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Eliminação doída da Seleção Feminina nos Jogos Olímpicos não pode interromper o processo de crescimento da modalidade

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Pia Sundhage no jogo com o Canadá e refuta o discurso de “terra arrasada” na equipe brasileira

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Sam Robles / CBF

Toda eliminação é doída. Não tem jeito. E este que escreve (assim como todos os que acordaram cedo para torcer pela Seleção Feminina) está triste com a derrota nos pênaltis para o Canadá e (principalmente) com a atuação ruim em Miyagi. É preciso deixar bem claro que a equipe comandada por Pia Sundhage poderia ter saído vitoriosa ainda no tempo normal se tivesse feito uma boa partida e repetido o desempenho que teve contra a Holanda. Há como questionar várias das escolhas da treinadora sueca com toda a certeza do mundo. O que não se pode nunca discutir é a necessidade da continuidade do seu trabalho à frente da Seleção Feminina e de todo um processo (ainda inicial) de crescimento da modalidade que tem um contexto completamente diferente do futebol masculino aqui no Brasil. Essa eliminação ainda vai doer muito. Mas é preciso ter serenidade para não cair no discurso de “terra arrasada”.

Era mais do que natural que Pia Sundhage repetisse a equipe que entrou iniciou as duas primeiras partidas da Seleção Feminina nos Jogos Olímpicos por conta do desempenho apresentado. O grande problema estava na postura das jogadoras. É verdade que o 4-4-2/4-2-4 de Pia Sundhage conseguia empurrar a defesa canadense para trás em alguns momentos, mas o que se via na prática era um certo receio de atacar e uma rotação mais baixa do que o habitual. Do outro lado, Bev Priestman armava sua equipe num 4-3-3/4-3-1-2 com a lenda Sinclair jogando como um “falso nove”. A ideia aqui era clara: atrair a marcação de Erika ou Rafaelle e aproveitar o espaço às costas de Bruna Benites e Tamires. Essa formação também deixou a Seleção Feminina espaçada demais no meio-campo. Formiga não conseguia dar conta do recado na marcação e Andressinha era lenta demais na distribuição do jogo e quase não se apresentava como opção de passe.

Bev Priestman organizou o Canadá num 4-3-3/4-3-1-2 com Sinclair jogando como “falso nove” e abrindo espaço para as chegadas de Beckie e Prince às costas de Bruna Benites e Tamires. A Seleção Feminina não conseguia sair com a bola por baixo e apelava para lançamentos longos. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

O Canadá foi inteligente ao explorar bem o espaço que havia entre a última linha brasileira e o meio-campo e tirar o espaço de Marta, Andressinha e Bia Zaneratto. Ao mesmo tempo, Debinha desperdiçava chance cristalina depois de roubar a bola de Gilles. Quem mais se destacava era Duda, jogadora que cumpria aquela que era a função mais ingrata do escrete comandado por Pia Sundhage: cobrir o corredor direito. Mesmo assim, sempre que a Seleção Feminina acelerava a troca de passes e aproveitava a rapidez das suas atletas, as jogadas fluíam perto do esperado. Mesmo assim, faltou acreditar mais nos chutes de média e longa distância e uma leitura melhor do jogo por parte de quem estava dentro e fora de campo. Tamires não podia ser a única válvula de escape da Seleção Feminina contra um Canadá muito bem organizado na frente da sua área. Mesmo assim, o Brasil dava a sensação de que poderia vencer.

Sempre que Andressinha e Formiga se apresentavam na frente e as laterais abriam o campo, o jogo da Seleção Brasileira fluía com mais efetividade. Faltou acreditar um pouco mais nas finalizações de média e longa distância e tocar a bola com um pouco mais de objetividade. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Gilles acertou o travessão no início do segundo tempo e o Canadá seguia fazendo aquilo que este colunista previu em outros momentos: explorar as costas das nossas laterais. O gol só não saiu porque Rose foi bloqueada por Erika no último instante. Já a Seleção Feminina só conseguia chegar no ataque com bolas longas e um sonoro TE VIRA para Ludmila e Debinha (que teve uma tuação muito ruim apesar do jogo estar todo desenhado para que ela brilhasse). Também faltou calma no último passe e escolhas melhores para Pia Sundhage. Sem Bia Zaneratto, a equipe brasileira acabou perdendo uma referência (ainda que móvel) no ataque. E ainda vale falar de Andressinha. A camisa 17 esteve muito mal e não conseguia dar sequência a nenhuma jogada de ataque e nem ajudar na marcação. As entradas de Geyse e Júlia Bianchi eram as alternativas claras. Mas Pia se manteve fiel às suas convicções até mesmo na prorrogação.

A Seleção Feminina só conseguia levar certo perigo ao gol da goleira Labbé na base das ligações diretas para Ludmila e Debinha. Faltava mais aproximação em todos os setores e mais movimentação para bagunçar a defesa do Canadá. Pia Sundhage fez apenas três mudanças na equipe. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Bárbara ainda chegou a defender a cobrança de Sinclair, mas Andressa Alves e Rafaelle desperdiçaram suas penalidade e o Canadá acabou ficando com a vaga nas semifinais. A Seleção Feminina deixa os Jogos Olímpicos com a sensação de que poderia ter ido muito mais longe. Talvez não brigar pela medalha de ouro, mas por um lugar no pódio em Tóquio. E por mais que este colunista tenha MUITOS questionamentos sobre as escolhas de Pia Sundhage nessa partida e durante todo o ciclo olímpico, ele reconhece que o trabalho da treinadora sueca tem uma linha muito clara de raciocínio e que essa equipe voltou a competir em alto nível depois de muito tempo. Há jogo coletivo, consistência defensiva e potencialização dos talentos. E quando se nota o contexto da chegada de Pia à Seleção Feminina, temos a certeza de que o seu ciclo está apenas começando. A situação melhorou. Mas ainda há muito o que fazer pelo futebol feminino.

Diante disso, é preciso combater fortemente o discurso de “terra arrasada” que ainda toma conta do futebol brasileiro. Trocar tudo nas derrotas sem olhar os pontos positivos e o trabalho construído anteriormente é tudo que não se pode fazer. Também é preciso lembrar que nossos principais clubes só começaram a investir no futebol feminino há poucos anos e, as seleções de base ficaram sem treinadores por mais de um ano e as premiações nos campeonatos era irrisórias (isso quando existiam). Pia Sundhage pode e deve ser questionada por suas escolhas, mas sempre observando o cenário encontrado por ela e o fato de que tudo foi iniciado do zero. Medalhas de ouro e Copas do Mundo não se conquistam da noite para o dia. Angelina, Ludmila, Júlia Bianchi, Duda e várias outras jogadoras mais jovens ainda têm muita coisa para entregar na Seleção Feminina. É hora de aprender com os erros e seguir com o trabalho. Simples.

É compreensível que muita gente esteja chateada e triste com a eliminação nos Jogos Olímpicos num jogo em que a Seleção Feminina poderia ter saído vencedora ainda no tempo normal. Mas cair no discurso de “terra arrasada” que toma conta das redes sociais é fechar os olhos para um contexto muito mais difícil e complicado do que o encontrado no futebol masculino. A geração de Marta, Formiga e Bárbara merecia uma “Última Dança” mais bonita. Mas tenho a certeza de que outras danças muito mais agradáveis irão acontecer. Sigamos.

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