Defesa forte, estilo de jogo vertical e muita velocidade: o que o torcedor alvinegro deve esperar de Marcelo Chamusca

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca a experiência do novo treinador do Botafogo e explica como ele gosta de montar suas equipes

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Vítor Silva / Botafogo

É bastante compreensível que a diretoria do Botafogo tenha escolhido Marcelo Chamusca para dirigir a equipe nessa temporada por conta de sua experiência na Série B e pelo histórico de acessos com diversos clubes do país. Assim como o grande Givanildo de Oliveira (figura que merecia muito mais respeito no futebol), também é chamado de “Rei do Acesso”. Subiu com o Salgueiro para a Série C em 2013, com o Guarani para a Série B em 2016 e com o Ceará para a Série A em 2017. Só que Marcelo Chamusca é muito mais do que alguém que tem experiência em divisões menores. Seu (ótimo) trabalho à frente do Cuiabá em 2020 nos mostrou um treinador que gosta de equipes rápidas no contra-ataque e que marcam forte na defesa e no meio-campo, além de saber trabalhar com os jogadores da base. Chamusca foi uma ótima escolha. Ainda mais diante de todo o contexto em que o Botafogo se encontra atualmente.

Apesar da fama de treinador de equipes do “segundo escalão” do futebol brasileiro, Marcelo Chamusca tem uma boa coleção de títulos. E o mais marcante de todos foi o da Copa Verde com o Cuiabá (em 2019), já com a base da equipe que terminou a Série B de 2020 na quarta posição e garantiu a vaga na Série A de 2021. Chamusca conseguiu aliar velocidade nas transições com muita força na marcação e chegou a criar problemas para várias equipes consideradas mais fortes. As duas partidas contra o Botafogo pelas oitavas de final da Copa do Brasil mostraram essa e outras características de uma equipe extremamente organizada e que sabia fechar espaços. Tudo partia de um 4-2-3-1 que se defendia com duas linhas compostas por quatro jogadores na frente da área com um dos volantes (Nenê Bonilha e Matheus Barbosa no caso das duas partidas contra o Glorioso) fechando o espaço entre o lateral e o zagueiro.

O Cuiabá de Marcelo Chamusca marcava forte na frente da área com a movimentação dos volantes para cobrir os espaços entre laterais e zagueiros. O 4-2-3-1 do agora treinador do Botafogo virava um 4-4-2 em duas linhas compostas por quatro jogadores que sempre estavam prontos para o contra-ataque. Foto: Reprodução / SPORTV

Um dos pontos mais fortes do Cuiabá comandado por Marcelo Chamusca era a capacidade de alternar uma postura mais conservadora (com as linhas mais próximas da área) com uma forte pressão pós-perda ainda no campo adversário. Tanto que o gol da vitória sobre o Botafogo (no jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil) nasceu a partir dessa marcação mais forte e mais adiantada. Lucas Hernández, Willians Santana e Maxwell pressionaram Honda na intermediária e Matheus Barbosa interceptou o passe do japonês no meio-campo antes de fuzilar o gol de Diego Cavalieri (sempre mantendo a formação básica do 4-2-3-1 de Marcelo Chamusca). Daí para o fim da partida, o Dourado se fechou no seu campo e ainda teve oportunidades de aumentar o placar em pleno Estádio Nilton Santos. O Cuiabá tinha defesa forte, muita velocidade pelos lados e jogadores comprometidos com a proposta do seu treinador.

Um dos pontos mais fortes do Cuiabá de Marcelo Chamusca era a marcação. Seja no seu campo ou na intermediária adversária, a equipe do Mato Grosso usava essa característica de maneira ofensiva. Lateral, atacantes e volantes fecham o espaço e “encaixotam” os jogadores oponentes para roubar a bola. Foto: Reprodução / SPORTV

Por mais que as equipes atacassem, o Cuiabá sempre estava pronto para se defender e usava das mais variadas estratégias para isso. Contra o Cruzeiro (em jogo válido pela 13ª rodada do Brasileirão da Série B de 2020), o escrete comandado por Marcelo Chamusca soube como conter o ataque adversário utilizando as duas linhas na frente da área e até mesmo o recuo dos meias abertos no 4-2-3-1 básico do treinador para fechar as laterais. Na prática, um 5-3-2 que poderia até mesmo apresentar seis jogadores na frente da meta defendida pelo goleiro João Carlos. E assim como aconteceu nas partidas contra o Botafogo, os volantes Matheus Barbosa (hoje jogador do Cruzeiro) e Rafael Gava davam o primeiro combate e contavam com a ajuda de Elton (aquele mesmo que jogou no Vasco e no Vitória) e Elvis na marcação dos volantes adversário. Tudo para fechar espaços e retomar a posse da bola o mais rápido possível.

Os pontas do 4-2-3-1 de Marcelo Chamusca recuavam até a última linha para acompanhar os laterais adversários e ajudar na marcação nos momentos em que o Cuiabá não tinha a posse da bola. Na prática, um 5-3-2 que poderia ter até uma linha de seis jogadores na frente da área. Organização e aplicação tática. Foto: Reprodução / Premiere

Mas o Cuiabá também sabia atacar e explorar espaços. Marcelo Chamusca tem preferência por jogadores de muita velocidade nos lados do campo e que também saibam participar da construção das jogadas no meio-campo. Não é raro ver a referência no ataque (Elton no caso da partida contra o Cruzeiro) recuando para dar campo aos três meias do 4-2-3-1 já mencionado anteriormente. Some isso ao estilo de jogo mais vertical do agora treinador do Botafogo e você terá uma equipe extremamente veloz e letal nos contra-ataques. É só conferir a lista de reforços do Glorioso. O volante Pedro Castro tem muita força na marcação e um ótimo passe. E Ronald é um atacante rápido e driblador. Jogadores que se encaixam perfeitamente no estilo de jogo de Marcelo Chamusca. Assim como boa parte dos atletas do Cuiabá se encaixavam. É por isso que o Dourado surpreendeu tanta gente nessa Série B de 2020.

O atacante de referência recua e abre espaço para o avanço do trio de meias. Tudo com muita velocidade e intensidade nas transições para o ataque e sempre explorando bem os lados do campo. O surpreendente Cuiabá de Marcelo Chamusca tinha um estilo de jogo bastante eficiente e competitivo. Foto: Reprodução / Premiere

Os grandes adversários de Marcelo Chamusca no Botafogo são bem conhecidos. O primeiro deles é o caos financeiro que tomou conta do clube nos últimos anos. Falta dinheiro para coisas básicas e a queda de receita ocasionada pelo rebaixamento para a Série B piorou a situação em General Severiano. Além disso, existe a incerteza com relação à continuidade do trabalho. Por mais que a diretoria que assumiu o comando do Glorioso seja outra, ainda está bem viva na memória do torcedor a troca frenética de treinadores na última temporada. Foram cinco no total: Alberto Valentim, Paulo Autuori, Bruno Lazaroni, Ramón Díaz e Eduardo Barroca. Alguns deles nem chegaram a um mês no cargo. Será que Marcelo Chamusca terá tempo para implementar seus conceitos e sem se preocupar com a pressão por bons resultados? Será que a nova diretoria aprendeu com os erros dos dirigentes anteriores?

A história recente está aí para escancarar os erros que alijaram o Botafogo seriamente nesses últimos meses. Além disso, a grande missão do Botafogo nesse ano de 2021 é concentrar forças numa Série B que promete ser uma das mais disputadas dos últimos anos. Ou Marcelo Chamusca ganha a confiança da diretoria e da torcida, ou o Glorioso vai cair no mesmo erro do ano passado e trocar de treinador como quem troca de roupa depois do banho.

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