Trajetória da Ferroviária na Libertadores Feminina é mais uma prova de que o futebol é maior invenção da Humanidade

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como a equipe de Lindsay Camila venceu o América de Cali e conquistou o bicampeonato sul-americano

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Conmebol Libertadores Femenina

O futebol é a maior invenção da Humanidade depois do sorvete de flocos e do pão de queijo (e também rivaliza forte com o doce de leite). Sim, meus consagrados. Vocês já viram este colunista afirmar isso várias e várias vezes aqui e em outros espaços. Só mesmo o velho e rude esporte bretão pode nos brindar com histórias incríveis como a da Ferroviária. A equipe comandada por Lindsay Camila iniciou a Libertadores Feminina com derrota (de goleada) para o Sportivo Limpeño. Conseguiu a classificação para a segunda fase na bacia das almas, foi superando suas adversárias até chegar na decisão e superar o bom time do América de Cali neste domingo (21). Ficam para a história do futebol feminino a recuperação, a fibra e também a já conhecida “sorte de campeão” das Guerreiras Grenás. Mesmo sem jogar bem (e isso precisa ser dito), a Ferroviária fez por merecer o título. E viva o futebol feminino!

Por mais que muita gente esteja feliz com a conquista da Libertadores pelas Guerreiras Grenás, este que escreve precisa exaltar o jogo praticado pelo América de Cali e toda a estratégia elaborada pelo técnico Andrés Usme. Não demorou muito para que a Ferroviária sofresse com o ímpeto ofensivo da equipe colombiana (que esteve armada num 4-3-3/4-1-4-1 em ataque posicional). Manuela González, Gisela Robledo Gil e Wendy Bonilla empurravam a defesa para trás e abriam o espaço que Maria Catalina Usme tanto queria para distribuir e organizar o jogo. Lindsay Camila, por sua vez, manteve o 4-4-2/4-2-3-1 com Sochor atrás de Lurdinha e Aline Milene puxando os contra-ataques pelo lado esquerdo. Até a camisa 7 abrir o placar para a Ferroviária (aos sete minutos de jogo numa falha incrível da ótima goleira Katherine Tapia), o América de Cali levava perigo e dominava completamente o meio-campo.

A estratégia do América de Cali era simples. Gerar profundidade com Ospina, Robledo Gil e Bonilla empurrando a defesa da Ferroviária para trás e abrindo espaços para Catalina Usme organizar as jogadas de ataque. As Guerreiras Grenás pouco conseguiam sair do seu campo. Foto: Reprodução / YouYube / Zona Latina

Até a equipe do América de Cali se recuperar do “golpe” logo no início da partida, a Ferroviária teve alguns minutos de domínio no meio-campo. O problema é que a equipe de Lindsay Camila não conseguia segurar a bola no ataque. A melhor chance depois do gol de Sochor veio com um chute de Nicoly que passou perto do gol de Katherine Tapia e só. Aos poucos, a equipe colombiana foi voltando para o jogo e ocupando o segor ofensivo. Vale destacar aqui que o plano de jogo de Andrés Usme consistia em abrir o time da Ferroviária gerando amplitude e profundidade. Tudo para explorar o espaço que existia entre as volantes Nicoly e Luana e as “wingers” Aline Milene e Carol Tavares. E essa estratégia rendeu frutos. Aos 37 minutos, Yasmin derrubou Robledo Gil dentro da área em pênalti convertido por Catalina Usme, o seu gol de número 29 na história da Libertadores Feminina. Recordista ao lado de Cristiane.

Organizada num 4-3-3/4-1-4-1, a equipe do América de Cali tinha uma estratégia bem clara: gerar profundidade e amplitude no ataque para abrir espaços na defesa da Ferroviária. Tudo para que Catalina Usme tivesse espaço para distribuir o jogo às costas de Luana e Nicoly. Foto: Reprodução / YouYube / Zona Latina

Á Ferroviária podia pecar na falta de organização e de ideias, mas sempre sobrou quando a situação do jogo pedia mais entrega e mais raça. Aos 41 minutos, Lurdinha foi derrubada por Ocampo dentro da área e Aline Milene recolocou as Guerreiras Grenás na frente mais uma vez. No entanto, quem esperava uma partida mais equilibrada após o intervalo, viu um América de Cali ainda mais agressivo no ataque e muito mais ligado em cada lance no meio-campo. E vale destacar aqui mais uma vez como o ataque posicional organizado por Andrés Usme abria a defesa da equipe comandada por Lindsay Camila (que corrigiu o problema na compactação do seu 4-4-2 usual e costumeiro). Na “inversão da pirâmide”, era possível perceber a presença de até cinco jogadoras do América de Cali empurrando a linha defensiva da Ferroviária para trás. Tudo para gerar superioridade através do 3-2-5 usado por Andrés Usme.

O América de Cali “inverteu a pirâmide” no segundo tempo colocando até cinco jogadoras na linha ofensiva para gerar espaços e criar superioridade numérica. Do outro lado, Lindsay Camila fechava a Ferroviária no seu usual 4-4-2 muito mais compactado do que no primeiro tempo. Foto: Reprodução / YouYube / Zona Latina

A técnica Lindsay Camila mandou Géssica, Daiana e Rafa Mineira para o jogo no segundo tempo e já posicionava uma jogadora a mais na frente da zaga para conter o ataque do América de Cali. Mesmo assim, a Ferroviária sofreu com o “abafa” colombiano. Ospina acertou o travessão aos 13 minutos. Aos 21, goleira Luciana fez defesa de cinema em chute de Catalina Usme (a melhor em campo na opinião deste que escreve). E no último minuto do tempo regulamentar, Castañeda acertou o travessão ao completar cruzamento de Usme. E ainda vale lembrar que Rafa Mineira desperdiçou chance incrível de “matar o jogo” após cruzamento da direita feito por Sochor. Se as Guerreiras Grenás não mostraram muitas ideias de jogo dentro de campo, todos os problemas foram compensados com muita garra e muita dedicação. Principalmente na obediência do plano de jogo proposto por Lindsay Camila ao longo da Libertadores.

A Ferroviária se fechou ainda mais na frente da sua área, mas não abriu mão da bola longa para Sochor e Aline Milene puxarem os contra-ataques. A equipe de Lindsay Camila soube como suportar toda a pressão do América de Cali e ficou com título da Libertadores Feminina. Foto: Reprodução / YouYube / Zona Latina

O futebol está repleto de histórias de superação. E a trajetória da Ferroviária na competição sul-americana não é apenas a trajetória da equipe campeã sul-americana ou da que teve “mais sorte”. Esse elemento que traz elementos até sobrenaturais também faz parte do imaginário do velho e rude esporte bretão. Por outro lado, o que seria a sorte senão a soma de competências como vontade, determinação, organização e dedicação? A equipe comandada por Lidsay Camila (que entra para a história como a primeira mulher campeã da Libertadores Feminina como treinadora) soube se adaptar a todo o contexto desfavorável que implicava em início de temporada, o início de um trabalho completamente novo e todo o processo de adaptação entre comissão técnica e atletas. Dentro do caos que é um jogo de futebol, as Guerreiras Grenás foram mais competentes que seus adversários. E é isso que conta no final de tudo.

Lutar e vencer as adversidades é um dos principais atributos de equipes vencedoras. Elas podem não jogar um futebol que seja agradável ao gosto dos mais puristas ou que não seja tão vistoso como outros times. Mas superar adversários também é se superar dentro das quatro linhas. A Ferroviária de Lindsay Camila pinta a América do Sul de grená pela segunda vez. Contra todos os prognósticos. Por mais histórias assim no velho e rude esporte bretão.

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