O Santos de Pelé, o Palmeiras de Mazzola e o jogo mais emocionante que o futebol brasileiro já apresentou

Em matéria especial para a coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira conta a história da partida válida pelo Torneio Rio-São Paulo de 1958

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Site oficial / Santos Futebol Clube

Pode um jogo que não vale absolutamente nada além do cumprimento de tabela ser chamado de “o mais emocionante de todos os tempos”? Antes de responder, meu caro amigo, permita que esse colunista conte a história dessa partida válida pela terceira rodada do antigo (e altamente prestigiado naqueles tempos mais românticos do nosso futebol) Torneio Rio-São Paulo de 1958. O Estádio Paulo Machado de Carvalho (o sempre glorioso Pacaembu) recebia Palmeiras e Santos para aquele que seria “apenas” mais um confronto entre duas das equipes mais fortes do país a pouco mais de três meses do início da Copa do Mundo da Suécia. De um lado, o Peixe de Pepe, Zito, do já experiente Jair Rosa Pinto e de um jovem promissor chamado Pelé. Do outro, o Verdão de Waldemar Fiúme, Valdemar Carabina e Mazzola. Os 43 mil torcedores presentes veriam a história ser escrita diante de seus olhos.

Quinta-feira, dia 6 de março de 1958. Além da expectativa dos torcedores de Palmeiras e Santos por mais um confronto entre os times comandados pelos vitoriosos Oswaldo Brandão e Lula, havia também o desejo dos jogadores de garantirem seu lugar na Seleção Brasileira para a disputa do Mundial da Suécia, que seria realizado no mês de junho daquele mesmo ano. Vale destacar que o Torneio Rio-São Paulo era uma das competições de maior destaque do Brasil naquela época e que acirrava ainda mais a rivalidade entre os dois centros mais fortes do futebol naqueles tempos. O Palmeiras havia conquistado o título em 1951 e o Santos (que ainda não era “aquele” Santos) ainda buscava a sua primeira taça. Certo é que os clubes de São Paulo queriam evitar que um clube do Rio de Janeiro levasse o caneco mais uma vez, como aconteceu com o Fluminense de Telê, Waldo e Escurinho na edição de 1957.

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É interessante notar que a imprensa paulista tratava o Palmeiras como a “sensação do campeonato” até aquele momento. O escrete comandado por Oswaldo Brandão estreou no Torneio Rio-São Paulo vencendo o Fluminense por 2 a 1 e venceu o São Paulo na segunda rodada pelo mesmo placar. Além do então jovem atacante Mazzola, a equipe contava com o experiente Waldemar Fiúme, com o seguro Valdermar Carabina na zaga e com o rápido Urias na ponta-esquerda. O Santos já contava com a base que faria história nos anos 1960: Zito, Dorval, Pepe, Dalmo e um ainda bastante jovem Pelé. Além destes, Jair Rosa Pinto comandava o meio-campo na transição do WM para o 4-2-4 iniciada pelo húngaro Béla Guttmann no São Paulo e observada de perto por Vicente Feola. Alguns jogadores que entraram em campo nesse dia 6 de março de 1958 seriam fundamentais na conquista da Copa do Mundo dali a alguns meses.

Santos vs Palmeiras - Football tactics and formations

As escalações iniciais de Palmeiras e Santos e a disposição dos jogadores dentro de campo já mostravam que o WM de outrora estava ficando para trás e que o 4-2-4 estava tomando conta do futebol brasileiro. Destaque para a verdadeira constelação que adentrou o gramado do Pacaembu naquele dia 6 de março de 1958.

A partida começou com o Palmeiras se lançando ao ataque e abrindo o placar logo aos 18 minutos com o rápido ponta-esquerda Urias. Só que o Santos não se intimidou com a “sensação do campeonato” e empatou aos 21 minutos com Pelé e virou o jogo com o lendário atacante Pagão aos 25. Nardo (atacante que brilhou no Corinthians no início dos anos 1950 e vinha de uma passagem ruim pela Juventus de Turim) empatou a partida no minuto seguinte. A torcida do Palmeiras voltou a cantar forte no Pacaembu, mas a alegria durou pouco: Dorval fez o terceiro do Peixe aos 32 minutos e Pepe marcou aos 38 e Pagão fez o quinto aos 44 minutos da primeira etapa. O placar no Pacaembu apontava 5 a 2 para o Santos assim que o árbitro João Etzel Filho apitou o final do primeiro tempo. “Cinco vira, dez acaba! É hoje que vamos dar de dez no Palmeiras!”, gritava um empolgadíssimo Zito no vestiário.

De acordo com o atacante Mazzola (jogador que se transformaria em grande ídolo das torcidas da Juventus e do Milan nas décadas de 1960 e 1970), o goleiro Edgar começou a chorar por causa da goleada (e das críticas da torcida palmeirense) e não queria mais entrar em campo. Oswaldo Brandão (técnico que merece um especial aqui neste espaço por conta de toda a sua enorme contribuição no futebol brasileiro) mandou o reserva Vítor para o jogo (além dos atacantes Maurinho e Caraballo) e exigiu que seus jogadores tivessem “vergonha na cara” quando retornassem para o segundo tempo. Com todo o escrete alviverde extremamente motivado e com o Santos pensando que teria a mesma facilidade que encontrou na primeira etapa, os mais de 43 mil torcedores presentes no Pacaembu seriam testemunhas de uma das maiores partidas da história do futebol brasileiro (e mundial também).

Pepe, o “Canhão da Vila”,  foi um dos melhores jogadores em campo. Foto: Gisa Macia / Fotos Públicas

Aos 16 minutos do segundo tempo, Paulinho cobrou pênalti e fez o terceiro do Palmeiras. Mazzola animou ainda mais a torcida do Verdão ao marcar duas vezes (aos 20 e aos 28 minutos) e decretar um empate que parecia impossível antes do intervalo: 5 a 5 e uma grande festa dos torcedores alviverdes. Agora, imaginem só a explosão de alegria no Pacaembu quando Urias marcou seu segundo gol na partida (aos 32 minutos) e virou o placar a favor do Palmeiras. No entanto, se os 6 a 5 pareciam ter sacramentado uma reação que desafiava completamente a lógica, o Santos não estava morto. Quatro minutos depois do gol de Urias, Pepe (o famoso “Canhão da Vila”) empatou a partida novamente. Por fim, aos 41 minutos do segundo tempo, o mesmo camisa 11 do Peixe recolocava sua equipe na frente e fechava o placar da partida mais emocionante já ocorrida no futebol brasileiro.

Esse jogo foi tão insano que cinco pessoas morreram por conta de toda a emoção. Por mais que o folclore do futebol brasileiro esteja repleto de histórias, é possível encontrar relatos em jornais e revistas da época de pessoas que faleceram por síncopes do coração durante e depois da partida. Três destas foram registradas. E uma das mortes teria ocorrido dentro do Pacaembu. Infelizmente, os registros desse confronto em vídeo são muito raros e as poucas imagens que restaram foram disponibilizadas pelo cineasta Aníbal Massini no filme “Pelé Eterno”. E o mais interessante de tudo é que nem Santos e nem Palmeiras ficaram com o título do Torneio Rio-São Paulo de 1958. A taça acabou ficando com o Vasco de Barbosa, Bellini, Orlando Peçanha, Sabará, Pinga e Vavá após uma goleada sobre a Portuguesa de Desportos (de Ipojucan e Djalma Santos) por 5 a 1 no Estádio do Pacaembu.

Poucos meses depois, Pelé, Mazzola, Pepe e Zito estariam na Suécia com a Seleção Brasileira na conquista da Copa do Mundo. E aquele jogo épico entraria para a história do nosso futebol como um dos mais emocionantes que já vimos aqui por essas bandas. Posteriormente, o Palmeiras se transformaria na lendária “Academia” e o Santos se tornaria uma equipe que conquistou o coração do torcedor com títulos e grandes exibições.

FONTES DE PESQUISA:

Santos 7 x 6 Palmeiras, em 1958: um jogo para a história
RSSSF Brasil
Canal Pepe 11 / YouTube
Site oficial do Santos Futebol Clube
Camisa 8 – Futebol, história e política

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