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Pior jogo da Seleção Feminina com Pia Sundhage teve risco calculado e muito aprendizado para as quartas de final

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória da equipe brasileira sobre a Zâmbia o desempenho de atletas como Angelina e Ludmila

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Sam Robles / CBF

A vitória sobre a Zâmbia foi (mas de muito longe) a pior atuação da Seleção Feminina sob o comando de Pia Sundhage. O jogo coletivo das partidas contra China e Holanda não apareceu, as jogadoras sofreram com as entradas mais ríspidas do time de Bruce Mwape e a falta de entrosamento foi escancarada contra um adversário que jogou com uma a menos durante boa parte do jogo desta terça-feira (27), em Saitama. O gol marcado por Andressa Alves e as boas atuações de Angelina e Ludmila foram alguns dos (escassos) pontos positivos do escrete canarinho no confronto contra as “Cooper Queens”. Mas também é preciso dizer que o risco foi bastante calculado. A vitória simples colocou a Seleção Feminina num chaveamento (em tese) mais tranquilo e as possibilidades de medalha aumentam consideravelmente. Mesmo assim, será preciso aprender todas as lições que partida contra a Zâmbia para Pia Sundhage, Marta, Formiga e companhia.

A Seleção Feminina que entrou em campo nesta terça-feira (27) estava bastante modificada em todos os seus setores. Letícia Santos, Poliana, Jucinara, Angelina, Andressa Alves e Ludmila ganharam oportunidade de mostrar serviço para Pia Sundhage e aproveitar a fragilidade defensiva da Zâmbia para tentar impressionar a treinadora sueca. No entanto, o que se via em campo era uma equipe mais travada no meio-campo e com pouca mobilidade para superar a forte marcação das “Cooper Queens”. Na prática, o desenho tático utilizado pela treinadora sueca não mudou. O 4-4-2/4-2-4 foi mantido, mas sem a mesma aproximação entre as jogadoras e com muita lentidão nas transições defensivas e ofensivas. Mesmo com Marta tendo relativa liberdade pelo lado direito e com Bia Zaneratto um pouco mais recuada com relação a Ludmila, talvez a atacante que mais tenha dado trabalho para o escrete da Zâmbia.

Letícia Santos, Poliana, Jucinara, Angelina, Andressa Alves e Ludmila começaram jogando contra a Zâmbia, mas a Seleção Feminina como um todo deixou a desejar. Muito por conta do desentrosamento natural e pela forte (e desleal em alguns lances) marcação da equipe adversária. O Brasil apanhou e não foi pouco. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Antes mesmo de Ludmila se chocar com a goleira Nila e causar a expulsão da zagueira Mweemba, a Seleção Feminina já tropeçava nos próprios problemas. A Zâmbia adotava um estilo mais “kamikaze” de jogo, se lançando ao ataque e buscando as bolas longas para a ótima Barbra Banda brigar contra Letícia Santos e Poliana no lado esquerdo. Mas o plano de jogo do técnico Bruce Mwape se resumia a isso. E a faltas. Não havia maldade, mas a afobação natural e a força desproporcional de uma seleção que ainda dá seus primeiros passos no cenário internacional. E é aí que entra o aprendizado. Principalmente para a nossa Seleção Feminina, que não soube aproveitar os espaços que teve e entrou em campo com uma certa displicência. E com o gol de falta marcado por Andressa Alves aos 18 minutos da primeira etapa, essa situação ficou ainda mais clara em Saitama. Mesmo com a clara superioridade da equipe de Pia Sundhage.

Jucinara avança pela esquerda com bastante espaço para chegar até a linha de fundo. Marta, Ludmila e Bia Zaneratto empurram a defesa da Zâmbia para trás. Mas ninguém conseguia transformar esse volume de jogo em gols. Nem mesmo com as adversárias facilitando demais a vida da equipe comandada por Pia Sundhage. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Poliana e Bia Zaneratto deixaram o jogo ainda no primeiro tempo por causa de entradas mais ríspidas da equipe da Zâmbia. Mesmo assim, o jogo seguia completamente amarrado no meio-campo e marcado pela falta de criatividade das duas equipes. E esse panorama não mudou no segundo tempo. Faltava à Seleção Feminina mais objetividade nos passes e uma postura mais firme do que o “pé mole” percebido nas disputas de bola. Não se trata aqui de igualar o adversário no excesso de força, mas de compreender o que o jogo pedia. E ele pedia organização e mais concentração. Pia Sundhage ainda viu sua equipe melhorar o desempenho com as entradas de Duda e Debinha, mas as duas tiveram pouco tempo para corrigir os problemas coletivos de um escrete canarinho que seguia desorganizado, espaçado e sem muita vontade de aumentar o placar em Saitama. Pior jogo do Brasil nos Jogos Olímpicos. Mas de muito longe.

A afobação e o estilo de jogo mais “kamikaze” da Zâmbia acabou fazendo com que a Seleção Feminina se desarrumasse completamente em campo. Pia Sundhage tentou corrigir os problemas da sua equipe com as entradas de Duda e Debinha, mas as duas não tiveram tempo suficiente para melhorar o desempenho brasileiro. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

É preciso lembrar que o risco estava muito bem calculado por Pia Sundhage. A estratégia adotada para a partida contra a Zâmbia ajudou a Seleção Feminina a conseguir o chaveamento desejado por comissão técnica e jogadoras desde o início dos Jogos Olímpicos. E dentro da atuação ruim desta terça-feira (27), foi possível observar algumas jogadoras que se saíram bem. Ludmila foi muito importante nos contra-ataques. A atacante do Atlético de Madrid conseguiu se impôs fisicamente e levou vantagem na maioria dos duelos contra a defesa zambiana. Mas o grande destaque foi Angelina. A camisa 11 da Seleção Feminina distribuiu muito bem o jogo no meio-campo, auxiliou a veterana Formiga na marcação e ainda apareceu no ataque quando foi possível. A sensação é de que ela esteve com a equipe de Pia Sundhage durante todo o ciclo olímpico. Na modesta opinião deste que escreve, foi uma das melhores em campo.

A grande lição que fica da vitória simples (e muito mais sofrida do que o necessário) sobre a Zâmbia tem relação direta com uma certa “zona de conforto” na qual a Seleção Feminina se manteve durante toda a partida. Essa mesma equipe (apesar dos problemas apontados mais de uma vez por este que escreve aqui mesmo neste espaço) já conseguiu superar adversários mais fortes e sair de situações muito mais adversas por ter entendido o contexto do momento. E os erros cometidos nesta terça-feira (27) não podem ser repetidos contra o Canadá, adversário da equipe de Pia Sundhage nas quartas de final dos Jogos Olímpicos. O Brasil tem bola, talento e estratégia suficientes para anular Sinclair e companhia. Mas não pensem que será uma tarefa simples. É como se a Seleção Feminina fosse estrear numa competição completamente diferente a partir da madrugada próxima sexta-feira (30), em Miyagi.

Pia Sundhage calculou o risco e foi bem sucedida na sua estratégia apesar do desempenho ruim do jogo contra a Zâmbia. E a treinadora sueca sabe muito bem que a Seleção Feminina precisa aprender com os erros e corrigir todos os problemas listados anteriormente contra o Canadá, adversário bem conhecido do escrete canarinho (e da própria Pia), mas que também impõe respeito. O caminho para a tão sonhada medalha olímpica está pavimentado e ele será muito mais tortuoso do que muita gente pensa.

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