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É justa a presença de atletas trans no esporte? Especialista avalia o debate polêmico

Para médico e professor de Saúde LGBTQIA+, existem argumentos técnicos que explicam atletas trans nas competições

Mário André Monteiro
Jornalista com passagens por Portal iG, Fox Sports e Osasco Audax. Atualmente editor do Alemanha FC (http://www.alemanhafc.com.br). No Twitter: @alemao_mario e no Instagram: @marioalemao

Crédito: Instagram / Arquivo pessoal

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 já começaram e um fato histórico tem gerado muitas discussões entre competidores e espectadores: a presença de atletas transgêneros nos esportes.

Em geral, não há críticas quando falamos de homens trans disputando competições ao lado de homens cisgênero.

No entanto, quando invertemos a situação, é onde se inicia a polêmica. É justo mulheres trans, que nasceram em corpos com características masculinas, disputarem competições com mulheres cis?

É o caso da levantadora de peso Laurel Hubbard, de 43 anos, uma das atletas da Nova Zelândia na delegação olímpica em Tóquio 2020.

Ela é transgênero e participa da competição dentro do regulamento. Desde 2015, mudanças nas diretrizes do COI (Comitê Olímpico Internacional) permitiram que pessoas designadas como meninos ao nascimento e que se identificam como mulheres disputem na categoria feminina, cumprindo alguns requisitos.

O especialista Saulo Ciasca falou sobre esse debate polêmico. Ele é médico e coordenador de pós-graduação de psiquiatria da Sanar, além de professor de Saúde LGBTQIA+ e membro da WPATH – World Professional Association for Transgender Health.

Para Ciasca, existem argumentos técnicos que nos permitem entender o assunto.

“As regras do COI citam a exigência das mulheres trans fazerem uso de bloqueadores de testosterona, para atingir níveis abaixo de 10 nanomoles por litro por pelo menos 12 meses”, disse o médico.

“Isso reduz significativamente as funções musculares, capacidade pulmonar, quantidade de hemácias e colocam essas atletas dentro de um patamar que torna justa a competição com mulheres cis”, explicou.

O regulamento exige ainda a declaração da identificação como mulher por um período mínimo de quatro anos.

Inclusão dos trans

A dimensão inclusiva do esporte é outro fator que precisa ser levado em consideração na visão do médico e professor.

“Pessoas trans dificilmente acessam o esporte na infância ou adolescência, justamente porque estão passando por desafios em relação a aceitação do próprio corpo, enfrentando inclusive preconceito”, avaliou.

“O esporte precisa ser um ambiente de justiça e de inclusão, ver um atleta trans competir em um nível olímpico é uma grande vitória, já que foi uma caminhada com muitos obstáculos a mais do que uma pessoa cis”, afirmou Saulo Ciasca.

Estrutura corporal

Outro argumento utilizado pelas pessoas que são contrárias à participação de mulheres trans nas competições se baseia na estrutura corporal.

“De fato há uma diferença na estrutura corporal, mas essa é inerente ao esporte, inclusive entre atletas cis. Algumas pessoas são mais altas, fortes, ou tem características físicas que facilitam o desempenho em alguma atividade física e nem por isso são impedidas de competir”, explicou o médico

Saulo Ciasca esclareceu ainda que o uso dos hormônios em geral tem como consequência efeitos colaterais psicológicos, que também afetam o desempenho dos atletas.

“Tóquio 2020 traz esta novidade e as pessoas precisam se permitir conhecer o assunto para superar preconceitos e compreender como a medicina LGBTQIA+ tem atuado também neste cenário diferente”, completou.

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