A fibra e a força mental de um Palmeiras que venceu a Libertadores e pintou a América do Sul de verde; confira a análise

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória suada dos comandados de Abel Ferreira sobre o Santos de Cuca

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Conmebol Libertadores

É bem verdade que o jogo que decidiu o campeão da Copa Libertadores da América de 2020 esteve muito abaixo de todas as expectativas. O forte calor na cidade do Rio de Janeiro, o nervosismo da partida única da final e todo o contexto imposto pela pandemia de COVID-19 (com direito a muita aglomeração nas cadeiras do Maracanã) são alguns fatores que podem justificar a atuação ruim de Palmeiras e Santos durante mais de uma hora e meia de futebol ruim. Acabou que o escrete comandado por Abel Ferreira teve mais força mental e muito mais concentração para ficar com o título num gol que nasceu logo depois de um cartão vermelho bastante discutível, mas que poderia ter sido evitado por Cuca. No lance seguinte, um predestinado Breno Lopes marcou o gol do título tão ambicionado por diretoria e comissão técnica nos últimos anos. A América do Sul é verde. E com toda a justiça, meus amigos.

Todo o panorama que antecediam a busca pela Glória Eterna no Maracanã fez com que Abel Ferreira e Cuca apostassem na cautela e também numa certa dose de pragmatismo. O treinador português montou o Palmeiras com Danilo, Zé Rafael, Gabriel Menino e Raphael Veiga num 4-2-3-1/4-1-4-1 que fechava bem a defesa e esperava o adversário no seu campo para acelerar com bolas longas para Luiz Adriano e Rony no ataque. Já o técnico do Peixe apostou na entrada de Sandry no lugar de Lucas Braga para ter a posse da bola e acionar Marinho e Soteldo nas costas de Marcos Rocha e Viña e Kaio Jorge no comando de ataque. Não tivemos lá tantas chances de gol nos primeiros 45 minutos e a partida acabou ficando concentrada no meio, com muitas faltas e eventuais arrancadas pelos lados. O nervosismo dos jogadores de Santos e Palmeiras era evidente e o forte calor que fazia no Rio de Janeiro também influenciava demais no andamento da partida.

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Santos vs Palmeiras - Football tactics and formations

Abel Ferreira e Cuca resolveram reforçar o meio-campo e apostaram em formações mais cautelosas para a decisão da Libertadores. O Palmeiras buscava o ataque com bolas longas para Rony e Luiz Adriano e o Santos valorizava a posse da bola e tentava explorar a velocidade de Marinho e Soteldo pelos lados do campo.

A falta de criatividade das duas equipes e todo o nervosismo já mencionado por este que escreve acabaram dando o tom do primeiro tempo no Maracanã. Tanto que não foi por acaso que Abel Ferreira e Cuca soltaram mais suas equipes na etapa final (talvez para evitar uma prorrogação e uma decisão por pênaltis que seriam ainda mais desgastantes para as suas equipes). Só que quem voltou melhor do intervalo foi o Palmeiras. O escrete alviverde tentou ocupar o campo de ataque e cercar a área defendida por John Victor com Gabriel Menino se juntando a Raphael Veiga, Rony e Luiz Adriano e explorando bem os espaços que apareceram na frente da zaga adversária. O Santos respondeu com Lucas Veríssimo completando cruzamento de Marinho e fazendo com que Weverton apenas torcesse para a bola não entrar no seu gol. Do outro lado, Rapahel Veiga quase abriu o placar cobrando falta da intermediária.

Com Lucas Braga no lugar de Sandry o Santos retornou ao 4-2-3-1 que amassou o Boca Junior na Vila Belmiro. Abel Ferreira respondeu com a entrada de Patrick de Paula no lugar de Zé Rafael. Mas quem levou mais perigo foi o Peixe com boas chances criadas por Diego Pituca e Kaio Jorge, mas sem tanto perigo para Weverton. E quando todos nós já nos preparávamos para a prorrogação, Cuca foi expulso depois de confusão com Marcos Rocha na beira do gramado. Há como se discutir se o cartão vermelho aplicado pelo argentino Patricio Loustau foi justo. O que não se discute é que o técnico santista poderia muito bem ter evitado essa situação simplesmente deixando que os gandulas fizessem a reposição da bola no campo. E logo depois que Cuca foi para as cadeiras do Maracanã, o predestinado Breno Lopes completou cruzamento de Rony e marcou aquele que seria o gol do título da Copa Libertadores da América.

Palmeiras vs Santos - Football tactics and formations

Madson e Wellington Tim estavam em campo há pouquíssimo tempo quando Breno Lopes completou cruzamento de Rony para as redes. Expulso depois de confusão com Marcos Rocha, Cuca viu sua equipe desmoronar depois do gol de Breno Lopes. As mexidas de Abel Ferreira surtiram muito mais efeito do que as promovidas pelo técnico santista.

Este que escreve ainda tenta entender as mexidas de Cuca após a entrada de Lucas Braga. A entrada de Madson no meio-campo (com Marinho e Lucas Braga abrindo espaços como referências móveis no ataque) poderia ser útil. Mesmo tendo ciência de que Kaio Jorge era preocupação constante de Luan e Gustavo Gómez. As grandes dúvidas ficam por conta das entradas do garoto Wellington Tim como lateral na vaga deixada por Felipe Jonatan. Cuca acabaria sendo expulso (repetimos: num lance em que poderia ter sido evitado pelo próprio treinador santista) justo no momento em que sua equipe precisava de alguém que orientasse os jogadores e corrigisse o posicionamento defensivo. O lance do gol de Breno Lopes (ver vídeo acima) nasceu justamente dessa desorganização causada pelas mexidas de Cuca numa tentativa de explorar a velocidade dos seus atletas numa prorrogação que não aconteceu.

Impossível não perceber mais uma vez que os “roteiristas” dessa história reservaram o melhor para o final. Assim como aconteceu em 2019 com a virada improvável do Flamengo sobre o River Plate. A entrada do predestinado Breno Lopes no lugar do ótimo Gabriel Menino só mostrou como Abel Ferreira conhece seu elenco e como ele consegue explorar todo o potencial dos seus jogadores. O Palmeiras teve fibra para segurar o nervosismo (e o calor infernal da Cidade Maravilhosa) e muita força mental para superar todos os obstáculos que teve pela frente nessa Libertadores. E as lágrimas do treinador português ao falar da saudade de casa e da família foram capazes de tocar o mais duro dos corações. E tudo isso em tempos de pandemia de COVID-19, aglomerações e uma série de outros problemas. Abel Ferreira já escreveu seu nome na história gloriosa do Palmeiras com toda a certeza.

A Copa Libertadores da América está em ótimas mãos. Venceu a equipe que melhor se planejou para a competição e que teve mais concentração nos momentos decisivos. E a vitória sobre um Santos que superou três campeões continentais na fase eliminatória e que conseguiu tirar forças sabe Deus de onde para chegar na decisão só valoriza o título de um Palmeiras que trabalhou e trabalha sério. Apesar de algumas decisões descabidas de seus dirigentes. A América do Sul é verde!

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