanto, vê muito mais uma equipe que impôs seu estilo dentro de seus domínios. Impossível não observar o “dedo” de Lisca Doido, um treinador que ainda é visto como “folclórico”, “doido” e outros adjetivos mais depreciativos por boa parte da imprensa esportiva, mas que vem mostrando trabalhos consistentes por onde passa. Ele e Guto Ferreira.

Com o resultado obtido neste sábado (9), o América-MG está praticamente garantido na Série A em 2021. E com todos os méritos de jogadores, comissão técnica e diretoria. O trabalho de Lisca Doido é consistente, competitivo e já rende frutos generosos. Primeiro uma semifinal de Copa do Brasil. E agora, o acesso para a elite do futebol brasileiro e a possibilidade de conquistar mais um Brasileirão da Série B.

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