Fala infeliz de Renato Gaúcho rebaixa o nível do debate sobre as diferentes maneiras de se pensar o futebol; entenda

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a proposta de jogo do Grêmio finalista da Copa do Brasil e o debate sobre posse de bola e pragmatismo

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

Renato Gaúcho já provou mais de uma vez sua qualidade como treinador e isso não é novidade para ninguém que acompanha este colunista. No entanto, algumas coisas precisam ser ditas sobre determinadas falas do técnico do Grêmio. Como a que tentou explicar o sucesso da estratégia mais pragmática da sua equipe nos dois jogos contra o São Paulo nas semifinais da Copa do Brasil. Reduzir a proposta de jogo que alia forte marcação, que abre mão da posse de bola e aposta em contra-ataques em alta velocidade ao ato de se tentar levar uma mulher para o motel é mais uma prova de que somos machistas e que precisamos repensar muita coisa sobre nossas atitudes. Só que essa fala também reduz o debate sobre o jogo dentro das quatro linhas a níveis baixíssimos e ignora o fato de que todas as formas de se competir são válidas. Seja com valorização da posse de bola ou explorando contra-ataques.

Vale lembrar que Renato Gaúcho já nos brindou com o futebol mais bonito e eficiente do país em 2017, quando o Grêmio conquistou a sua terceira Copa Libertadores da América em cima do Lanús. Ou seja, estamos falando de um treinador que também é apreciador do jogo mais “jogado”, da posse de bola eficiente e de um futebol mais vistoso. Nos últimos anos, Renato foi mudando sua maneira de montar o Tricolor Gaúcho. Impossível não notar que as goleadas sofridas para o Flamengo e para o Santos em duas semifinais de Libertadores seguidas influenciaram algumas das decisões do treinador. De equipe mais propositiva, o Grêmio de Renato Gaúcho foi se tornando mais pragmático. E não há nada de errado em adotar essa postura! Desde que, é claro, os jogadores saibam exatamente o que fazer quando recuperam a posse da bola. Esse é o ponto crucial da discussão aqui neste espaço.

Quem chega e quem sai dos clubes?

 

Renato Gaúcho apostou num Grêmio fechado na frente da sua área e que sai para o ataque em alta velocidade. No jogo contra o São Paulo no Morumbi, Pepê e Alisson fechavam as laterais e Jean Pyerre recuava para formar uma linha de cinco jogadores à frente da área de Vanderlei. Foto: Reprodução / TV Globo

A questão aqui não é simplesmente ter a bola. É saber os caminhos certos para se levá-la até o gol adversário. Se fechar na defesa e esperar o momento certo de encaixar o contra-ataque ou pressionar a saída de bola do adversário lá na frente são escolhas legítimas diante de cada contexto. Parafraseando Lulu Santos, consideramos justas todas as formas de se jogar futebol. O ponto aqui é ser eficiente e saber o que fazer em cada momento da partida. Para ficar bem claro: o problema não é a postura e nem a estratégia que Renato Gaúcho usou para eliminar o São Paulo da Copa do Brasil, e sim a maneira como se expressou. Além da fala machista (que muitos acharam “engraçadíssima”), a sua explicação fecha os olhos para a própria história de equipes que encantaram o mundo valorizando a posse da bola e times que conseguiram superar essa estratégia com muita garra e obediência tática.

A classe de José Mourinho ao explicar seus conceitos ao repórter Renato Senise (após a vitória do Tottenham sobre o Arsenal) resume bem a questão colocada aqui. Não é sobre a posse da bola. É sobre o que você faz com ela. E dependendo da situação, uma equipe nem precisa de muitos minutos com ela nos pés dos seus jogadores para chegar ao que interessa: gols. Exatamente como fez à frente da Internazionale campeã de tudo em 2010. Os dois jogos contra o Barcelona de Pep Guardiola (um dos grandes defensores da posse de bola e do jogo de posição) nas semifinais da Liga dos Campeões da UEFA estão até hoje na memória do torcedor. No jogo de ida (em Milão), vitória por 3 a 1 com grande atuação coletiva. No jogo de volta (no Camp Nou), Mourinho radicalizou ao recuar Eto’o e Pandev para a linha defensiva após a expulsão de Thiago Motta para segurar Messi, Xavi, Iniesta e companhia.

José Mourinho radicalizou ao trazer Eto’o e Pandev para a linha defensiva e “estacionar um ônibus” na frente da área de Júlio César na partida contra o Barcelona. Pragmatismo levado às últimas consequências na campanha vitoriosa da Liga dos Campeões da UEFA de 2009/10. Foto: Reprodução / YouTube / Inter

Mas aquela Internazionale também sabia jogar no ataque. O escrete nerazzurri não tinha vergonha de apelar para as ligações diretas buscando Diego Milito no ataque, os passes decisivos de Sneijder no meio-campo ou a velocidade de Maicon pelo lado direito. Tudo era feito com muita velocidade e uma intensidade quase insana nas transições. Exatamente como no primeiro gol da decisão da Liga dos Campeões contra o Bayern de Munique de Louis Van Gaal (outro adepto do “jogo de posição” assim como Pep Guardiola). A orientação de José Mourinho era simples: forçar o jogo em cima da (pesada e lenta) dupla de zaga formada por Demichelis e Van Butten e resolver as jogadas o mais rápido possível antes que Vam Bommel e Schweinsteiger chegassem para fechar os espaços. Mais uma vez: não é sobre como você joga e quanto tempo você gasta com a bola. É sobre o que você faz com ela nos momentos decisivos.

Sneijder aparece mais à frente, percebe o espaço na zaga do Bayern de Munique e faz o passe para Diego Milito marcar o primeiro dos seus dois gols na decisão da Liga dos Campeões da UEFA. A Internazionale de José Mourinho sabia exatamente o que fazer com a bola e o fazia sem perder tempo. Foto: Reprodução / YouTube / UEFA

O jogo de posse do Barcelona de Pep Guardiola, o pragmatismo eficiente da Internazionale de José Mourinho e a alta intensidade do Liverpool de Jürgen Klopp são maneiras diferentes de se pensar o futebol dentro das quatro linhas. Todas elas são válidas e produzem resultados. Assim como o Grêmio de Renato Gaúcho e o São Paulo de Fernando Diniz. O grande problema não está na maneira de se montar e pensar uma equipe, e sim na maneira como as coisas são colocadas para debate. Comparar a eficiência de uma equipe que deu um chute a gol em 180 minutos com o ato de se levar uma mulher para o motel e “consumar o ato” é reduzir toda a história de um esporte magnífico a uma fala machista, inadequada e sem sentido nenhum. É como se todas as outras formas se de ver e pensar o velho e rude esporte bretão não fossem válidas e não pudessem produzir bons resultados dentro de campo.

É óbvio que Renato Gaúcho pode ganhar a Copa do Brasil usando a mesma estratégia dos jogos contra o São Paulo. Ninguém aqui está dizendo o contrário. O ponto aqui é apenas o debate sobre essas maneiras de se enxergar o futebol. Não é possível que um debate tão rico seja reduzido a um nível tão baixo por um treinador vitorioso e que já provou seu valor mais de uma vez. Renato Gaúcho pode e deve ser maior do que isso.

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