Marcação alta, jogo vertical e estilo ofensivo: os conceitos táticos de Hernán Crespo, novo treinador do São Paulo

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como o técnico argentino montou o Defensa y Justicia e fala dos seus desafios à frente do Tricolor Paulista

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / São Paulo FC

Anunciado oficialmente no dia 12 de fevereiro, o argentino Hernán Crespo chega ao São Paulo com uma série de desafios pela frente. O mais urgente de todos é a adaptação ao novo país, ao futebol jogado aqui por estas bandas e às cobranças de imprensa, conselheiros e torcedores. Com 45 anos, Crespo tem mentalidade ofensiva e várias ideias de jogo semelhantes às de Fernando Diniz, seu antecessor no comando técnico do Tricolor Paulista, mas com um estilo próprio para atacar, defender e para sair com a bola a partir do goleiro. Seu trabalho à frente do modesto Defensa y Justicia e a conquista do título da Copa Sul-Americana em cima do Lanús (com vitória por 3 a 0 na decisão em Córdoba) comprovam esse “DNA ofensivo” tão desejado e procurado pelos cartolas do São Paulo e só aumentam a expectativa em torno do trabalho do ex-jogador de Chelsea, River Plate, Parma e Internazionale.

Hernán Crespo pendurou as chuteiras em 2012 e iniciou a carreira de treinador na equipe sub-19 do Parma em julho de 2014. Passou pelo Modena e pelo Banfield antes de chegar ao Defensa y Justicia, onde conquistou a Copa Sul-Americana, seu único título como técnico e única conquista do clube da cidade de Florencio Varela. Faz todo sentido esperar do argentino uma mentalidade ofensiva e uma predileção por equipes que joguem para a frente, já que suas principais referências são José Mourinho e Marcelo Bielsa. Seus números à frente do DyJ (como é conhecido o Defensa y Justicia) também reforçam esse perfil mais voltado para o ataque. Em um ano e uma semana no comando da equipe, Hernán Crespo fez 33 jogos, com 14 vitórias, 10 empates e nove derrotas. E o título da Copa Sul-Americana veio com uma campanha invicta: seis vitórias e três empates, com 16 gols marcados e apenas sete sofridos.

É verdade que Hernán Crespo e Fernando Diniz compartilham a mentalidade ofensiva e a predileção pelo ataque. No entanto, as ideias apresentadas em campo são bastante diferentes. Usando o Defensa y Justicia campeão da Copa Sul-Americana como base para esta análise, Crespo variou bastante o desenho tático da equipe. Usou o 4-4-2, o 4-2-3-1 e até mesmo um 3-1-4-2 que aproveitava a intensa movimentação da dupla de ataque formada por Walter Bou e Braian Romero entre os zagueiros adversários. Com a bola, o DyJ se organizava numa espécie de 3-2-5 com Héctor Martínez organizando a saída de bola entre os zagueiros, Larralde e Pizzini se revezando no apoio ao ataque e na construção das jogadas com Enzo Fernández (o volante mais recuado no meio-campo da equipe argentina). Com isso, os alas Franco Paredes e Eugenio Isnaldo abriam o campo e criavam espaços na defesa adversária.

Com a posse da bola, o Defensa y Justicia se organizava num 3-2-5 que explorava muito bem a mobilidade de Bou e Romero no ataque e a amplitude gerada pelos alas Paredes e Isnaldo. Mais atrás, os volantes Larralde e Pizzini se revezavam no apoio ao ataque e na construção das jogadas. Foto: Reprodução / YouTube / Conmebol Sudamericana

O principal objetivo desse 3-2-5 é ter sempre superioridade numérica na última linha adversária. É o mesmo princípio usado por Jorge Sampaoli no Atlético-MG e por Abel Ferreira no Palmeiras. A diferença é que o Defensa y Justicia de Hernán Crespo não fica tanto tempo rodando a bola. O estilo de jogo adotado pelo ex-jogador argentino é muito mais vertical e intenso. A influência de Marcelo Bielsa aqui neste quesito é facilmente perceptível. Movimentação constante, intensidade alta nas transições e muita mobilidade na linha de cinco atacantes. As infiltrações dos homens de frente nos espaços criados nas defesas adversárias quando Larralde, Pizzini ou Enzo Fernández recebiam a bola na intermediária eram as principais armas ofensivas do Defensa y Justicia de Hernán Crespo. O primeiro gol da decisão da Copa Sul-Americana (marcado por Frias) saiu justamente dessa estratégia.

Volante recebe a bola na intermediária, vê a infiltração do atacante no espaço vazio e faz o passe vertical. A movimentação constante do ataque do DyJ abria buracos imensos nas defesas adversárias e permitia passes mais verticais. Vários gols da equipe na Copa Sul-Americana nasceram assim. Foto: Reprodução / YouTube / Conmebol Sudamericana

E para a alegria do torcedor do São Paulo, Hernán Crespo pensa a saída de bola de um jeito bem diferente de Fernando Diniz. O goleiro participa sim desse início de construção das jogadas, mas tende a ficar mais recuado e deixar essa tarefa com os zagueiros e volantes. Nesse ponto (como bem observou Leonardo Miranda, jornalista e analista de desempenho do GE), Crespo está muito mais para Juan Carlos Osorio e Rogério Ceni do que Fernando Diniz. Tanto que a marcação tende a ser muito mais intensa do que seu antecessor no comando do Tricolor Paulista. O posicionamento mais avançado das linhas do Defensa y Justicia abria espaços na defesa e a pressão no portador da bola (bem característica do futebol argentino) permitiam que os adversários conseguissem fazer viradas de jogo. Mas a ideia principal está ali: um jogador sai da sua linha para pressionar e outros ficavam na cobertura.

Mesmo jogando com três zagueiros, o Defensa y Justicia de Hernán Crespo seguia um método bem “argentino” nos momentos defensivos. Um dos jogadores abandonam seu posicionamento para fazer a pressão na bola e outros ficavam na cobertura para acionar o contra-ataque em alta velocidade. Foto: Reprodução / YouTube / Conmebol Sudamericana

Uma das críticas mais recorrentes no trabalho de Hernán Crespo nos seus tempos de Banfield e Modena tinha relação direta com o número de gols sofridos. Nem tanto por conta das suas ideias de jogo (já explicadas anteriormente), mas da execução delas dentro de campo. Não é sempre que a marcação alta e o mecanismo utilizado para pressionar a saída de bola do adversário não funcionava. Todas as vezes em que seus oponentes conseguiam chegar no campo do DyJ, a solução era aplicar as perseguições individuais com a linha defensiva realizando a cobertura para minimizar o perigo. Cada ideia de jogo traz seus prós e contras, seus pontos fortes e pontos fracos. E não é diferente com Hernán Crespo. Sua quinta experiência como treinador (contanto a equipe sub-19 do Parma) vai depender diretamente da execução e da assimilação dessas ideias pelo elenco do São Paulo nas próximas semanas.

A principal dúvida reside na maneira como torcida, dirigentes e imprensa irão reagir caso os resultados não apareçam num primeiro momento. Hernán Crespo terá tempo para se adaptar ao novo clube e a toda uma maneira diferente de se enxergar o futebol? Ainda mais num clube que sofre com a forte pressão nos bastidores? Será que o argentino vai contar com a paciência de todos dentro do Tricolor Paulista para implementar seu modelo de jogo? Será que os reforços (altamente necessários) serão pensados dentro da ideia de jogo que Crespo tem? São perguntas que só serão respondidas daqui a alguns meses (ou menos). Pelo que se tem visto, os dirigentes do São Paulo parecem ter compreendido que será preciso passar por um período de transição e adaptação do elenco às ideias do seu novo treinador. Resta saber se essa postura vai resistir à pressão por bons resultados logo nas primeiras partidas.

Hernán Crespo tem boas ideias, fez um ótimo trabalho no Defensa y Justicia e tem potencial para se transformar num dos grandes treinadores da sua geração. No entanto, o quarto treinador estrangeiro do São Paulo desde 2015 (!!!) vai precisar de tempo, condições para trabalhar e blindagem da mesma diretoria que está apostando nessa mudança de conceitos. Ainda mais numa temporada de 2021 que tem tudo para ser uma das mais insanas dos últimos anos.

CONFIRA OUTRAS ANÁLISES DA COLUNA PAPO TÁTICO:

Jogo coletivo, competitividade e atuação mágica de Gündogan: entenda como o Manchester City colocou o Tottenham na roda

Seria essa a melhor geração da história do futebol português?