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Falta de mobilidade, nervosismo e influência dos bastidores: a agitada noite da Seleção Brasileira no Beira-Rio

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Tite na vitória sobre o Equador pelas Eliminatórias da Copa do Mundo

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Você já leu mais de uma vez aqui nesse espaço que futebol é contexto. Não há como fugir disso. Tudo aquilo que é produzido dentro de campo sofre a influência de vários fatores internos e externos. E quando se analisa a vitória da Seleção Brasileira sobre o Equador nessa sexta-feira (4), no Beira-Rio, é preciso ter em mente que a crise profunda da CBF e a clara insatisfação dos jogadores e comissão técnica com Rogério Caboclo se fez presente dentro de campo. Não que isso justifique a atuação ruim dos comandados de Tite. Veremos mais adiante que o treinador do escrete canarinho ainda precisa resolver problemas crônicos na sua equipe e que algumas das suas escolhas são sim questionáveis. Mas não há como se separar tanto as coisas como alguns defendem. O clima péssimo dos bastidores se fez presente dentro de campo e influenciou sim na atuação da Seleção Brasileira.

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Na parte tática, é preciso dizer que o Brasil fez um primeiro tempo muito abaixo das suas capacidades. Muito por conta das escolhas de Tite para a equipe que iniciou a partida contra o Equador. O treinador optou pelo 4-3-3 com Neymar circulando por todo o campo a partir da esquerda, Fred agindo como uma espécie de “segurança” do camisa 10 naquele setor, Lucas Paquetá por dentro e Richarlison mais à direita fechando o meio-campo quando o escrete canarinho não tinha a posse da bola. Mais à frente, Gabigol aproveitava bem o espaço entre Arreaga e Estupiñán para entrar em diagonal na direção do gol defendido por Domínguez. No papel, era tudo muito bonito. Na prática, no entanto, a Seleção Brasileira sofreu com a falta de mobilidade no campo ofensivo e mostrou muitas dificuldades para superar a forte marcação equatoriana. Até aí, Gustavo Alfaro vinha levando a melhor sobre Tite.

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Gabigol levava certa vantagem sobre a zaga do Equador, mas a Seleção Brasileira como um todo não fez um bom primeiro tempo. Fred e Lucas Paquetá pareciam perdidos no posicionamento e os laterais Danilo e Alex Sandro pouco participavam das jogadas. Foto: Reprodução / TV Globo

É preciso dizer que a Seleção Brasileira não perdeu o controle do jogo em nenhum momento. Mas faltava intensidade e mobilidade à equipe comandada por Tite. Se Danilo fazia partida razoável como “lateral-armador” jogando um pouco mais por dentro (na inversão para o 2-3-5), Alex Sandro não é o tipo de lateral que vai arrancar até a linha de fundo. São características diferentes. Tanto que não foi por acaso que Tite mexeu na formação inicial após o intervalo. Com Lucas Paquetá mais à direita, Richarlison à esquerda e Neymar muito mais próximo de Gabigol, a Seleção Brasileira passou a jogar num 4-4-2/4-2-4, mas ainda sem a intensidade necessária para furar o bloqueio defensivo do Equador de Gustavo Alfaro. Ainda faltava a pressão ofensiva tão desejada por Tite no terço final e a movimentação necessária para desarrumar a última linha do adversário desta sexta-feira (4).

Lucas Paquetá foi jogar pelo lado direito no 4-4-2 elaborado por Tite logo após o intervalo. A Seleção Brasileira melhorou sua produção ofensiva, mas ainda sem a intensidade necessária para desarrumar a última linha defensiva do Equador de Gustavo Alfaro. Foto: Reprodução / TV Globo

O escrete canarinho só deslanchou mesmo com a entrada de Gabriel Jesus no lugar de Fred. Agora organizada num 4-2-3-1 com dois jogadores de velocidade pelos lados, Neymar circulando por dentro e Lucas Paquetá jogando mais recuado (justamente na posição onde se sente mais confortável), a equipe comandada por Tite finalmente conseguiu gerar profundidade e amplitude com a movimentação do seu quarteto ofensivo. E foi justamente na pressão pós-perda que o Brasil abriu o placar com Richarlison em lance que contou com a colaboração do goleiro Domínguez. E Neymar acabou salvo pelo VAR e converteu penalidade sofrida por Gabriel Jesus aos 48 minutos. O saldo, apesar dos problemas coletivos resolvidos por Tite na segunda etapa, foi positivo. Principalmente por conta do resultado que traz (um pouco) de paz para a Seleção Brasileira em tempos tão complicados e estranhos.

A entrada de Gabriel Jesus fez com que a Seleção Brasileira se organizasse num 4-2-3-1 com dois jogadores de velocidade pelos lados e Neymar vindo mais por dentro. Tite melhorou o desempenho da Seleção Brasileira com mexidas simples. Foto: Reprodução / TV Globo

Gabigol foi importante para espaços para a chegada dos companheiros de equipe, mas desperdiçou duas chances incríveis de balançar as redes do goleiro Domínguez. Fruto de uma afobação até natural para quem não era titular da Seleção Brasileira há muito tempo. O sistema defensivo, por sua vez, se comportou de maneira impecável. Casemiro foi um monstro na frente da zaga e fez por merecer a faixa de capitão. Éder Militão e Marquinhos estiveram bem atentos à movimentação de Enner Valencia, Mena e Preciado no terço final. E o goleiro Alisson praticamente não trabalhou durante os noventa e poucos minutos. No entanto, dois momentos da partida merecem a nossa atenção. O primeiro é o abraço efusivo de Richarlison em Tite logo depois de abrir o placar no Beira-Rio. E o segundo é o depoimento de Casemiro ao repórter Eric Faria da TV Globo na saída para os vestiários.

O semblante dos jogadores antes do apito inicial, o nervosismo claro de alguns e a cara mais fechada de Tite na beira do gramado são apenas algumas das provas da influência dos bastidores da Seleção Brasileira naquilo que vimos dentro de campo. Como vimos, a equipe tem sim alguns problemas coletivos, mas ignorar completamente o que aconteceu nas horas que antecederam a vitória sobre o Equador é fechar os olhos para o óbvio. A realização da Copa América no país (que pode e deve ser questionada como toda as decisões do governo federal na gestão da pandemia de COVID-19 no Brasil), a crise sem precedentes na CBF, a simples presença de Rogério Caboclo no Beira-Rio depois das acusações de abuso sexual e toda a confusão causada por esses fatores são assuntos que não podem ser ignorados. Mas sem entrar no delírio coletivo que tomou conta das redes sociais nos últimos dias.

Os números do SofaScore (no tweet abaixo) mostram a superioridade da Seleção Brasileira sobre o Equador. O resultado positivo ajuda sim a aliviar um pouco o clima pesado que tomou conta do Beira-Rio. Mas não esconde que alguma coisa muito grave aconteceu entre Rogério Caboclo e jogadores para que TODO O GRUPO se voltasse contra o presidente da CBF. Não é difícil concluir que a noite da próxima terça-feira (8) será muito divertida para quem acompanha o escrete canarinho.

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