Jogo coletivo foi o grande trunfo da Seleção Feminina na vitória sem sustos sobre a Rússia

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação da equipe de Pia Sundhage no penúltimo amistoso antes da disputa dos Jogos Olímpicos.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Richard Callis / SPP / CBF

Está certo que a Rússia quase não causou problemas para a Seleção Feminina. A postura da equipe foi bastante conservadora e reativa e os pontos fracos do escrete canarinho não foram testados. Mesmo assim, o grande ponto positivo na partida desta sexta-feira (11) foi a maneira como a equipe comandada por Pia Sundhage se comportou durante os noventa minutos. Linhas adiantadas, muita movimentação no terço final, trocas de posição, ultrapassagens das laterais e uma eficiente pressão pós-perda no campo adversário. Por mais que o escrete russo não tenha oferecido lá muito perigo para a meta defendida por Bárbara, o escrete canarinho deixou muito boa impressão no penúltimo teste antes da convocação final para a disputa dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Ainda que a atuação contra as russas precise ser relativizada, a Seleção Feminina soube bem como encontrar o caminho para o gol.

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A equipe comandada por Pia Sundhage se deparou com uma Rússia que marcava em bloco baixo num 4-1-4-1 compactado e que buscava as bolas longas para as atacantes Yakupova, Sheina e Pantyukhina às costas última linha brasileira. Só que a Seleção Feminina marcava muito bem a saída de bola adversária para recuperar a posse e reiniciar as jogadas de ataque. Embora Letícia Santos tenha guardado mais sua posição nos primeiros minutos, o 4-4-2 inicial do escrete canarinho se desdobrava num 4-2-2-2 extremamente móvel e intenso nas transições com Bia Zaneratto vindo buscar o jogo entre as linhas adversárias e com muitas ultrapassagens pelos lados do campo. A formação escolhida por Pia Sundhage não conseguia criar tanto por dentro e precisava da força do apoio das suas laterais para chegar na área russa. As jogadas fluíam bem e a Seleção Feminina chegava no setor ofensivo com muito volume de jogo.

A Rússia tentou se fechar na frente da sua área num 4-1-4-1, mas a Seleção Feminina conseguia achar os caminhos para a área adversária com muito toque de bola e velocidade nas transições. Destaque para as atuações seguras de Letícia Santos e Tamires nas laterais. Foto: Reprodução / YouTube / Desimpedidos

A movimentação de Marta e Debinha vindo buscar o jogo por dentro no 4-2-2-2 de Pia Sundhage permitia que Letícia Santos e (principalmente) Tamires subissem muito ao ataque para buscar a linha de fundo ou a tabela com Ludmila e Bia Zaneratto no terço final. Na defesa, a Seleção Feminina se fechava num 4-4-2 (com duas linhas na frente da área defendida pela experiente Bárbara) e buscava retomar a bola o mais rápido possível. Na prática, uma equipe muito mais móvel e que adaptava com muito mais eficiência as características de cada jogadora em campo do que em outros tempos. Fora a força nas bolas levantadas na área, ponto que teve a atenção de Pia Sundhage nos treinamentos com a equipe. Bruna Benites abriu o placar aos 41 minutos da primeira etapa após cobrança de escanteio de Andressinha no lado esquerdo. A vantagem fazia justiça à atuação do escrete canarinho em Cartagena.

Pia Sundhage apostou num 4-4-2/4-2-2-2 para encaixar os talentos de Marta, Debinha, Formiga, Bia Zaneratto e outras jogadoras sem que a Seleção Feminina perdesse o equilíbrio. A Rússia pouco ameaçou, mas o time se comportou bem durante os noventa e poucos minutos. Foto: Reprodução / YouTube / Desimpedidos

A sueca Pia Sundhage mexeu na Seleção Feminina após o intervalo da partida e deu minutos para Poliana, Júlia Bianchi, Adriana, Jucinara, Andressa Alves e Giovana. O 4-4-2/4-2-2-2 não foi modificado e a equipe brasileira seguia com muito mais força pelos lados do campo e com a marcação mais frouxa por dentro. Só que a Rússia pouco apareceu no campo de ataque com as mexidas do Yuri Krasnozhan (que trocou o 4-1-4-1 pelo 4-4-2 no segundo tempo) e ainda concedia muitos espaços na sua defesa. Bruna Benites faria o segundo (aos 18 minutos da segunda etapa) em nova cobrança de escanteio realizada por Andressa Alves do lado direito. A camisa 7 ainda faria o terceiro (aos 35 minutos) em jogada iniciada da direita e que terminou com a brasileira escorando para o gol vazio. Apesar da equipe mais “paradona” nos 45 minutos finais, a Seleção Feminina manteve o volume de jogo e a forte marcação no meio-campo.

A Seleção Feminina manteve a postura mais agressiva na marcação no segundo tempo ainda que Andressa Alves tenha vindo jogar um pouco mais por dentro em determinados momentos. A Rússia, por sua vez, pouco conseguia fazer diante de tanto volume de jogo em Cartagena. Foto: Reprodução / YouTube / Desimpedidos

É verdade que a boa atuação contra a Rússia ainda deixou muitas perguntas sem respostas na Seleção Feminina. A começar pela defesa. Bárbara foi pouco testada na partida, assim como a linha defensiva formada por Letícia Santos, Bruna Benites, Rafaelle e Tamires. Andressinha e Formiga tinham muito espaço para iniciar a saída de bola no meio-campo sem que fossem incomodadas pelas russas. Tanto que o volume de jogo da Seleção Feminina aumentou consideravelmente depois das entradas de Júlia Bianchi e Adriana, muito mais móveis e intensas do que as mais veteranas. É compreensível que o torcedor tenha ficado empolgado com a ótima atuação coletiva da Seleção Feminina e com a maneira como Pia Sundhage se conectou ao grupo nesses últimos meses. E é exatamente por isso que é preciso ter calma e não criar expectativas falsas. Ainda mais quando a sua última lista esteve cercada de polêmicas.

Mas a grande virtude de uma líder é saber ouvir seu grupo. E Pia Sundhage o fez. Não é exagero nenhum afirmar que essa Seleção Feminina foi cirúrgica nas mensagens passadas antes, durante e depois da partida contra a Rússia. Discutiu-se muito mais o fato dos jogadores da equipe masculina não quererem jogar a Copa América do que a acusação de assédio sexual envolvendo Rogério Caboclo. A manifestação correta e sem concessões foi forte e precisa. Como sempre.

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