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Seleção Feminina segue as orientações do “caderninho” à risca e conquista boa vitória sobre a Venezuela

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como Pia Sundhage conseguiu organizar sua equipe depois do início de jogo ruim neste domingo (28)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Thais Magalhães / CBF

A Seleção Feminina apresentou todas as características de uma equipe em início de ciclo na goleada sobre a Venezuela, neste domingo (28), na Arena da Amazônia, em Manaus. Oscilações, problemas no posicionamento defensivo, desentrosamento entre as jogadoras e por aí vai. Por outro lado, a maneira como do escrete comandado por Pia Sundhage retomou o controle da partida e retomou a concentração e se impôs na base da técnica deixam sim uma ponta de esperança com relação ao futuro dessa equipe. Também foi possível ver que as jogadoras seguiram à risca todas as orientações do “caderninho” da treinadora sueca na construção dos 4 a 1 sobre “La Vino Tinto”. Velocidade nas transições, intensidade, objetividade e organização ofensiva foram algumas das boas notícias da vitória deste domingo (28). E isso sem falar nas grandes atuações de Gabi Nunes, Kerolin, Ivana Fuso e (principalmente) Angelina.

Mas é preciso reconhecer que a Seleção Feminina não começou a partida contra a Venezuela da melhor maneira. Desentrosadas e ainda sem confiança, Tainara, Lauren e todo o sistema defensivo brasileiro vacilaram no gol de Villamizar, marcado logo aos dois minutos da primeira etapa. A impressão deste que escreve era a de que faltava concentração em cada jogada. E isso se refletia nos erros bobos dentro de campo. Por mais que o 4-4-2/4-2-4 de Pia Sundhage estivesse organizado e bem posicionado, o escrete canarinho concedia espaços entre as suas linhas e permitia que Denya Castellanos (jogadora do Atlético de Madrid) encontrasse espaço para circular na frente da defesa. Demorou um pouco para a Seleção Feminina se acertar diante de uma Venezuela que “achou” um gol a partir de uma bola mal rebatida pela defesa brasileira. Fora isso, o time também pecava pela afobação em diversos lances.

Pia Sundhage fez diversas mudanças no time que entrou em campo neste domingo (28) e viu sua equipe demorar muito para “entrar” no jogo. O 4-4-2/4-2-4 foi mantido apesar do claro desentrosamento e do nervosismo das atletas mais novas no teste contra a Venezuela. Faltava concentração e tranquilidade. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

A forte jogada de bola parada da Seleção Feminina (e tão bem trabalhada por Pia Sundhage) descomplicou as coisas aos 19 e aos 24 minutos da primeira etapa. Ao mesmo tempo, Kerolin e Gabi Nunes mostraram que podem ser muito úteis no modelo de jogo defendido e trabalhado pela treinadora sueca. A camisa 21 foi importante fechou o lado direito do meio-campo e ainda apareceu por dentro (entrando em diagonal) para aproveitar o espaço aberto pela movimentação de Debinha e da já mencionada Gabi Nunes. Esta, por sua vez, provou que pode ser a “camisa nove” mais móvel ou a segunda atacante de um 4-4-2 mais nítido. Seja como for, é uma jogadora que Pia procurou por muito tempo. E a jogada do terceiro gol da Seleção Feminina (marcado por Kerolin) nos apresentou um pouco das orientações do “caderninho” da treinadora sueca. Movimentação, velocidade e intensidade para abrir espaços na defesa adversária.

Adriana abre o campo, Debinha arrasta a marcação e Kerolin ataca o espaço. O “caderninho” de Pia Sundhage era seguido à risca pela Seleção Feminina. Imagens: Reprodução / SPORTV / GE

O quarto gol brasileiro nasce justamente de um dos pontos mais trabalhados pela treinadora sueca: a pressão pós-perda. Kerolin aperta, a zagueira venezuelana recua mal e Debinha aparece na frente da goleira Cáceres para ampliar a vantagem brasileira. Podemos criticar o trabalho de Pia Sundhage. Mas nunca podemos afirmar que não há uma ideia de jogo clara sendo colocada em prática na Seleção Feminina. E como acontece em todo início de ciclo, os erros vão acontecer. Principalmente na organização de um sistema defensivo forte e bem organizado. Apesar de preocupantes, os erros da zaga brasileira não surpreendem. Mesmo assim, Pia Sundhage sabe que precisa fazer ajustes. Os erros cometidos contra a Venezuela não podem se repetir. Ainda mais sabendo que o nível de exigência técnica, física e mental devem aumentar consideravelmente nos próximos meses. O “caderninho” precisa ser seguido à risca.

Denya Castellanos arrasta a marcação de Tainara e Ana Vitória e abre o espaço que Daniuska Rodríguez ataca no lance do gol da Venezuela anulado por impedimento. A Seleção Feminina ainda precisa de tempo para se acertar na defesa, mas alguns erros precisam ser corrigidos o quanto antes por Pia Sundhage. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

Com as entradas de Gio, Marta, Ivana Fuso e Yasmim, a Seleção Feminina se reorganizou num 4-2-3-1 mais nítido com a camisa 10 posicionada mais próxima da entrada da área. Nesse ponto, é difícil não ver como a equipe deixou de depender dos lampejos da Rainha para tê-la como referência técnica dentro de campo, como a jogadora que descomplica as coisas com o toque diferenciado, mas que joga para o time. Isso é fruto das orientações do “caderninho” de Pia Sundhage e da maneira como o escrete canarinho vem comprando as suas ideias. O lance em que Ivana Fuso parte com a bola dominada pela direita e percebe a movimentação de Marta e Gio por dentro é o resumo perfeito de tudo que a treinadora sueca defende e tenta implementar na sua equipe. Velocidade, movimentação, transições rápidas e organizadas e imposição técnica. Está tudo lá. O “caderninho” vem sendo muito bem utilizado pela Seleção Feminina.

Ivana Fuso avança, Marta ataca o espaço e Gio percebe o buraco na defesa e recebe o passe. Uma pena essa bola ter acertado o travessão da Venezuela. Imagens: Reprodução / SPORTV / GE

Todo início de ciclo em qualquer time de futebol do mundo requer TEMPO e PACIÊNCIA. Eu e você podemos não gostar do estilo de jogo de um determinado treinador (ou treinadora) e isso é completamente válido e normal. Mas é somente dentro dele que as análises podem ser realizadas de com coerência e respeito aos fatos. E ficou claro que Pia Sundhage tem um modelo de jogo sendo implementado e assimilado pelas suas jogadoras. Não será da noite para o dia que a Seleção Feminina vai se transformar na grande potência que todos imaginam que ela seja. O trabalho de base sempre tão pedido por todas as jogadoras só começou a ser implementado agora e várias das nossas atletas ainda precisam de vivência de competição em ligas fortes tecnicamente. Assim como a nossa liga nacional precisa ser fortalecida. Falar em “regresso” não parece ser adequado. Ainda mais quando a palavra em questão significa retorno. E não “retrocesso”.

Mas talvez a grande lição da partida tenha sido deixada por Marta. A nossa Rainha fez questão de lembrar após a partida contra a Venezuela que “individualidade demais” pode prejudicar a Seleção Feminina como um time. É fácil de se compreender esse ponto, já que várias jogadoras são novas e querem mostrar serviço para Pia Sundhage. Por outro lado, essa é uma questão que precisa ser ajustada para os próximos testes do escrete canarinho. Principalmente contra equipes mais fortes e na Copa América do ano que vem.

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