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A despedida de Formiga da Seleção Feminina, a goleada sobre a Índia e as contradições que ninguém consegue explicar

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa o conflito entre as escolhas de Pia Sundhage e a agenda da CBF na partida desta quinta-feira (25)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Thais Magalhães / CBF

Antes de mais nada, é preciso deixar bem claro que Formiga merecia uma despedida muito melhor e muito mais organizada. Algo que pelo menos chegasse perto da sua grandeza na Seleção Feminina e do legado que deixa para as mais novas. Talvez fora de uma Data FIFA, onde Pia Sundhage claramente quis levar as coisas a sério contra a frágil equipe da Índia. A goleada desta quinta-feira (25) foi construída na base da imposição técnica e tática do Brasil durante os noventa e poucos minutos de partida na Arena da Amazônia, isto é, bastou a equipe forçar um pouco para chegar aos 6 a 1 na Arena da Amazônia. O que ninguém entendia ali era a maneira como a despedida de uma das jogadoras mais importantes do futebol mundial da Seleção Feminina estava sendo tratada. Claramente, a festa para Formiga foi colocada em segundo plano por todos. E isso é gravíssimo.

Isso porque estava bem claro que Pia Sundhage e CBF tinham pensamentos diferentes. A treinadora sueca tinha seu planejamento, queria aproveitar o Torneio Internacional de Manaus para fazer suas observações (o que é válido e louvável) e agiu de acordo. Quem esperava ver Formiga em campo viu a eterna camisa 8 no banco de reservas e a Seleção Feminina começar a partida com um gol de Debinha antes do primeiro minuto. O problema é que as jogadoras brasileiras demoraram a se conectar com a partida e viram a Índia empatar num lance que mais lembrava um churrasco de fim de ano, com a camisa 16 Manisha carregando a bola desde o meio-campo sem ser incomodada. Katrine tentava aparecer no ataque como uma quinta atacantes, mas o espaço entre as linhas da Seleção Feminina facilitava demais o trabalho da equipe adversária que chegou a encaixar alguns lances de perigo.

A Seleção Feminina se impunha na base da técnica e da força diante de uma Índia que tentou se organizar na defesa e sofrer o menos possível. Katrine subia bastante ao ataque e se transformava numa quinta atacante na variação do 4-4-2/4-2-4 de Pia Sundhage para algo próximo de um 3-2-5. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Ainda que na base do “abafa”, a Seleção Feminina foi empurrando a Índia para seu campo e encontrando espaços no campo adversário sem, no entanto, mostrar a organização defensiva vista em outras partidas da equipe nos últimos meses. Aos 36 minutos da primeira etapa, o Brasil fez uma das suas primeiras jogadas trabalhadas em toda a partida. Ary Borges tabelou com Antônia e recebeu passe em profundidade. A camisa 17 cruzou, a zaga indiana afastou mal e Gio (muito bem posicionada no lance) acertou o cantinho da goleira Chauhan. Veio o segundo tempo, e Pia Sundhage mandou Bruninha e Geyse para o jogo nos lugares de Antônia e Giovana. E a lateral do Santos foi importante não somente nas jogadas de linha de fundo, mas na distribuição dos passes no meio-campo se somando às volantes brasileiras como mais uma armadora iniciando as jogadas pelo lado e vindo mais por dentro.

Bruninha foi importante no balanço ofensivo da Seleção Feminina se somando como mais uma armadora no meio-campo da equipe de Pia Sundhage. O time se organizou melhor em campo e conseguiu aproveitar os espaços que apareciam no campo de ataque com Ary Borges e Kerolin abrindo o campo. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Ary Borges (aos seis minutos da segunda etapa) e Kerolin (aos oito minutos) marcaram o terceiro e o quarto gol da Seleção Feminina. Com amplo domínio da equipe indiana no campo de ataque e jogando de maneira muito mais organizada, a equipe comandada por Pia Sundhage se organizava em algo mais próximo de um 4-2-3-1 (com Debinha recuando como “camisa 10” mais por dentro e atraindo a marcação) e com Geyse (autora do quinto gol brasileiro) empurrando a defesa adversária para trás. O escrete canarinho ganhou mais espaço para trabalhar as jogadas na intermediária e encontrou facilidade para conduzir a bola por dentro. Bruninha seguia jogando um pouco mais por dentro e Katrine abria o campo pela esquerda. Na prática, a Seleção Feminina se impôs na base da técnica e da tática, mas sem empolgar e sem apresentar aquela consistência que eu e você vimos em outras oportunidades com Pia Sundhage.

Debinha se comportou mais como “camisa 10” de fato na variação do 4-4-2 para o 4-2-3-1 na Seleção Feminina. Duda (que passou a jogar mais avançada com as entradas de Júlia Bianchi e Ana Vitória), Ary Borges e Geyse se posicionavam mais à frente para dar profundidade. Vitória sem muitas emoções. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Formiga entrou apenas aos 31 minutos do segundo tempo e participou diretamente da jogada do sexto e último gol da Seleção Feminina. Quem esperava um jogo festivo, com estádio cheio, se deparou com uma despedida bem abaixo do que a nossa camisa 8 merecia diante de apenas três mil torcedores na Arena da Amazônia. Pia Sundhage, por sua vez, deixou bem claro que seu foco estava no jogo em si e nas observações dentro de campo durante a entrevista coletiva. Sim, a treinadora sueca foi incrivelmente insensível com tudo que estava acontecendo ali na Arena da Amazônia. Mas não pode ser considerada a ÚNICA e nem a PRINCIPAL culpada. Ainda mais sabendo de todas as falhas na organização do Torneio Internacional de Manaus, desde o preço dos ingressos (cobrar oitenta paus é brincadeira), passando pela divulgação do evento desde o anúncio da partida festiva desta quinta-feira (25), em Manaus.

A grande verdade é que a despedida da Formiga da Seleção Feminina ficou no segundo plano de todos os envolvidos. Pia Sundhage, Duda Luizelli, CBF, algumas jogadoras que soltaram “indiretas” nas mensagens para a camisa 8 e até mesmo das atletas que estavam em campo (com meritórias exceções, é claro). Toda a organização do evento, a divulgação, o preço dos ingressos, tudo parece ter sido feito para que as coisas NÃO DESSEM CERTO nesta quinta-feira (25). Enquanto isso, a imprensa mais tradicional fecha os olhos para toda a organização do evento, todas as escolhas da CBF e as patacoadas da entidade na despedida de uma das maiores jogadoras de todos os tempos. Pia Sundhage poderia ter “aliviado a sua barra” colocando Formiga por mais minutos em campo. Mas não pode ser a única culpada, a grande vilã de toda a história. Isso é ser desonesto e defender interesses particulares.

Talvez o único alento nesse festival de contradições que vimos na Arena da Amazônia (e que ninguém conseguiu explicar até agora) tenha sido o brilho nos olhos de Formiga e a sua mensagem no final do jogo contra a Índia. A camisa 8 transbordava carinho, gratidão, afeto e amor. Este que escreve, inclusive, confessa que será muito estranho não vê-la vestindo a camisa da Seleção Feminina daqui pra frente. Formiga merece o mundo. Porque ela nos deu o mundo ao longo de 26 anos de dedicação ao esporte.

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