Felipe Conceição estreia no comando do Cruzeiro mostrando boas ideias e com muitos problemas para resolver

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa o empate da Raposa com o Uberlândia na abertura do Campeonato Mineiro de 2021

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Gustavo Aleixo / Cruzeiro

O Cruzeiro é um dos muitos gigantes do futebol brasileiro que terão um ano de 2021 focado na recuperação financeira e na busca de dias melhores dentro de campo. A escolha da diretoria celeste por Felipe Conceição para substituir Felipão no comando da equipe está baseada exatamente nessa premissa. A estreia oficial do novo treinador da Raposa aconteceu neste sábado (27), no empate em 1 a 1 com o Uberlândia, em jogo válido pela primeira rodada do Campeonato Mineiro. A atuação da Raposa já mostrou que Felipe Conceição vem implementando boas ideias na construção das jogadas de ataque e uma formação interessante que traz o experiente Rafael Sóbis como referência móvel num 4-2-3-1 bem organizado. Por outro lado, o novo técnico do Cruzeiro também teve a perfeita noção de que sua equipe ainda tem muitos problemas que precisam de solução. Principalmente no sistema defensivo.

Felipe Conceição é o tipo de treinador que gosta de montar equipes que ocupam o campo ofensivo e que buscam o gol através de passes curtos na frente da área adversária. Essa postura ajuda a explicar os motivos que levaram o treinador do Cruzeiro a optar por um 4-2-3-1 mais móvel com Rafael Sóbis no comando de ataque, mas saindo da área para que Felipe Augusto e William Pottker entrassem em diagonal no espaço gerado por essa movimentação. O objetivo aqui era bem claro: desarrumar a defesa do Uberlândia (que se fechou na defesa depois que Reis abriu o placar aos 25 minutos do primeiro tempo) e explorar a rapidez dos pontas cruzeirenses. E dentro dessa estratégia também havia Marcinho. O meia central também aparecia na frente sempre que Sóbis recuava para armar o jogo. Na prática, o 4-2-3-1 se desdobrava numa espécie de 4-2-2-2 com duas referências móveis sempre que o Cruzeiro tinha a bola.

O Cruzeiro iniciou a partida ocupando o campo de ataque e utilizando a movimentação do seu quarteto ofensivo para abrir espaços na defesa do Uberlândia. Rafael Sóbis e Marcinho recuavam para William Pottker e Felipe Augusto explorarem as costas da linha defensiva em diagonal. Foto: Reprodução / Premiere

A estratégia de Felipe Conceição serviu para que o Cruzeiro abrisse espaços na defesa do Uberlândia. Só que os problemas coletivos da equipe (relatados aqui mesmo neste espaço mais de uma vez por este que escreve) persistiam. Felipe Augusto, Marcinho, Rafael Sóbis e Matheus Barbosa desperdiçaram grandes chances na frente do bom goleiro Marcão. Ao mesmo tempo, a preferência d o técnico da Raposa por linhas mais altas de marcação e pela defesa mais adiantada cobrou seu preço aos 25 minutos do primeiro tempo, quando Reis abriu o placar após belo passe do lateral-direito Everton às costas de Alan Ruschel. O lance do gol do Uberlândia também mostrou que o Cruzeiro ainda é muito lento nas transições para a defesa. Principalmente a dupla de zaga formada por Manoel e Weverton. Não é difícil perceber que o Cruzeiro pode se complicar muito contra equipes mais qualificadas jogando assim.

A recomposição defensiva lenta e as falhas nas conclusões a gol são dois problemas que exigem a atenção de Felipe Conceição nesses primeiros jogos. O lance do gol do Uberlândia mostrou que a linha defensiva mais alta ainda precisa de ajustes para fechar espaços e bloquear os contra-ataques. Foto: Reprodução / Premiere

O segundo tempo da partida no Parque do Sabiá foi marcado pelo volume de jogo do Cruzeiro na busca dos gols que tanto precisava e das defesas do goleiro Marcão. Foram pelo menos três grandes defesas do camisa 12 do Uberlândia nos 45 minutos finais e os mesmos erros nas conclusões a gol e nas tomadas de decisões no terço final. Problemas até certo ponto naturais por conta do início de temporada. Mesmo assim, Felipe Conceição conseguiu dar sangue novo ao Cruzeiro com as entradas de Claudinho, Airton, Thiago e Matheus Pereira nos lugares de Matheus Barbosa, Felipe Augusto, Marcinho e Alan Ruschel respectivamente. Tanto que a Raposa chegou ao gol de empate a equipe jogando praticamente num 3-2-5 e com Rafael Sóbis servindo Raul Cáceres por dentro. Tudo para dar profundidade e empurrar a defesa do Uberlândia para trás. Mais uma boa sacada do promissor Felipe Conceição.

Felipe Conceição melhorou a produção ofensiva do Cruzeiro com suas substituições, mas viu sua equipe desperdiçar grandes chances de empatar a partida. O gol da salvação só veio quando Raul Cáceres apareceu por dentro numa espécie de 3-2-5 que empurrou a defesa do Uberlânda para trás a abriu ainda mais espaços. Foto: Reprodução / Premiere

Parece óbvio, mas não custa nada lembrar que Felipe Conceição (assim como QUALQUER TREINADOR DO MUNDO) ainda precisa de tempo para solidificar seus conceitos, trabalhar seu estilo de jogo e resolver os problemas da equipe do Cruzeiro. Ainda mais com os seríssimos problemas financeiros do clube e com a falta de recursos para reforçar o elenco mesmo com nomes experientes como o goleiro Fábio, o zagueiro Manoel, o lateral Raul Cáceres e o atacante Rafael Sóbis. A formação inicial do Cruzeiro na partida contra o Uberlândia ajudou a potencializar os talentos dos jogadores em campo. Mas o sistema defensivo segue como a principal preocupação da comissão técnica da Raposa. Ainda mais quando o time terá pela frente (além do Campeonato Mineiro) a Copa do Brasil (competição que pode gerar uma boa renda para o clube) e um Brasileirão da Série B que promete ser o mais disputado dos últimos anos.

A vida do Cruzeiro nessa temporada de 2021 não será fácil e a partida de estreia no estadual mostrou isso. Felipe Conceição mostrou boas ideias e já deve ter percebido que sua equipe tem problemas que precisam de soluções a (pelo menos) médio prazo. Tudo para que a Raposa tenha condições de enfrentar times mais fortes e retornar para a elite do futebol brasileiro. Esse sim, o grande objetivo da diretoria celeste nessa temporada.

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