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Viradas, expulsões, polêmicas e arbitragem confusa: Flamengo supera o Bahia na base da aplicação tática e da força de vontade

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória do time comandado por Rogério Ceni sobre o Bahia e todas as polêmicas da partida

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Alexandre Vidal / Flamengo

É impossível começar essa humilde análise tática sem falar da arbitragem confusa de Flavio Rodrigues de Souza. É bem verdade que a atuação do “homem do apito” não seria a única justificativa para uma derrota do Flamengo. Mas o árbitro paulista fez de absolutamente tudo para acabar a partida disputada no Maracanã. Sobre o jogo em si, o que eu e você vimos na noite deste domingo (20) foi a aplicação tática de uma equipe que simplesmente se recusou a sair de campo com qualquer resultado que não fosse a vitória. Destaque para as grandes atuações de Bruno Henrique (que lembrou o jogador que foi eleito o melhor da Libertadores de 2019) e de Gerson, volante que assumiu a batuta do meio-campo e comandou o Fla como se fosse um verdadeiro maestro. Resultado gigante conquistado em cima de um Bahia que simplesmente parou de jogar após virar o jogo e que segue em péssima fase.

Impossível não concluir que a expulsão (altamente discutível de Gabigol logo aos nove minutos do primeiro tempo) mexeu completamente com o jogo. Ainda mais quando os primeiros movimentos da partida indicavam um Flamengo que ocupava o campo de ataque (a partir do 4-4-2 costumeiro de Rogério Ceni) e pressionava bastante a saída de bola do Bahia. Com um jogador a menos, o treinador rubro-negro remontou sua equipe num 4-4-1 que liberava Bruno Henrique para explorar os espaços às costas da última linha do Bahia. Exatamente como aconteceu no gol de Isla. Gerson recebe a bola e vê o camisa 27 se lançando no espaço vazio. Nesse momento, Éverton Ribeiro permaneceu mais atrás e o lateral chileno se lançou ao ataque como autêntico ponta que corta pra dentro. Com Bruno Henrique puxando toda a marcação, ficou fácil para o camisa 44 marcar seu primeiro gol com a camisa do Flamengo.

O Flamengo se organizou num 4-4-1 após a expulsão de Gabigol e conseguia levar perigo ao gol do Bahia mesmo com um jogador a menos desde o início da partida. Bruno Henrique tinha liberdade para atacar e Gerson comandava o meio-campo rubro-negro como autêntico maestro. Foto: Reprodução / Premiere

Nem mesmo os torcedores mais pessimistas esperavam pelo furacão que veio no segundo tempo. Mano Menezes (que já havia sacado o volante Edson para a entrada de Danielzinho), sacou Ramon para a entrada de Gabriel Novaes e reorganizou o Bahia num 4-4-2/4-2-4 de extrema mobilidade no ataque com dois atacantes mais enfiados e Ramírez e Rossi dando profundidade ao time. Nino Paraíba e Juninho Capixaba jogavam mais adiantados e aproveitavam bem a completa desatenção do time do Flamengo. Principalmente no lado direito de ataque, onde Ramírez encontrou enorme facilidade para superar a marcação (ruim) de Natan e Filipe Luís para receber belo passe de Danielzinho dentro da área no lance do primeiro gol do Tricolor de Aço. O que se veria nos próximos minutos foi um senhor “apagão” de todo o sistema defensivo rubro-negro e dois belos gols de Gilberto, um dos maiores carrascos do escrete comandado por Rogério Ceni nesses últimos anos.

Mano Menezes acertou em cheio com as mudanças no intervalo e viu o Bahia construir uma virada até então impensável dentro do Maracanã. Tudo por conta da mudança de postura do time soteropolitano, das entradas de Danielzinho e Gabriel Novaes e da péssima marcação do Flamengo no lado esquerdo. Foto: Reprodução / Premiere

É preciso dizer que, se Mano Menezes acertou nas mexidas no intervalo, ele errou (e muito) nas entradas de Clayson e Rodriguinho nos lugares de Ramírez e Gilberto, os dois mais perigosos do Bahia. O Tricolor de Aço simplesmente abdicou do ataque e “sentou em cima” da vantagem que construiu de maneira bem eficiente na primeira metade do segundo tempo. Este que escreve criticou a saída de Arrascaeta e a manutenção de Éverton Ribeiro depois que o uruguaio deixou Gomes e Bruno Henrique em claras condições de balançar as redes. Por outro lado, a entrada de Pedro deu a profundidade que o Flamengo precisava para chegar aos gols da virada. Ainda mais quando o Bahia se desmanchou completamente na recomposição defensiva. Vitinho entrou no lugar de Isla e teve total liberdade para aparecer por dentro e receber o passe (pornográfico) de Pedro antes de balançar as redes de Douglas Friedrich.

O frame acima mostra a falta de compactação do meio-campo do Bahia e a facilidade que Filipe Luís teve para avançar desde o campo defensivo e deixar Bruno Henrique em condições de fazer o cruzamento. Pedro ajeitou de letra e Vitinho tocou na saída de Douglas Friedrich. Foto: Reprodução / Premiere

Embora vitória tenha sido importantíssima pelas circunstâncias que a partida impôs ao Flamengo, a grande verdade é que o time ainda oscila demais dentro de campo. Os comandados de Rogério Ceni alternam momentos de ótimo jogo coletivo (como nos primeiros minutos do jogo no Maracanã) com apagões inexplicáveis (como o início de segundo tempo muito abaixo da média diante do próprio Bahia). Quando colocou a bola no chão, a qualidade dos jogadores rubro-negros acabou se sobressaindo sem muitas dificuldades. Mesmo com a nítida queda de rendimento de Éverton Ribeiro e as falhas constantes do sistema defensivo. Os três pontos deste domingo (20) foram conquistados muito mais na base da aplicação tática e da vontade de vencer do que na base do jogo coletivo do Flamengo de Rogério Ceni. E os erros mencionados aqui podem complicar a vida da equipe contra rivais mais qualificados.

Dito isto, este que escreve não pode fechar os olhos para as polêmicas ocorridas dentro de campo. A começar pela arbitragem desastrosa de Flavio Rodrigues de Souza. O problema nem é ter sido xingado por Gabigol num episódio que mais pareceu um desabafo natural de quem joga futebol do que propriamente um xingamento dirigido ao árbitro. Impossível não notar as tentativas cada vez mais descaradas dos homens do apito em tornarem os protagonistas da partida a qualquer custo. Mesmo do espetáculo dentro de campo. É a demora na checagem dos lances no VAR, a intimidação dos jogadores dentro de campo e mais uma porção de lambanças ignoradas pela CBF a toda rodada de Campeonato Brasileiro. Se o critério para se aplicar um cartão vermelho for um xingamento soltado ao vento, vamos ter pelo menos dez expulsões por jogo. É um puritanismo que não cabe dentro de um jogo de futebol.

E enfim chegamos ao episódio lamentável de racismo denunciado por Gerson em entrevista ao Premiere. Ramírez merece sim ser punido dentro de todos os rigores que a lei prevê em casos como esse (desportivos e criminais). Mas o que mais entristece a todos que acompanham (e amam) o velho e rude esporte bretão é a postura totalmente lamentável de Mano Menezes ao reduzir o caso de racismo a “malandragem” do camisa 8 do Flamengo. Não é a primeira vez que Mano mostra ser um mau profissional. Mas foi a primeira vez que desceu tão baixo ao se aproveitar de uma situação como essas para gerar vantagem dentro de um jogo de futebol. O Bahia, como um clube que entendeu sua posição na luta pelas causas sociais e contra o preconceito, não pode ter entre seus quadros funcionários que praticam e relativizam casos de racismo. Ainda mais depois de tantas campanhas veiculadas nas suas redes sócias. A demissão de Mano Menezes foi o mínimo.

Em tempo: curioso que Flávio Rodrigues de Souza conseguiu ouvir um xingamento supostamente dirigido a ele a pelo menos uns vinte metros de distância, mas ignorou todo o episódio envolvendo Gerson, Ramírez e Mano Menezes estando perto dos três. A audição seletiva e a vontade de se estragar o futebol é tão grande que ninguém disfarça. É por essas e outras que está cada vez mais difícil falar APENAS do que acontece dentro de campo nesses últimos meses.

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