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Posicionamento em campo e falta de continuidade fora dele: alguns pontos que explicam a péssima fase de Everton Ribeiro

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica os motivos da queda de rendimento do camisa 7 do Flamengo

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Alexandre Vidal / Flamengo

É verdade que a equipe do Flamengo como um todo está devendo bastante nessa temporada mesmo levando-se em consideração todo o contexto imposto pela pandemia de COVID-19. Impossível não notar a queda de rendimento do escrete rubro-negro nos últimos meses. Ainda mais quando o time que conquistou quase tudo o que disputou em 2019 e início de 2020 segue bem vivo na memória. Jogadores que resolviam partidas com gols ou passes decisivos já não conseguem repetir as atuações mágicas dos tempos de Jorge Jesus. Principalmente o meia Everton Ribeiro. Chamado de “Miteiro” por boa parte da torcida, o camisa 7 do Flamengo, que já foi considerado um dos melhores do país, vem sendo um dos nomes mais criticados do atual elenco. Mas o problema de ER7 é apenas uma má fase? Ou será que existem outros fatores que influenciam diretamente no seu desempenho dentro de campo? É o que vamos tentar descobrir aqui.

Há quem diga que Everton Ribeiro nunca foi um jogador decisivo e que costuma se esconder em partidas importantes. Este que escreve enxerga essa situação de uma outra maneira. O camisa 7 do Flamengo tem um enorme talento e o coloca à disposição do time. Não foram poucas as vezes em que ele fez a diferença dentro de campo desde que chegou ao clube em 2017. Mas é o tipo de jogador que precisa ter com quem dialogar dentro de campo. É o cara que pensa as jogadas de ataque e acha seus companheiros na frente com passes milimétricos. E se não tiver com quem jogar ou ficar mais isolado no lado direito (posição onde se sente mais confortável) acaba não rendendo o esperado. Mesmo assim, a queda de rendimento de Everton Ribeiro é nítida. Os passes não saem, os chutes a gol ficaram mais raros e o futebol foi ficando burocrático. E isso tem muito a ver com uma série de mudanças ocorridas no Flamengo nesses últimos meses.

Coincidência ou não, o futebol de Everton Ribeiro piorou depois que ele voltou da Seleção Brasileira (onde foi titular nos jogos contra Venezuela e Uruguai). A culpa é de Tite e de sua comissão técnica? Ou das mudanças ocorridas no departamento de futebol do Flamengo? Rogério Ceni havia assumido a equipe poucos dias antes. E como já foi comentado mais de uma vez neste espaço, o treinador gosta de montar suas equipes num 4-4-2/4-2-4 com jogadores velozes pelos lados do campo e muita velocidade nas transições. Para adaptar seu estilo aos jogadores que têm, Ceni apostou numa formação que libera Isla para o apoio e recua Everton Ribeiro para o meio-campo. No jogo contra o Fortaleza, ER7 se posicionou quase como um volante ao lado de Gerson em alguns momentos da partida. Fora as vezes em que o camisa 7 recebia a bola na direita e não tinha com quem jogar. Isso faz muita diferença nas suas atuações.

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Isla e Renê avançam como alas, Willian Arão recua para junto da zaga e Everton Ribeiro se posiciona mais atrás próximo a Gerson. Rogério Ceni vem fazendo adaptações no seu 4-4-2/4-2-4 costumeiro para conseguir aproveitar melhor as características do elenco do Flamengo. Foto: Reprodução / Premiere

Impossível não pensar nas suas atuações com outros treinadores. Com Domènec Torrent, por exemplo, Everton Ribeiro jogava mais próximo do ataque participava ativamente das tramas ofensivas. Na goleada sobre o Corinthians, o treinador catalão montou o Flamengo num 4-2-3-1/4-4-2 que concentrava as jogadas pelo lado esquerdo e a explorava a velocidade de Bruno Henrique. Vitinho circulava por todo o campo e ER7 saía da direita para dentro para abrir o corredor para Isla e permitir que o já citado camisa 11 também jogasse por ali. Embora a defesa rubro-negra sofresse muito, o ataque funcionava bem. E tendo companhia no seu setor, Everton Ribeiro crescia de produção. Tudo porque tinha com quem dialogar e trabalhar as jogadas ofensivas. Apesar de todas as críticas ao seu trabalho, Dome compreendeu que tinha um jogador de raro talento no elenco e que não podia ficar isolado no lado direito.

Domènec Torrent entendeu que Everton Ribeiro tinha que jogar mais próximo do ataque e que precisava ter com quem dialogar a partir do lado direito. A goleada sobre o Corinthians mostrou um Flamengo mais solto e mais insinuante no ataque a partir de um 4-2-3-1 que aproximava os jogadores. Foto: Reprodução / TV Globo

É óbvio que a grande referência do Flamengo vitorioso é Jorge Jesus. O “Mister” organizava a equipe no seu já amplamente conhecido e estudado 4-1-3-2 com muita intensidade e uma movimentação insana no ataque. O ano de 2019 ficou marcado pelos títulos da Copa Libertadores da América e do Campeonato Brasileiro. E o ano de 2020 começou com o título da Supercopa do Brasil em cima do Athletico Paranaense. A vitória por 3 a 0 sobre o Furacão mostrava a equipe que encantou o país com um futebol alegre, ofensivo e vibrante. E não é obra do acaso: Everton Ribeiro jogava quase que como um quarto atacante. O camisa 7 sempre teve a companhia de Gabigol (que caía pelo lado direito em vários momentos), Rafinha, Bruno Henrique, Arrascaeta e Gerson. O primeiro gol da partida mostra bem como ER7 aparecia no ataque várias e várias vezes. Gols, assistências e muito talento dentro de campo.

Everton Ribeiro era quase um quarto atacante com Jorge Jesus. A formação utilizada pelo “Mister” era o 4-1-3-2, mas era comum ver Gabigol jogando aberto pela direita, Arrascaeta mais centralizado e ER7 entrando na área com frequência. Foi o melhor momento do jogador no Flamengo. Foto: Reprodução / TV Globo

E se recuarmos ainda mais no tempo, vamos ver que Everton Ribeiro também jogava mais próximo da área adversária quando Abel Braga era o técnico do Flamengo. Embora a equipe não tenha rendido o esperado sob seu comando, o veterano treinador entendeu que precisava colocar um dos jogadores mais talentosos do seu elenco mais à frente e com companhia no seu setor para trabalhar as jogadas. O esquema básico era um 4-2-3-1 que variava para um 4-1-4-1 com Willian Arão mais próximo de Diego Ribas. É verdade que a equipe rubro-negra tinha seus problemas na compactação defensiva e que Abelão sofria para encaixar tantos talentos na equipe titular. Mas é preciso notar que a ideia de se ter Everton Ribeiro próximo do ataque já existia naqueles tempos. Ainda que jogasse como uma espécie de “terceiro homem de meio-campo”, ER7 tinha liberdade para subir e distribuir passes na frente.

Abel Braga organizava o Flamengo num 4-2-3-1/4-1-4-1 que tinha seus problemas, mas que posicionava Everton Ribeiro mais próximo do ataque. Ainda que ele recuasse um pouco para organizar as jogadas ofensivas, o camisa 7 tinha liberdade para encostar na frente e pisar na área. Foto: Reprodução / TV Globo

Este que escreve não quer dizer que Rogério Ceni não serve para ser treinador do Flamengo. Ele ainda não completou dois meses no cargo, seu trabalho ainda está começando e o tempo para implementar suas ideias é fundamental para o sucesso do time nesse restante de temporada. Por outro lado, todo mundo sabia que seu estilo de jogo era mais reativo e que ele tem predileção por um 4-4-2/4-2-4 que busca a profundidade das jogadas com o avanço dos “wingers” ao ataque. É preciso entender que todos os treinadores do mundo têm as suas convicções e que é muito difícil que qualquer um deles abra mão delas. Afinal, treinadores são pessoas também. É óbvio, mas isso precisa ser dito. Ainda mais com a comparação feita anteriormente. Mesmo assim, Rogério Ceni já deve ter percebido que Everton Ribeiro vem rendendo muito pouco sob seu comando. O próprio já admitiu isso após o empate com o Fortaleza.

Ele é um jogador de criatividade. A função dele é fazer a bola andar, o jogo correr. O lado dele tem sido um pouco mais prejudicado. Ele e o Isla estão mais sozinhos. Porque o Gerson gosta mais de cair por esse lado esquerdo. O jogo acontece muitas vezes mais pelo lado esquerdo. Vou tentar dar equilíbrio maior. A culpa não é dele (Everton Ribeiro). Talvez a gente tenha que apresentar mais um terceiro jogador para poder criar um pouco mais com ele” – afirmou o treinador do Flamengo. A queda de rendimento de Everton Ribeiro se deve muito mais às trocas constantes no comando do futebol da equipe na falta de tempo para se adaptar a essas mudanças do que propriamente no jogador em si. Além disso, a diretoria rubro-negra também não ajuda nesse processo. Ou você acha que as escolhas dos últimos treinadores do Fla foram realizadas com base em estudos sérios do estilo de cada um deles?

Este que escreve insistiria com Everton Ribeiro como titular. É nítido que ele vem sendo prejudicado pelo estilo do novo treinador e que ainda não teve tempo para se adaptar às mudanças ocorridas na equipe. É óbvio que ER7 também precisa ser mais participativo e ficar mais ligado nas partidas. Mas é preciso entender todo o contexto que envolve essa queda brusca de rendimento de um dos melhores jogadores do país.

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