Torcedores | Notícias sobre Futebol, Games e outros esportes

Precisamos falar sobre o jogo coletivo e a organização defensiva do Fortaleza de Juan Vojvoda

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação do Leão do Pici e o fim da invencibilidade do Red Bull Bragantino no Campeonato Brasileiro

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Leonardo Moreira / Fortaleza Esporte Clube

Terceiro colocado na tabela do Brasileirão com oito vitórias, três empates e duas derrotas em treze rodadas. São 21 gols marcados e apenas nove sofridos (melhor defesa da competição). Os números do Fortaleza no Campeonato Brasileiro são motivos suficientes para que muitos torcedores adotem o “Vojvozismo” como filosofia de vida. O trabalho do argentino Juan Vojvoda à frente do Leão do Pici vem mexendo com uma série de “dogmas” e frases feitas que tomam conta do futebol brasileiro. A atuação do Fortaleza na vitória sobre o Red Bull Bragantino neste domingo (25) é um bom exemplo disso tudo. Não se trata apenas de uma equipe forte na defesa e de jogo coletivo muito consistente. Juan Vojvoda sabe muito bem como utilizar as características dos jogadores que tem à disposição para manter o nível das atuações do Leão do Pici bem alto. Mérito dele e dos atletas que compraram a ideia do argentino.

É preciso dizer que o Fortaleza é uma equipe extremamente bem treinada. Todos os jogadores sabem muito bem o que devem fazer em cada situação que cada partida apresenta a eles. O gol de Robson (o único da partida) nasceu a partir da movimentação ofensiva e da alta intensidade nas transições, outras marcas do trabalho de Juan Vojvoda. Matheus Vargas (que jogou como “enganche” do 3-4-1-2 do argentino) abriu pelo lado direito e recebeu belo passe vindo da defesa. Yago Pikachu atacou o espaço criado pela mobilidade do time e recebe o passe do camisa 96 quase na linha da grande área e serve Robson de cabeça. Isso tudo aos 12 minutos da primeira etapa. É preciso dizer que não tivemos absolutamente nada aleatório na jogada do gol do Leão do Pici. Juan Vojvoda conseguiu criar um padrão de jogo muito forte a partir de organização, intensidade nos movimentos e ocupação inteligente dos espaços.

Matheus Vargas recebe passe na direita, Yago Pikachu ataca o espaço e Lucas Crispim abre o campo. O lance do gol de Robson (o único da vitória sobre o Red Bull Bragantino) é fruto do padrão de jogo e da organização ofensiva implementada por Juan Vojvoda na equipe tricolor. Foto: Reprodução / Premiere / GE

O mais interessante dessa atuação do Fortaleza contra o Red Bull Bragantino estava maneira como Juan Vojvoda monta e adapta a característica dos jogadores que tem à disposição ao seu desenho tático predileto. Sem poder contar com o zagueiro Titi, o argentino adaptou o volante Matheus Jussa no lado esquerdo do trio de zagueiros para ganhar qualidade no passe desde a defesa. Lucas Crispim sempre foi meia de criação e joga com desenvoltura como ala pela esquerda. Tinga jogou como lateral-direito por muito tempo com Rogério Ceni, mas se transformou em zagueiro com Vojvoda. O 3-4-1-2 do argentino é muito forte defensivamente e conta com todas essas pequenas adaptações para que as funções sejam executadas da melhor maneira possível. E nesse domingo (25), o Fortaleza soube muito bem como fechar as saídas do 4-1-4-1/4-3-3 do time de Maurício Barbieri. Baita atuação coletiva do Leão do Pici

Red Bull Bragantino vs Fortaleza - Football tactics and formations

Matheus Jussa e Tinga viraram zagueiros, Lucas Crispim faz ótimo Brasileirão jogando como ala pela esquerda e Robson vai decidindo no ataque. O 3-4-1-2 de Juan Vojvoda é muito bem organizado e conseguiu conter o ímpeto ofensivo do 4-1-4-1/4-3-3 do Red Bull Bragantino no jogo deste domingo (25).

Mas o ponto mais forte desse Fortaleza está na sua organização defensiva. O 3-4-1-2 se desdobra num 5-3-2 com o recuo de Yago Pikachu e Lucas Crispim para formar a linha de cinco defensores na frente da área do goleiro Marcelo Boeck. Mais à frente, os (ótimos) volantes Éderson e Felipe fecham muito bem a entrada da área e contam com a ajuda de Igor Torres voltando pelo lado. Tudo para liberar Robson e Matheus Vargas para acelerar nos contra-ataques em altíssima velocidade. E nesse ponto, a simplicidade é o ponto mais alto do trabalho de Juan Vojvoda. Não há aqui esquemas táticos mirabolantes. O que existe é a execução muito bem feita dos conceitos do treinador argentino e a adaptação à maneira como cada adversário se comporta na defesa e no ataque. No caso do Red Bull Bragantino, a linha de cinco defensores foi suficiente para tirar a amplitude e a profundidade do time comandado por Maurício Barbieri.

Yago Pikachu e Lucas Crispim recuam para formar a linha de cinco e fechar as laterais do Fortaleza. Mais à frente, Éderson e Felipe fecham a entrada da área com muita atenção aos movimentos do adversário para acelerar os contra-ataques com Matheus Vargas e Robson. Foto: Reprodução / Premiere / GE

O Fortaleza pode não terminar o Campeonato Brasileiro na primeira posição ou até mesmo fora do G4. Mas o futebol apresentado pelo Leão do Pici, com toda a sua organização defensiva e seu jogo coletivo extremamente consistente, realmente chama a atenção de torcedores e imprensa esportiva. Não é por acaso que o nome de Juan Vojvoda começou a ser ventilado em clubes de maior investimento. Esse ponto nos traz um questionamento simples e direto: será que times com Flamengo, Palmeiras, Internacional, Corinthians e Atlético-MG conseguiriam criar o ambiente adequado para que o argentino pudesse implementar seus conceitos sem pressões externas e internas? Por mais que os números do Leão do Pici sejam muito bons, é preciso lembrar que Vojvoda teve tempo e paciência para colocar suas ideias em prática no Fortaleza. O bom futebol do Leão do Pici não nasceu por geração espontânea. Há ideias e há trabalho. Simples.

A boa vitória sobre o Red Bull Bragantino (a primeira do Massa Bruta no Brasileirão) e as últimas atuações coletivas nos mostram um Fortaleza que marca forte e que sobe as linhas para pressionar o adversário no campo de ataque. Organização defensiva não é apenas ficar na frente da área. O Fortaleza ataca e defende com muita eficiência graças ao belíssimo trabalho realizado por Juan Pablo Vojvoda no comando do Leão do Pici. E a tendência é que o time suba ainda mais de rendimento na sequência dessa temporada.

CONFIRA OUTRAS ANÁLISES DA COLUNA PAPO TÁTICO:

Atlético-MG volta a flertar com o perigo em classificação mais suada do que o normal contra o Boca Juniors

Movimentação, intensidade e gols: Bruno Henrique comanda o Flamengo na goleada sobre o São Paulo

Seleção Feminina eleva ainda mais o nível de competitividade em boa atuação contra a Holanda; confira a análise